Em “Alguma Poesia”, sujeito poético é chave para observar o Brasil

Livro indicado pela Fuvest, obra de Carlos Drummond de Andrade traz o poeta como um “gauche” com olhar crítico para o País

 23/06/2021 - Publicado há 3 meses  Atualizado: 21/07/2021 as 16:22
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Arte de Lívia Magalhães com imagem de Reprodução/Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade

 

Alguma Poesia talvez seja o nome de batismo mais humilde já atribuído a um clássico da literatura brasileira. Apesar do buzinaço que o poema No Meio do Caminho havia causado pouco antes, obviamente Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) não adivinhava que uma quantidade caudalosa de poemas embalados no livrinho ganhariam imortalidade nos cânones da poesia em língua portuguesa – pedras preciosas do quilate de Poema de Sete Faces, Infância, Política Literária, Poesia, Cidadezinha Qualquer, Quadrilha e Cota Zero, além do já citado No Meio do Caminho. Cautela e timidez na escolha de um título que adiantava a personalidade do próprio poeta, esparramada pelos versos que encorpam a obra. Alguma Poesia é uma das leituras indicadas neste ano pela Fuvest, a Fundação Universitária para o Vestibular, que seleciona os candidatos a ingressar nos cursos da USP. Alguma Poesia integra a lista de leituras exigidas para o vestibular da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), que seleciona os candidatos a ingressar nos cursos da USP.

O livro de estreia de Drummond, nascido em 31 de outubro de 1902 na mineiríssima Itabira, foi publicado em 1930, ano em que a Revolução atirava Getúlio Vargas ao poder e enterrava a Primeira República, Manuel Bandeira presenteava a humanidade com Libertinagem, Murilo Mendes estreava com seu Poemas e Rachel de Queiroz, com O Quinze. O poeta tinha então 28 anos, trazia os clássicos óculos redondos de aro escuro e, possivelmente, ainda cultivava um fino e elegante bigodinho feito para rimar com sua mocidade. Já havia deixado Itabira há uma década e morava em Belo Horizonte, tendo experimentado tempo suficiente para meditar sobre os contrastes entre a vida interiorana da infância e a pulsação moderna da capital planejada de Minas Gerais.

A professora Ivone Daré Rabello, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – Foto: Youtube

Incentivado pelo entusiasmo e pela proveitosa troca de cartas com o amigo Mário de Andrade, modernista da primeira geração e um dos alicerces da Semana de 22, Drummond reuniu e selecionou seus poemas, esvaziou os bolsos e pagou a impressão dos 500 exemplares da primeira edição de Alguma Poesia. A honra da publicação coube a um tal selo chamado Edições Pindorama, que, em realidade, não passava de uma editora imaginária.

Apesar de Alguma Poesia ser seu primeiro livro, o itabirano não era exatamente um desconhecido do público. Drummond já havia exibido alguma coisa de seus versos em jornais e, dois anos antes, em 1928, escandalizou os beletristas com No Meio do Caminho, publicado na Revista de Antropofagia. As acusações afônicas e celebrações heroicas em torno do poema foram tantas que o próprio autor colecionaria o que foi dito e publicaria em 1967 Uma Pedra no Meio do Caminho: Biografia de Um Poema.

A professora Ivone Daré Rabello, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, recorda os atributos que fizeram de No Meio do Caminho centro de controvérsias. “É um poema importantíssimo, na medida em que chocou os leitores, seja pelo que se considerou erro de português – tinha em vez de havia –, seja pelo que se considerou uma espécie de esquizofrenia ou de loucura do sujeito lírico em ficar repetindo mil vezes a palavra pedra. Outros, evidentemente, como o próprio Mário de Andrade, elogiavam a diminuição da pompa acadêmica ao glosar sobre uma pedra que não é mais do que uma pedra. Isto é, um assunto baço, ao rés do chão, ganhava relevância.”

