Indígenas contam sua própria história em nova exposição na USP

A partir desta sexta-feira, mostra apresenta objetos de três etnias de São Paulo, selecionados pelos índios

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Entrada do espaço dedicado à cultura kaingang na exposição do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP  – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Do pouco conhecimento sobre culturas indígenas difundido no Brasil, quase nada foi produzido pelos próprios povos retratados. Sua história costuma ser contada por terceiros, o que pode influenciar na propagação de uma visão carregada de preconceitos. A exposição Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena, que será inaugurada nesta sexta-feira, dia 15, às 14 horas, no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, caminha no sentido contrário.

Ela é uma colaboração do MAE com os grupos indígenas kaingang, guarani nhandewa e terena vindos da região centro-oeste do Estado de São Paulo. Todos participaram ativamente do processo de curadoria da exposição, que mostra a história e as tradições desses grupos através de objetos, vestimentas e fotografias selecionados por eles próprios.

Exposição apresentará vestimentas tradicionais dos povos indígenas de São Paulo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A origem do projeto é antiga, como explica a professora do MAE Marília Xavier Cury, coordenadora da exposição. Seu trabalho com os kaingang, os guarani nhandewa e os terena começou há cerca de dez anos, e foi assim que eles tiveram conhecimento de que havia objetos de seus ancestrais guardados no acervo do MAE.  

Os objetos em questão foram coletados entre o fim do século 19 e o ano de 1947 por quatro antropólogos que estudaram esses grupos. “Era um momento em que ocorria a colonização do oeste do Estado de São Paulo, com a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a expansão da cafeicultura e, ao mesmo tempo, a perda de territórios indígenas”, conta a professora. As coleções fizeram parte do Museu Paulista (MP) da USP, até serem integradas ao MAE após a sua criação, em 1989.

Em 2016, surgiu a ideia de revisitar esses itens com uma exposição colaborativa. Após consultar os indígenas sobre o seu interesse em participar do projeto, a professora fez uma série de visitas às aldeias, acompanhada de uma equipe formada pelos pesquisadores Carla Gibertoni Carneiro, Maurício André da Silva e Viviane Wemelinger Guimarães. A exposição foi elaborada por meio desse diálogo.

Exposição colaborativa

“A sabedoria dos nossos povos ancestrais nos une e nos fortalece” é a frase estampada na placa que indica a área da exposição dedicada aos guarani nhandewa. Está escrita na primeira pessoa, assim como a maioria das inscrições relacionadas aos demais grupos retratados. A frase introdutória, toda a disposição do espaço e os itens expostos foram feitos conforme a preferência deles.

Foto que estará em exibição na exposição Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena, no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP – Fotos Cecília Bastos/USP Imagem

Segundo a professora Marília, o processo colaborativo permite uma transformação do pensamento e das práticas museológicas. “Num lugar em que ainda predominam visões colonialistas a respeito da formação das coleções, busca-se tirar o indígena de uma posição de subserviência, permitindo que os povos tenham a oportunidade de expor suas próprias narrativas.”

A exposição Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas teve como proposta atender a três reivindicações dos grupos. Além do direito de falar por si, eles buscam um retorno sobre o que foi feito durante tantos anos com os diversos objetos coletados de seus ancestrais. Por fim, esses povos desejam também falar sobre quem eles são hoje, uma vez que suas histórias costumam ser contadas levando em conta apenas o passado.

Além disso, acrescenta Marília, através de um projeto como esse, é possível ressignificar o papel do museu e ressaltar sua importância para os próprios povos indígenas. “Eles precisam dessa ancestralidade para manter suas culturas vivas, fortes e resistentes”, diz a professora. “É isso que vai garantir sua continuidade, seu futuro e seus direitos, o que também estamos reforçando aqui.”

Aberturas terão a presença de grupos indígenas

A exposição contará com três aberturas, todas com apresentação de dança, artesanato e pintura corporal. A primeira, nesta sexta-feira, dia 15, terá a presença de representantes do grupo indígena kaingang. No dia 10 de maio, virá o grupo guarani nhandewa e, em 14 de junho, o grupo terena. Em todas as datas, a abertura ocorrerá das 14 às 18 horas.

A exposição Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena será inaugurada nesta sexta-feira, dia 15, às 14 horas, no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail educativo.mae@usp.br.

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