Pesquisa recupera a trajetória de integrantes da Revolta dos Marinheiros

Historiador encontra imprecisão em análises sobre movimento que questionou regulamentos da Marinha às vésperas do Golpe de 64

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Grupo estava  inserido em movimento mais amplo das Forças Armadas, que se organizaram em associações para melhora das condições de trabalho, entre outras reivindicações, “numa conjuntura de intensa mobilização e interação cultural e social, do início dos anos 1960” – Ilustração: Caio Vinícius Bonifácio/Jornal.usp.br

Ao estudar a trajetória de um grupo de ex-marinheiros que integrou a diretoria da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), e que protagonizou a Revolta dos Marinheiros às vésperas do Golpe de 1964, o historiador Flávio Luís Rodrigues pôde constatar algumas imprecisões em como os acontecimentos foram registrados. E o anacronismo, ou seja, o uso de linguagem, valores e ideias que não correspondiam ao contexto da época para se analisar os fatos, podendo lhes atribuir conotação pejorativa. “Até hoje a historiografia debate o significado desse episódio histórico”, afirma o pesquisador.

Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Rodrigues defendeu sua tese de doutorado Marinheiros contra a ditadura brasileira: AMFNB, prisão, guerrilha – nacionalismo e revolução?. O estudo se debruça sobre os acontecimentos que envolveram a vida do grupo de ex-marinheiros que ele denomina em sua pesquisa de “coletivo”, desde o episódio da revolta até a morte do líder da AMFNB, Marcos Antônio Silva Lima, em janeiro de 1971.

O historiador Flávio Rodrigues é o autor do estudo “Marinheiros contra a ditadura brasileira: AMFNB, prisão, guerrilha – nacionalismo e revolução?” – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo o historiador, num feriado da Semana Santa  ̶  entre 25 e 27 de março de 1964  ̶  que antecedeu o golpe, os diretores da AMFNB organizaram uma confraternização “banhada a guaraná e pão com mortadela” para comemorar o segundo aniversário da entidade. “No entanto, o que era para ser uma festa acabou se tornando um protesto”, descreve Rodrigues. “Lá estavam cerca de 1.500 presentes que reivindicavam, além do reconhecimento da entidade, melhores condições nos navios, o desconto dos associados no holerite e a desobrigação de andarem uniformizados quando não estivessem em serviço.”

A AMFNB não era reconhecida pelo comando da Marinha e os que lá estavam, como conta o historiador, afirmaram que não deixariam o local enquanto as reivindicações não fossem aceitas. “A resistência daqueles marinheiros, quase todos jovens, teve como consequências o fechamento da entidade, a condenação pela Justiça Militar e a expulsão de todos os que lá estavam”, conta Rodrigues.

O anacronismo

À época da revolta, a AMFNB tinha como seu presidente o marinheiro José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo. O que o historiador detectou como um “anacronismo” já fora percebido enquanto ele realizava seu estudo de mestrado. “Foi quando entrevistei 23 pessoas que estavam ligadas à associação antes de seu fechamento pelos militares”, lembra o historiador.

Anos depois, já na década de 1970, o Cabo Anselmo tornou-se um agente duplo da ditadura, quando fez um acordo com o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), para se infiltrar e destruir as organizações guerrilheiras. “Foi quando esses escritores e alguns jornalistas associaram as atividades da AMFNB ao futuro do Cabo Anselmo, condenando todo o passado da entidade”, destaca Rodrigues, lembrando que a AMFNB “protagonizou uma mobilização extremamente significativa e enraizada em uma realidade social rica e multifacetada.”

Conforme ocorriam as entrevistas e as pesquisas documentais, Rodrigues percebeu que, além de nenhum entrevistado aceitar que Anselmo já fosse um agente policial enquanto ocupava a presidência da AMFNB, observou também que os diretores não se dispersaram depois do Golpe de 1964, mantendo-se unidos como que por um compromisso assumido nos tempos da AMFNB.

Os relatos falavam da participação deste coletivo em várias organizações guerrilheiras, de prisões, de roubos a bancos, de troca de tiros com a polícia, de Leonel Brizola, de Marighela, de fuga da penitenciária pelo portão da frente, e de muito mais.

