Feminismo islâmico transforma a vida da mulher muçulmana

Pesquisa revela relações com islamismo e limites práticos de seu caráter religioso sobre seu caráter feminista

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O feminismo islâmico, de caráter político-religioso, faz uso de uma narrativa relativizada, dirigida exclusivamente às mulheres islâmicas – Ilustração modificada via Think Olga

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O feminismo islâmico tem dado um arcabouço argumentativo para as mulheres discutirem a sua condição dentro da religião”. A avaliação é da pesquisadora Cila Lima, que, após constatar a existência do movimento, decidiu investigar quais são suas contribuições para a transformação da vida da mulher muçulmana, considerando tanto a relação que este estabelece com o islamismo quanto as implicações de seu caráter religioso sobre seu caráter feminista. Baseado nas próprias narrativas de diferentes feministas islâmicas expoentes — como Amina Wadud, Azizah Al-Hibri e Ziba Mir-Hosseini —, o estudo deu origem à tese de doutorado Feminismo Islâmico: mediações discursivas e limites práticos.

Um movimento não isolado

De acordo com a pesquisa, existem três principais movimentos sociais de mulheres muçulmanas: o secular, de caráter político-social, que faz uso de uma narrativa feminista universalista, dirigida a todas as mulheres de sua localidade; o islamista, que rejeita o feminismo e atua de acordo com leituras literais e de raízes fundamentalistas das fontes religiosas islâmicas; e o islâmico — este último,  conforme o estudo aponta, surge do encontro dos dois primeiros.

Diferenciando-se de ambos, o feminismo islâmico, de caráter político-religioso, faz uso de uma narrativa relativizada, dirigida exclusivamente às mulheres islâmicas, e atua com base na releitura das fontes religiosas do Islã sob um ponto de vista feminista, no intuito de  “revelar possíveis direitos emancipatórios para melhorar o status sócio-político das mulheres muçulmanas”, lutando contra sua opressão e dominação. Surgido nos anos 1980, ele teria se originado de forma “desterritorializada e transnacional” – diferente do que ocorreu com os outros dois movimentos sociais anteriormente citados, ambos originários de um só país, o Egito. “Ao mesmo tempo, surgem escritos e movimentos em vários países, todos com o mesmo discurso”, explica Cila.

A feminista islâmica Amina Wadud – Foto: Divulgação / Starr King School for the Ministry

Apesar de ter surgido em países predominantemente muçulmanos, a pesquisa demonstra que, ao contrário do que sugere o senso comum, o feminismo islâmico, assim como outros  movimentos feministas em países muçulmanos, não está isolado do contexto internacional e desenvolve-se junto a outras vertentes feministas ao redor do mundo. O estudo aponta ainda para o fato de que, além de dialogar com outros movimentos, o feminismo islâmico conta com ativistas que debatem entre si em suas literaturas, ainda que de forma não declarada; e se relaciona com organismos internacionais, embora não seja dependente deles como ocorre no caso do movimento secular aqui citado. “As mulheres muçulmanas estão em movimento”, ressalta a pesquisadora — vale destacar que a tese apresenta um levantamento da presença dos movimentos feministas em países muçulmanos, bem como de suas produções, de ONGs baseadas em países de maioria muçulmana e de ONGs feministas internacionais ou das Nações Unidas que atuam nos países árabes ou muçulmanos.

Religião versus feminismo: limites práticos

De acordo com o estudo, o caráter religioso do feminismo islâmico desempenha uma “dupla função” sobre seu caráter feminista, já que, ao mesmo tempo, o estende e o limita. Por um lado, o aspecto não secular do movimento contribui para que a argumentação sobre o determinismo da submissão da mulher ao poder patriarcal seja desconstruída, de forma mais plural que os feminismos seculares em países muçulmanos. “Os feminismos seculares muçulmanos se mantinham elitistas […] nos meios populares e tradicionais eles não tinham acesso, ao contrário do feminismo islâmico”, comenta Cila. Por outro lado, ele impossibilita o pensamento sobre questões relacionadas a gênero fora dos limites estabelecidos pela religião — como pensar na sexualidade de maneira mais ampla.

A especialista em lei islâmica e gênero Ziba Mir-Hosseini – Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

A pesquisadora reforça, contudo, que a função extensora do caráter religioso do movimento se sobressai ao seu aspecto limitador, sobretudo porque este último existe estrategicamente, para evitar que ocorram maiores conflitos com autoridades e juristas tradicionalistas. Vale destacar, ainda, que o estudo demonstra que Islã, modernidade, direitos humanos e feminismo podem, sim, coexistir. “Embora foram traçados limites em sua atuação prática, não se traçou esses limites em sua argumentação teórica e ideológica feminista”, aponta a pesquisadora no trabalho.

Lacunas ainda existentes

Cila avalia que para haver uma transformação efetiva na vida das mulheres muçulmanas é necessário discutir as leis em vigor nos locais onde vivem, sendo fundamental, consequentemente, que essas mulheres ocupem lugares nos parlamentos de seus respectivos países. No estudo, a pesquisadora ressalta que enquanto cursos de educação islâmica são dados, por ano, para uma minoria de muçulmanas, milhares de outras mulheres continuam sendo punidas violentamente, por suas comunidades, famílias e/ou companheiros, com apoio das leis.

Nesse sentido, a pesquisadora aponta uma lacuna existente no próprio movimento: a importância secundária dada pelo feminismo islâmico à formação de lideranças políticas que atuem tanto na elaboração quanto na execução dessas leis. “Se essas mulheres que recebem os cursos islâmicos estivessem sendo formadas para se inserirem nos parlamentos, no mínimo essas leis de punição estariam sendo questionadas, recebendo de alguma forma emendas positivas e lei protetivas poderiam, ao menos, estar sendo debatidas”, analisa Cila na pesquisa.

A tese de doutorado foi orientada pelo professor Peter Robert Demant e defendida, em maio, no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – o trabalho na íntegra pode ser conferido aqui.

Mais informações: e-mail cilalimma@gmail.com, com Cila Lima

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