Canções da música brasileira expressam emoções dos migrantes

Pesquisa revela como criações musicais expressaram a migração brasileira ocorrida com a urbanização em 1960-70

Por - Editorias: Ciências Humanas
Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

chapeu_ciencia_em_revista00_zero

Foto: Amanda Oliveira/ GOVBA via Fotos Públicas
Foto: Amanda Oliveira/ GOVBA via Fotos Públicas

00_zero

Problemas econômicos e ecológicos são alguns dos principais fatores da migração no Brasil, a qual ocorre notadamente no Nordeste e no Sudeste do País. Muitos dos que moram no campo e vão morar na cidade encontram variadas dificuldades de adaptação, e o brasileiro, povo considerado bastante musical, quando migrante, relata, não raro, seus sentimentos na arte, sobretudo na música, expressando seus conflitos a respeito das mudanças de moradia, de uma região para outra, de um Estado para outro, pois, dessa maneira, parece que esses depoimentos chegam mais rápido à compreensão de quem os escuta. Assim, os autores nos apresentam a “cidade cantada” como uma representação social, percebida e revelada nos hábitos e costumes da população.

O artigo de Leonelli e Baldam, recém-publicado na revista Pós, trata da apresentação de pesquisa cujo foco é a migração brasileira ocorrida em pleno processo de urbanização nas décadas de 1960-1970, expresso nas criações musicais de autores emblemáticos da música popular brasileira, como Gilberto Gil e Dominguinhos, com Lamento sertanejo, e Milton Nascimento e Fernando Brandt, com Ponta de areia. As canções referidas tratam da “cidade ausente”, termo escolhido para Leonelli e Baldam contarem sobre o sentimento de conflito das populações migrantes no Brasil.
.

Vegetação predominante do sertão brasileiro- Foto: Diogo Sergio via Wikimedia Commons
Vegetação predominante do sertão brasileiro- Foto: Diogo Sergio via Wikimedia Commons

.
A proposta é estabelecer a interconexão entre dois campos de investigação: o de pesquisas urbanas e o de análise musical. Como resultado, o artigo demonstra que os estudos sobre os processos urbanos “podem ser enriquecidos a partir de abordagens transdisciplinares de investigação”. O “sentimento urbano” dos que estão, por contingências diversas, fora de seu lugar de origem, é muito bem representado nas músicas analisadas, nas escolhas melódicas e harmônicas dos compositores referidos. Para Leonelli e Baldam, a música popular brasileira é exemplo dessa “representação de conflitos, desajustes, segregações e dilemas vividos na cidade, refletindo as relações dos moradores com a cidade como espaço físico-social”.

O contexto histórico das composições revela os compositores e intérpretes como representativos de um tempo e de uma sociedade nos quais residem personagens e suas dificuldades, esperanças e entraves gerados pelas características do espaço urbano. Lamento sertanejo fala da “ausência pela lembrança”, do sentimento de deslocamento, ausência da cidade natal, ausência de pertencimento: Eu quase que não consigo/Ficar na cidade sem viver contrariado. Essa é uma música extremamente representativa da década de 1960, que ilustra, segundo Leonelli e Baldam, as “dificuldades de inserção do migrante nas cidades que demandavam mão de obra, como o enfrentamento dos surtos de xenofobia, as tragédias sociais e as dificuldades de adaptação aos locais de destino”.

Foto: Centpacrr via Wikimedia Commons

Se Lamento sertanejo é a “ausência pela lembrança”, Milton Nascimento traz “a ausência pelo esquecimento” em Ponta de areia: ponto final/da Bahia-Minas… Maria fumaça não canta mais… Na praça vazia um grito… Casas esquecidas. O tema da música são as relações estabelecidas a partir do trem e da estrada de ferro, e as cenas são conduzidas pela memória, pois se fala de um tempo que não existe mais. A maria fumaça possibilitava o trânsito de produtos agrícolas e matéria-prima entre cidades e até países. Com a desativação da estrada de ferro, seu legado é a falta de emprego e a saudade das viagens, de “idas e vindas, encontros e desencontros”. Finalizando, os autores concluem: “A representação social por intermédio da música popular brasileira pode oferecer outras abordagens de leituras sobre o processo de urbanização do nosso país”.

Gisela Cunha Viana Leonelli é professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas.

Rafael Baldam é mestrando do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP.

LEONELLI, Gisela Cunha Viana; BALDAM, Rafael. Cidade ausente: interdisciplinaridade de um sentimento urbano entre a música e a migração brasileira. Pós. Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU, São Paulo, v. 23, n. 41, p. 76-89, dez. 2016. ISSN: 2317-2762. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/posfau/article/view/115387>. Acesso em: 06 fev. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

Textos relacionados