A atualização das interfaces médicas em aparelhos de imagem

As imagens apresentam-se turvas ou escuras e podem esconder doenças em equipamentos que custam milhões de dólares, diz Luli Radfahrer

 Publicado: 15/09/2023
Por

As interfaces de aparelhos de diagnóstico médico deveriam ser  modernizadas com imagens mais claras e legíveis. Recentemente, eu precisei fazer um ultrassom em um check-up de rotina e, olhando a tela do computador, a imagem – ou melhor, a falta dela – foi me deixando incomodado com aquela coisa horrorosa e preta. Além disso, o  sujeito tem que mexer com uma bola, coloca um número, precisa de dois técnicos para interpretar, é um horror aquilo. O que se quer é uma interface de IPhone, que, aliás, é uma das características dos médicos: gostar de tecnologia.

A ideia é que, se você tem uma interface ruim, você precisa de um técnico para interpretar, e esse técnico precisa de treinamento e esse técnico pode errar. Ou seja, eu só tenho a perder com a interface feia. Ao contrário, se eu faço um negócio que é bonitinho: um, eu não preciso do técnico; dois, se eu tiver o técnico, ele não precisa passar por treinamento; e três, fica fácil identificar um problema ali dentro. Imagina se você tiver um aplicativo no seu telefone ou tablet para acessar essas máquinas caríssimas? Uma máquina dessa custa uma fortuna, cerca de US$ 100 mil, US$ 1 milhão. Por que, então, a tela dela é aquela coisa horrorosa preta? Parece que roda MS-DOS (sistema operacional) nelas. O seu PC velho rodando Windows é muito melhor do que aquela máquina caríssima e nova. Isso ajuda muito a pensar o quanto de dinheiro é perdido com treinamento e com diagnóstico errado, só porque a interface é ruim.

E elas são ruins porque às vezes a evolução é muito linear. Quando essas máquinas começaram a surgir, nos anos 60, o que você tinha era um tubo, que você via aquilo, e um outro computador realmente rodando DOS, que você escrevia. Muitas vezes, o computador é o burocrata digital, quer dizer, você pega aquele processo que era feito por um burocrata, e aí você enfia no computador, e ele fica ruim igual. Então, a maior parte das interfaces médicas foi passando por pequenas atualizações, foi acertando um pouquinho. É aquela história do sapo que vai esquentando junto com a água  e não percebe que ele está fervendo lá dentro. Ou aquele sujeito no meio daquela enorme bagunça e nem percebe.

A inteligência artificial e uma interface bonita podem deixar o sistema muito melhor, mas aí é aquele problema que as pessoas morrem de medo, porque vai acabar com o emprego do radiologista. Mas já era uma função que não tinha que ter. Por que eu tenho que ter uma pessoa que interpreta a imagem para contar para o médico? Será que o computador não pode interpretar a imagem para o médico já ler? Com a inteligência artificial e uma interface bonitinha, é possível ver as diversas áreas do corpo e identificar a que não está normal. Só se tem a ganhar, porque essas máquinas são caríssimas.

Não estamos falando da questão estética, não é só isso. Se eu tenho algum problema no pâncreas ou no baço e a pessoa não conseguiu ver porque a interface é ruim ou porque ela não está bem treinada, aí eu vou me dar muito mal. E eu acho que é preciso lutar por interfaces melhores. A gente ganha muito mais.


Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.