LIVROS FUVEST

Série do Jornal da USP aborda as obras exigidas no exame de ingresso para a USP

Marília de Dirceu lembra a liberdade de amar

O livro de Tomás Antônio Gonzaga está entre as leituras obrigatórias do vestibular da Fuvest. E traz aos estudantes a poética das liras

 25/08/2023 – Publicado há 11 meses     Atualizado: 14/11/2023 as 16:58
Por Leila Kiyomura
Arte: Moisés Dorado

Fotomontagem Jornal da USP sobre o quadro “Ponte Marília de Dirceu”, página de livro e ilustração/Creative Commons 3.0/EBC

“Quem não gosta de ler sobre o amor?”, pergunta o professor Jean Pierre Chauvin aos estudantes que vão participar do vestibular 2024 da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), que seleciona candidatos aos cursos da USP. “Esse é um tema que realmente vai interessar a todos. E as liras de Tomás Antônio Gonzaga são realmente muito bonitas.” 

Professor de Cultura e Literatura Brasileira da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e especialista em Arcadismo, Chauvin orienta os vestibulandos/leitores sobre o livro Marília de Dirceu, a obra mais relevante do poeta luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga. Porém, logo  no início da conversa, faz um esclarecimento importante. Embora Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão tenha realmente existido e inspirado o poeta a retratá-la, o livro é inventado. “Ao contrário do que muitos críticos apontam, a história não é autobiográfica.”

Não há como os estudantes deixarem de se envolver com o romance de Marília e Dirceu, representados de acordo com os preceitos da poesia bucólica, que remonta à Antiguidade. Por sinal, os candidatos já devem estar lendo e relendo as liras, cuja poética do amor – emoldurada pela encenação da natureza, mas que também reserva espaço para descrever a opressão e o sofrimento no cárcere – justifica a sua leitura obrigatória no vestibular da Fuvest 2024. Chauvin apresenta um resumo da obra e situa o autor:

Capa de uma das edições do livro de Tomás Antônio Gonzaga – Divulgação Penguin-Companhia das Letras

Marília de Dirceu é um livro composto de poemas líricos, cuja autoria foi atribuída a Tomás Antônio Gonzaga. Ele nasceu no Porto, em Portugal, em 1744. Órfão de mãe muito cedo, veio para o Estado do Brasil com o pai em 1751, onde permaneceu até 1761, quando retornou a Portugal. Em Coimbra, tornou-se bacharel em Leis em 1768 e chegou a ocupar o cargo de juiz de fora em Beja. Em 1782, está de volta ao Estado do Brasil,  desta vez a Vila Rica (atual Ouro Preto), onde atuou como ouvidor dos Defuntos e Ausentes.”

 Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado; 
De tosco trato, d’ expressões grosseiro, 
Dos frios gelos, e dos sóis queimado. 
Tenho próprio casal, e nele assisto; 
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela!

“Originalmente, a primeira parte do livro foi publicada em Lisboa, em 1792, pela Tipografia Nunesiana; a segunda, em 1799, pela Oficina Nunesiana, totalizando 65 liras. Já a terceira parte, que encontramos nas edições atuais, foi publicada apenas em 1812 pela Impressão Régia, também em Lisboa”, observa Chauvin. “Há dúvidas sobre a autoria dos textos reunidos na última seção, tanto por conta do estilo empregado neles quanto devido ao fato de se tratar de poemas de gêneros e temas variados, que não guardam relação com aqueles encontrados nas partes 1 e 2. Repare-se, ademais, que Gonzaga morreu em Moçambique em 1810, dois anos antes de a ‘terceira parte’ ter sido impressa.”

“Esse poema lembra Camões, resgata uma reflexão que ele registrou dois séculos antes do livro de Tomás Antônio Gonzaga. Lembra que o tempo é fugaz e que tudo passa.”

 Lira XIV

Minha bela Marília, tudo passa, 
A sorte deste mundo é mal seguro, 
se vem depois dos males, a ventura
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos deuses 
Sujeitos ao poder do ímpio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante
já foi pastor de gado.

Ao ler a Lira XIV, o professor Jean Pierre Chauvin faz uma observação pontual: “Esse poema lembra Camões, resgata uma reflexão que ele registrou dois séculos antes do livro de Tomás Antônio Gonzaga. Lembra que o tempo é fugaz e que tudo passa. Daí ser preciso fugir da cidade, cultivar o campo e contemplar a natureza”.

Interessante também a análise de Chauvin sobre a opção do poeta pela estética das liras. “Com essa escolha, Tomás Antônio Gonzaga não fica preso em formas como sonetos. Através da lira, ele consegue fazer poemas com rimas e métricas diferentes. Ou seja, é como se o poeta registrasse, através das liras, a liberdade de amar.” 

“Afora o prazer em reler e estudar os poemas encontrados em Marília de Dirceu, há que se levar em conta o fato de resgatarmos pequena parte da produção de homens letrados que frequentavam a Corte.”

