Livro documenta trajetória do Teatro da Vertigem

Obra reúne ensaios, textos críticos e fotos do grupo marcado pela tomada da cidade como palco de suas montagens

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=187546
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Cena de Apocalipse 1,11, espetáculo do Teatro da Vertigem inspirado pelo Apocalipse de São João – Foto: Edouard Fraipont

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A nave de uma igreja católica no coração de São Paulo. Os corredores e salas de um hospital. O interior de um presídio desativado. As ruas e fachadas do tradicional bairro do Bom Retiro, na capital paulista. As águas corrosivas do Rio Tietê. Que linha amarra esses locais e os coloca na mesma história?

Todos esses espaços foram ocupados, reapropriados e desafiados pelas montagens do Teatro da Vertigem. Criado em 1991, o grupo ganhou notoriedade e aplausos pelos espetáculos feitos em site specific, um percurso entrelaçado pela busca de um teatro feito com a cidade de São Paulo. Agora, o Vertigem lança uma publicação que documenta sua história e revisita suas pesquisas e obras. Em Teatro da Vertigem, ensaios de artistas que passaram pelo grupo se juntam a textos críticos e fotografias das montagens para celebrar mais de 25 anos de cena.

Além dos escritos dos integrantes do grupo, como o diretor artístico Antônio Araújo, a diretora Eliana Monteiro e o light designer Guilherme Bonfanti, o livro conta com contribuições de profissionais e pesquisadores tanto do teatro quanto de outras áreas. É o caso do crítico de cinema e Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Ismail Xavier, da antropóloga e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Lilia Schwarcz e do diretor de teatro e professor da ECA Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão. Participações internacionais destacam o impacto mundial que o Teatro da Vertigem despertou, como atestam os textos da professora da Sorbonne Josette Féral e da professora da Universidade de Nova York Diana Taylor.

De acordo com a professora da ECA e organizadora do livro, Sílvia Fernandes, que foi dramaturgista do Vertigem, a publicação reúne textos já publicados e redações escritas especialmente para o volume.

Processo colaborativo e montagens em site specific caracterizaram a trajetória do Teatro da Vertigem desde 1991. Na imagem, cena de O paraíso perdido – Foto: Eduardo Knapp

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A cidade como palco

O ponto de partida para os trabalhos do Teatro da Vertigem foram experimentos baseados na mecânica clássica aplicados ao movimento do ator. A estreia em cena foi em 1992, com O paraíso perdido, encenada dentro da Igreja Nossa Senhora da Conceição – Santa Efigênia e inspirada por relatos mesopotâmicos, a Bíblia, textos apócrifos e um poema de John Milton. Em 1995 veio O livro de Jó, dessa vez no Hospital Humberto I (antigo Hospital Matarazzo) e também baseada nos textos bíblicos. O Apocalipse de São João deu origem à Apocalipse 1,11, realizada no presídio do Hipódromo em 2000.

O Rio Tietê abrigou em 2006 o espetáculo BR-3, pesquisa que reuniu o bairro paulistano da Brasilândia, Brasília e a cidade acriana de Brasileia para discutir a identidade nacional. A passagem subterrânea da Rua Xavier de Toledo, em frente ao Teatro Municipal, foi o palco para A última palavra é a penúltima, de 2008. O Teatro da Vertigem ganhou as ruas em 2012, com Bom Retiro 958 metros. Seu espetáculo mais recente, Enquanto ela dormia, integra as comemorações estendidas de 25 anos do grupo com laboratórios cênicos, rodas de conversa e montagens abertas ao público em vários espaços culturais de São Paulo.

Capa do livro Teatro da Vertigem, da Editora Cobogó – Foto: Divulgação / Editora Cobogó (Clique na imagem para ampliar)

“O Vertigem foi pioneiro no País. Essa proposta de sair do espaço convencional não é uma proposta aleatória, ela é necessária”, declara Sílvia. “O espaço é escolhido justamente para amplificar a discussão e precisa ter uma sintonia íntima com o que está sendo tratado. O paraíso perdido era uma discussão sobre a fé e por isso foi feito numa igreja. O livro de Jó era uma discussão sobre doença, a aids estava se espalhando pelo País, então foi feito num hospital. Em BR-3, em que se discutia a identidade brasileira, se escolheu um rio que virou um esgoto. Nesse sentido, o Vertigem é um projeto de teatro político inédito, porque discute o teatro a partir do espaço urbano.”

As experimentações do grupo receberam aclamação crítica desde cedo. O paraíso perdido foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) por sua pesquisa de linguagem. O livro de Jó recebeu o prêmio Shell de melhor espetáculo e direção em 1995. BR-3 ganhou a Triga de Ouro (medalha de ouro) na Quadrienal de Praga, na República Tcheca, em 2011. Ao todo, o grupo reúne 20 indicações e prêmios.

Teatro colaborativo

Junto da investigação de espaços não convencionais e tensionamento dos espaços, o Vertigem se caracterizou também pelo seu método colaborativo de trabalho. Nele, apesar das funções de criação serem mantidas – ainda existem diretor, dramaturgo, iluminador –, há intenso intercâmbio de ideias entre as áreas. Antônio Araújo, que além de fundador e diretor do grupo é professor da ECA, abre o livro comentando essa forma de trabalho.

“Interessa ao processo esse tensionamento dialético entre a criação particular e a total, no qual todos estão submergidos”, escreve. “O estatuto artístico autônomo de um determinado aspecto da criação, a habilidade específica ou mesmo o gosto por certa área criativa não reduz o criador a mero especialista ou técnico de função. Pois, acima de sua habilidade particular, está o artista da cena, criando uma obra por inteiro e comprometido com ela e com o seu discurso como um todo.”

Teatro da Vertigem, Sílvia Fernandes (organização), Editora Cobogó, 336 páginas, R$ 80,00. O livro terá lançamento em 19 de agosto, às 17 horas, na sede do Teatro da Vertigem, na Rua Treze de Maio, 240, 2º andar, Bela Vista, em São Paulo.

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