Pela porta da frente

Entre os anos de 1966 e 1967, ex-diretores da AMFNB foram então presos num presídio comum, o Lemos Brito, no Rio de Janeiro. “Lá eles se organizaram e, pacientemente, tramaram uma fuga que pode ser considerada ‘espetacular’”, conta Rodrigues. Segundo o historiador, houve um amadurecimento político desse grupo, por intermédio de leituras e discussões. Passaram a não aceitar a condição de presos comuns, reivindicando a união em apenas um presídio das dezenas de marinheiros punidos com o Golpe de 1964. E conseguiram! Havia pelo menos três objetivos práticos: ajudar os presos comuns e suas famílias a terem uma vida mais digna; preparar-se para a luta armada, por intermédio de leituras e contatos com organizações guerrilheiras; e planejar, pacientemente, a fuga do Lemos Brito, “pela porta da frente”.

Jornal O Globo, 29 de maio de 1969, p. 16. Observar Érika Roth, que foi até a sede do jornal pedir retratação – Imagem: Reprodução/Jornal O Globo

(Clique nas imagens para ampliar)

Jornal O Globo. 18 de dezembro de 1969. Página 33 – Imagem: Reprodução/Jornal O Globo

O “Anjo 45”

Em sua pesquisa, Rodrigues retrata ainda a trajetória de Avelino Capitani, um dos componentes do coletivo, sobre o qual, no dia 22 de dezembro de 1969, o Jornal do Brasil trouxe uma revelação interessante: “Avelino Riani [Biden] Capitani é considerado pelos policiais como um guerrilheiro autêntico, e participou do primeiro grupo descoberto na Serra do Caparaó, em Minas Gerais. Chegou a ser considerado morto durante as operações realizadas pelas autoridades em Angra dos Reis para caçar os fugitivos da Penitenciária Lemos de Brito”.

De acordo com o historiador, por onde passava, Capitani deixava um rastro de sangue. “Após trocar tiros com uma radiopatrulha, ferido e sangrado muito, Capitani subiu o Morro do Juramento, onde encontrou a receptividade da comunidade, que não deu qualquer informação aos policiais”, conta Rodrigues. Ele prossegue: “Como sentia muita sede por causa da hemorragia, Capitani parou num bar e, pacientemente, tomou uma Coca-Cola, pagou e foi socorrido por uma senhora, que o levou para seu barraco, fez os curativos, e o filho lhe deu camisa limpa, para livrar-se da ensanguentada. Depois de deixar a marca de sua mão manchada de sangue numa pedra, enquanto bebia água de uma fonte, Capitani se enterrou num buraco, cobrindo-se de terra e folhas.” Rodrigues conta que ali ele podia ouvir a conversa dos policiais que passavam bem próximos dele. No segundo dia “enterrado”, Capitani saiu e deu de cara com a comunidade, impressionada com sua resistência. Diziam: “É ele!”.

O historiador cita em sua pesquisa as palavras de Capitani: “Vi o morro inteiro me olhando, parecia que a cidade toda estava em cima de mim”. Segundo Rodrigues, a epopeia de Capitani foi muito divulgada pela imprensa e comentada na cidade do Rio de Janeiro. Logo, começaram a chamá-lo de “Gatilho nº 1”, “Charles Anjo 45”, “Guerrilheiro” e outros. “Alguns meses depois, as rádios começaram a tocar uma música que contava a aventura de Capitani, chamada Charles, Anjo 45, de Jorge Ben Jor, que acreditava que Capitani tinha morrido”, descreve o historiador em sua pesquisa. Segundo Rodrigues, Jorge Ben Jor, depois que Charles “voltou”, nunca confirmou que a música fazia referência a Capitani, “muito provavelmente por causa dos tempos sombrios da ditadura”.

Charles, Anjo 45
Jorge Ben Jor

Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem

Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal…

Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou
Pois o morro que era do céu
Sem o nosso Charles
Um inferno virou…

Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Paz alegria geral
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval

Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais…

Muitas queimas de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar…

E o povo inteiro feliz
Assim vai cantar…
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Ouça também a entrevista do historiador para a Rádio USP:

Grupo que participou da Revolta dos Marinheiros tem sua trajetória revisitada

 

Mais informações: e-mail flaviorodrigues@usp.br, com Flávio Luís Rodrigues

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