Chauvin esclarece ao vestibulando/leitor sobre o tempo do Arcadismo. “Nos manuais de literatura brasileira, costuma-se situar o assim chamado Arcadismo entre 1768 e o início do século 19, embora o termo Arcadismo tenha sido inventado muito tempo depois, derivando da multiplicação de academias de história, filosofia e poesia nas partes do reino português, o que já acontecia pelo menos desde 1724, com a Academia dos Esquecidos, na Bahia”, analisa. “A maior parte dos membros era constituída por homens letrados religiosos, capitães, senhores de terras e magistrados, que ocupavam cargos estratégicos no reino. Assim como acontecia nas outras academias europeias, desde o final do século 17, os árcades se reuniam periodicamente em sessões regradas onde havia declamações de poemas, desafios verbais e outras práticas letradas, a exemplo da glosa de motes previamente dados.” 

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo o professor, os biógrafos acreditam que Tomás Antônio Gonzaga frequentava a residência do poeta Cláudio Manuel da Costa, de quem era muito próximo. Também se costuma dizer que os versos de Marília de Dirceu foram escritos em homenagem a Maria Doroteia Seixas, uma jovem com quem Gonzaga teria se relacionado enquanto esteve nas Minas Gerais, entre 1782 e 1789, ano em que foi acusado como conjurador. “Após cumprir pena na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, por três anos, em 1792 ele foi condenado ao degredo em Moçambique, onde se casou com Juliana de Sousa Mascarenhas, filha de um poderoso escravista local. Gonzaga ocupou altos cargos na administração do reino, também durante o degredo, tendo falecido em 1810, quando era juiz de alfândega de Moçambique.”

Ilustração de Tomás Antônio Gonzaga – Reprodução/Wikipedia Commons)

Na avaliação do professor, é importante que os estudantes conheçam as obras que circularam nas partes do reino de Portugal, como o Brasil, entre os séculos 16 e 17.  “Afora o prazer em reler e estudar os poemas encontrados em Marília de Dirceu, há que se levar em conta o fato de resgatarmos pequena parte da produção de homens letrados que frequentavam a Corte do reino e participavam dos poderosos círculos de poder, dentro e fora de Portugal. Em rigor, não se trata de um livro romântico, que se refere a um movimento posterior, tanto em Portugal quanto no Brasil, mas de um conjunto de liras de temática amorosa que retomam temas e lugares-comuns encontrados em poetas da Antiguidade greco-latina, medieval e moderna”, destaca. “Nos versos de Gonzaga, percebe-se a presença de Teócrito, Horácio, Petrarca e Camões, autores que também deixaram poemas líricos, muitos deles ambientados em cenários bucólicos. Devido à presença desses assuntos e gêneros, parte dos estudiosos passou a denominar a poesia do século 18 como neoclássica, embora possamos discutir a terminologia.”

“Deve-se celebrar a presença dessas e de outras obras, anteriores ao nosso mundinho digital, devido à sua qualidade literária.”

Nos últimos 30 anos, segundo enfatiza Chauvin, os estudos sobre as práticas letradas que circularam entre os séculos 16 e 18 ganharam novos modos de ler, dentro e fora do País, que permitem nos aproximarmos dos modos de leitura dos tempos e lugares em que esses textos circulavam inicialmente. “Nesse sentido, poemas como aqueles encontrados em Marília de Dirceu passaram a ser interpretados não apenas como textos confessionais, atrelados a episódios biográficos de um poeta sincero, mas especialmente como produtos literários codificados que respeitavam a longa tradição dos gêneros poéticos – épica, lírica, sátira etc. – e suas particularidades”, observa. “Hoje, sabemos que Tomás Antônio Gonzaga lia e traduzia os poetas antigos, a exemplo de Horácio – um nome recorrente nas obras de sua autoria, por exemplo, nas Cartas Chilenas.”

Diante da importância de estimular a cultura, a pesquisa, o conhecimento e a reflexão no Brasil de hoje, Jean Pierre Chauvin conclui: “Deve-se celebrar a presença dessas e de outras obras, anteriores ao nosso mundinho digital, devido à sua qualidade literária e ao seu interesse como documento histórico de uma sociedade do antigo regime, cujas regras não são mais aquelas que seguimos, embora tenhamos nossos costumes e convenções também. O livro Marília de Dirceu reúne belos poemas de temática amorosa que dizem muito sobre os repertórios culturais de Gonzaga e comprovam o interesse geral em descrever e discutir os efeitos provocados por Eros ou Cupido, entre os latinos, em nossos corações e mentes. O amor é um tema universal, encontrado em todos os tempos e lugares.”

O livro Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga,  encontra-se disponível em várias edições. Está disponível em domínio público neste link: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2012

O livro Pedra, Penha, Penhasco – A Invenção do Arcadismo Brasileiro, do professor Jean Pierre Chauvin, sobre a poesia árcade, está disponível gratuitamente neste link: https://pedroejoaoeditores.com.br/produto/pedra-penha-penhasco-a-invencao-do-arcadismo-brasileiro/

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