“Drummond avança na crítica social, porque o arcaico e o moderno são modos de olhar para a desigualdade e sobretudo para a violência que é entrevista e é examinada pelo eu lírico sem nenhuma complacência, sequer consigo mesmo”, comenta a professora Ivone Rabello – Fotos: Reprodução/Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade

 

Dedicado, consequentemente, a Mário de Andrade, Alguma Poesia é um corpo composto de 49 poemas, escritos entre 1925 e 1930 e selecionados criteriosamente por Drummond. Esse é um ponto importante porque, ao longo da década de 1920, o poeta preparara uma série de reuniões de seus trabalhos que jamais chegou a publicar, algumas das quais pouco se sabe e outras que acabaram ganhando edições póstumas, como é o caso dos 25 Poemas da Triste Alegria, datilografados em 1924 pela sua então noiva e futura esposa Dolores Dutra de Morais e editados somente em 2012.

Assim, a estreia de Drummond, conforme escrevera o também professor da FFLCH Alcides Villaça em artigo para a revista Teresa, a despeito do título humilde, que poderia indicar um ajuntamento simples e sem muito critério dos primeiros poemas de um iniciante, é, mais acertadamente, uma escolha cuidadosa vinda de diversos estudos, reavaliações, expurgos e acréscimos. Por isso, o conjunto, cuja linguagem, ainda para citar Villaça, ‘‘se rege por padrões vários’’ e as entonações ‘‘abrem-se do pieguismo ao sarcasmo’’, revelando a identidade do poeta tanto ‘‘na face mais humilhada quanto no olhar mais altivo’’, é extremamente coerente em sua multiplicidade de faces.

Se coube a Mário de Andrade o papel de interlocutor e incentivador de Drummond, ainda lhe seria reservado também o pioneirismo da crítica. Foi dele a primeira análise do livro, publicada no jornal Estado de Minas, sob o título Apareceu Ontem o Livro de Carlos Drummond de Andrade:

‘‘Alguma Poesia é uma surpresa agradável que talvez reanime os nossos intelectuais. No livro, diga-se de passagem, a emoção, por mais profunda, não se descontrola em derramamentos líricos. Podendo viver, portanto, sem excessos – clara e forte, como nasceu. Na verdade, é essa, inatamente, a mais humana das feições poéticas.’’

Amizade e carinho tão declarados evidentemente têm implicações para além do afeto quando se trata de dois deuses da literatura brasileira. Se Mário, ao lado de Oswald de Andrade e dos demais modernistas da primeira geração, havia empreendido sua titanomaquia contra o passado literário – sobretudo o parnasianismo –,  Drummond, por sua vez, iria recolher os troféus dessa batalha e fazer deles referência para sua poesia.

“A lírica drummondiana nos convida amorosamente a tentar entendê-la como um documento crítico do espírito brasileiro e do mundo brasileiro, com as suas desigualdades e com seus privilégios”, afirma Ivone Rabello – Foto: Wikimedia Commons

 

Ainda que Drummond seja tradicionalmente considerado um autor da segunda fase modernista – a chamada geração de 30 –, pelas páginas de Alguma Poesia cintilam características ostensivas da primeira geração modernista, como os poemas curtos (Stop,/ A vida parou/ ou foi o automóvel? – Cota Zero), versos livres, sem padrão métrico (Na minha rua estão cortando árvores/ botando trilhos/ construindo casas. – A Rua Diferente), versos brancos, sem rima (Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever./ No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo. – Poesia), a linguagem coloquial (Uma coisa triste no fundo da sala./ Me disseram que era Chopin. – Música), os temas prosaicos e o bom humor, como em Cidadezinha Qualquer:

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

– Eta vida besta, meu Deus.

Alguma Poesia é um livro importantíssimo na tradição modernista porque ele já é uma herança da tradição modernista”, comenta a professora Ivone. “O modernismo que Alguma Poesia representa é um momento decisivo da nossa literatura, na medida em que questões particulares e locais, como a vida da província, a vida da metrópole, os costumes burgueses, o nosso atraso, nosso desejo de imitar a Europa e nosso particularismo, se afirmam com sinal positivo.”

Nessa relação com a primeira fase do Modernismo, o que Drummond faz, conforme escreve Villaça, é uma apropriação ao mesmo tempo devedora e credora de seu programa. Por um lado, há dívida com as formas do novo lirismo que dinamitou a convenção e permitiu novas perspectivas para se apreender e representar a vida. Por outro, há crédito em relação ao aprofundamento poético e crítico dessas novas perspectivas. Assim, a principal contribuição de Drummond para as ideias e programas da fase heroica do Modernismo teria sido ‘‘declarar-se inapto para empolgá-las’’, elaborando dessa forma um ‘‘ângulo de observação muito independente e original, em princípio não participativo’’. Um descompromisso, em resumo, que lhe daria liberdade para um lirismo ‘‘novo, muito pessoal e essencialmente crítico’’.

Ivone também acredita que existe novidade na subjetividade lírica apresentada em Alguma Poesia. “Há algo mais complexo na colocação do eu diante de si mesmo, diante do modo pelo qual ele olha o mundo e diante da distância e do estranhamento com que ele olha o mundo”, explica a professora. “O ganho é justamente que os temas drummondianos abarcam um espectro mais amplo dentro do temário básico do Modernismo, que é essa conjunção do arcaico e do moderno como nossa peculiaridade, não mais vista como deficiência. Mas Drummond avança na crítica social, porque o arcaico e o moderno são modos de olhar para a desigualdade e sobretudo para a violência que é entrevista e é examinada pelo eu lírico sem nenhuma complacência, sequer consigo mesmo.”

De modo análogo, nos aspectos formais Alguma Poesia também desponta como mais do que mera repetição das experiências da geração de 22. Ivone lembra que a linguagem coloquial ganha mais espontaneidade. Além disso, versos metrificados e livres não se estranham dentro do livro, mas, ao contrário, se complementam na missão de dar forma ao conteúdo poético, como acontece em Poema de Sete Faces, em que uma estrofe metrificada, rodeada por outras de versos livres, surge para evocar a monotonia da vida provinciana:

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

É nesse diálogo entre dívida e crédito que podemos fazer aproximações, sempre cuidadosas, com a geração anterior do Modernismo. Cota Zero, por exemplo, flerta com a poesia telegráfica e bem-humorada de Oswald de Andrade, enquanto Explicação evoca algum Mário de Andrade (é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de./ E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.) e Lagoa pode aparentar algo de Manuel Bandeira:

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa…

Quem aproxima diretamente Drummond e Bandeira é, novamente, Mário de Andrade. Escrevendo sobre Alguma Poesia e Libertinagem para o Diário Nacional de 22 de junho de 1930, Mário salientava o que as duas obras tinham de comum entre si e de destoantes em relação à produção da época:

‘‘Não existem na Poesia brasileira livros mais ‘si mesmos’ que esses. São puros, sem mistura. Livros possantes de trágicos desbatizados. Eu sei que existe neles uma impressionante exposição de alma humana, porém essa exposição é eminentemente individualista.’’

Mário insistiria no tema do individualismo, que uniria os dois livros, em correspondência pessoal com Drummond, datada de 12 de julho do mesmo ano:

‘‘Seu livro é excessivamente individualista. Há uma exasperação egocêntrica enorme nele. Está claro que isso não diminui em nada os valores do seu lirismo. Diminuem a meu ver os valores edificantes utilitários de sua poesia. Você e o Manuel Bandeira se equiparam inteiramente nisso. A sociedade, a humanidade, a nacionalidade funcionam para vocês em relação a vocês e não vocês em relação a elas. Não é um defeito permanente, como se vê. É uma questão de época e de necessidades de época que me faz censurar o excessivo individualismo de Alguma Poesia e de Libertinagem.’’

Carlos Drummond de Andrade (à direita) com Manuel Bandeira – Foto: Wikimedia Commons

 

Conforme conta Ivone, o próprio Drummond, anos mais tarde, enxergaria em seu livro de estreia o que considerou uma aventura individualista ingênua. “Esse sujeito se abre para o público com a ideia de que ele é gauche”, comenta a professora. “Isto é, que ele é um sujeito desajustado às normas do mundo, herdeiro da tradição baudelairiana – ao se afirmar gauche como o albatroz de Baudelaire – e deleitando-se com a maldição e com a glória que isso implica. Como se entre ele e o mundo houvesse uma distância que o impedisse de sofrer. Isso é verdadeiro? Não acredito, mas cria esse efeito de distância irônica, como se o eu fosse capaz de zombar de toda e qualquer coisa através de suas formas de desdobramento.”

Diferentemente do julgamento duro que Drummond impôs à própria obra, Ivone acha que essa aventura é positiva. “Ela consegue gravar, na sua mirada para o mundo, o que são as aventuras do indivíduo das classes dominantes que é capaz de criticar a si mesmo.” É o que a professora reconhece em Iniciação Amorosa, poema no qual o eu lírico recorda sua condição de filho das elites ociosas, com “nada que fazer” e folga para desejar a empregada descendente dos escravos. Ao mesmo tempo, é importante frisar, em que relembra seu arrebatamento febril por ela, indício do dominador também, em certa medida, dominado.

A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.

De fato, o indivíduo Drummond transborda pelas páginas de Alguma Poesia, através da postura gauche diante do mundo, do repertório de comentários sobre a vida provinciana, em sua concepção da vida amorosa, na visão desconfiada do nacionalismo e na timidez do poeta. Uma timidez, aliás, que Villaça enxergou dividindo espaço com a altivez de alguém “decididamente fincado em seu próprio posto de observação”, desejoso por escapar dele para ir ao encontro de seus “tantos desejos”. Aspecto da personalidade de Drummond que Mário já sublinhava também na carta de 12 de julho:

Capa de uma das edições de Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade – Foto: Reprodução/Companhia das Letras

“Quereria não conhecer pessoalmente você pra mostrar pelos seus versos o formidoloso tímido que você é. De fato: pra você ser um feliz, era preciso que não tivesse nem a inteligência nem a sensibilidade que tem. Então seria um desses tímidos tímidos, tão comuns na vida, uns vencidos sem saber que o são e cuja absoluta mediocridade acaba fazendo-os felizes. Mas você é timidíssimo e ao mesmo tempo sensibilíssimo e inteligentíssimo. Coisas que se contrariam pavorosamente e se brigam com ferocidade. E desse combate você é todo feito e sua poesia também.”

É parte dessa personalidade complexa a afirmação de ser gauche, apresentada como uma espécie de manifesto logo na primeira estrofe do primeiro poema da obra, o Poema de Sete Faces (Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.), no qual Drummond, através de uma construção que remete aos procedimentos cubistas, desfila fragmentos de um eu lírico plural.

Para Villaça, o gauchismo é revelado por Drummond como uma “insuficiência psicológica para a ação” frente a um mundo de “movimentos rápidos e de excessivos convites”. Diante de si, o poeta tem um mundo “plural, intenso, aliciante”, difícil de ser apanhado por sua personalidade tímida: uma relação entre o eu e o mundo que aparece em toda a sua obra como uma inconformidade repleta de tensão.

Na lida com a complexidade do mundo, ser gauche é uma estratégia. Ainda de acordo com Villaça, a perspectiva gauche, aparecendo primeiramente como deficiência existencial e psicológica, é uma forma de se mostrar descompromissado com qualquer projeto consistente e, ao mesmo tempo, exercer a liberdade de “projetar-se em todas as faces do real”, protegido pela ironia, conforme Ivone também notara.

É no Poema de Sete Faces ainda que a professora destaca outra característica da obra drummondiana, a dramatização do sujeito poético, tal como surge nos seguintes versos:

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

“Esse homem é a representação de uma das faces centrais do eu drummondiano, anunciado no Poema de Sete Faces, à maneira de um prefácio, que é o eu gauche, isto é, o eu torto, desajustado”, explica Ivone. “E o homem é o eu drummondiano que se adapta ao mundo se escondendo, disfarçando, porque sofre.”

Além do gauchismo e da dramatização do eu, outro tema antecipado no Poema de Sete Faces é a crítica ao provincianismo que Drummond testemunha em Minas Gerais. Segundo a professora, o poeta insiste na ideia de que a vida provinciana é governada pela repressão moral:

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

Repressão que repercute, ainda de acordo com Ivone, num traço extremamente visceral do sujeito lírico: a repressão sexual. Na análise da professora, em Alguma Poesia Drummond derrama uma mescla semântica entre amor, desejo e sexo, de um lado, e repressão, de outro. O desejo é duramente reprimido na vida provinciana, como atesta Casamento do Céu e do Inferno e Moça e Soldado (Meus olhos espiam/ as pernas que passam./ Nem todas são grossas…). Já o amor aparece como impossibilidade permanente, como registra Quadrilha:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

“A roda gira, os amores não acontecem e mesmo na ideia da Lili que casou com J. Pinto Fernandes vem o tom irônico, porque nenhum deles tem sobrenome”, pontua Ivone. “Então Lili, ao se casar, entrou provavelmente no mundo burguês, que não era o mundo dos amores ingênuos, e só se casa com alguém com nome e sobrenome, que não tinha nada a ver com os seus afetos mais autênticos.” A mesma crítica do casamento não como amor, mas como contrato burguês, voltaria a aparecer em outro poema do livro, Balada do Amor Através das Idades. “É só dentro da mesmice burguesa ou da adaptação aos códigos burgueses que o amor se realiza e, portanto, ele não é amor, é convenção.”

Ampliando seu percurso crítico, Drummond ainda reserva espaço em Alguma Poesia para ironizar o nacionalismo dos poetas brasileiros, em uma dupla recusa, tanto da exaltação dos atributos da pátria quanto dos suspiros de desejo pela Europa, grande cobiça intelectual da periferia. É o que se vê em Europa, França e Bahia (Meus olhos brasileiros sonhando exotismos), Também Já Fui Brasileiro (e aprendi na mesa dos bares/ que o nacionalismo é uma virtude) e Jardim da Praça da Liberdade (Jardim tão pouco brasileiro… mas tão lindo).

Refletindo sobre si mesmo e sobre o mundo, Drummond também não deixa de pensar o próprio fazer poético. Aplicando uma distinção que Ivone lembra ter sido herdada de Mário de Andrade, o autor produz o metapoema – o poema que fala do próprio poema – diferenciando o poema da poesia, como em Poesia:

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

“É a ideia de que a poesia existe em um nível de realização que não se limita nem à inspiração nem ao anseio de plenitude nem aos recursos técnicos”, comenta Ivone. De acordo com a professora, Drummond traz em seus versos a dificuldade do poeta em fazer do seu desejo de poetizar a formalização desse próprio impulso. Nesse obstáculo, mais um dentre tantos entre o eu e o mundo já pontuados desde a pedra de No Meio do Caminho, o autor apresenta o eu dramatizado que contempla o mundo e o critica, abandonando assim a visão do eu lírico fundido ao mundo que dava o tom do lirismo pré-modernista.

Assim, é com esses 49 poemas individualistas, críticos, amorosos, desejosos, satíricos e reflexivos que Alguma Poesia inaugura não só a carreira de Drummond, mas um percurso para a observação do próprio Brasil de seu tempo. Essa é a leitura de Ivone. “Se quisermos conhecer a vida brasileira dos anos 1930 até os anos 1950, Drummond é fundamental. Como afirmou Antonio Candido, a literatura nos forma. A literatura nos educa e nos convida para tentar entender aquilo que, nas imagens simbólicas ou nas imagens do cotidiano mais aparentemente não poéticas, se torna objeto da nossa investigação. A lírica drummondiana nos convida amorosamente a tentar entendê-la como um documento crítico do espírito brasileiro e do mundo brasileiro, com as suas desigualdades e com seus privilégios”, conclui Ivone.


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