Religião não é fator isolado mais importante para aceitação da teoria da evolução nas escolas

Novas análises mostram que outros aspectos socioculturais, como percepção social da ciência e questões socioeconômicas, têm peso maior para a aceitação da teoria evolutiva

A teoria da evolução foi proposta pelo biólogo, naturalista e geólogo Charles Darwin (1809-1882). Trata-se de um corpo de conhecimento que explica e interpreta os fenômenos evolutivos no planeta Terra - Ilustração: Evento Darwin Day - MZUSP

 Publicado: 21/09/2022  Atualizado: 25/09/2022 as 17:51

Texto: Ivanir Ferreira

Arte: Adrielly Kilryann

A religião desempenha um papel menos importante para a aceitação da teoria da evolução nas escolas, mostra estudo de pesquisadores da USP realizado a partir da análise de informações de um banco de dados que reúne cerca de 5.500 estudantes brasileiros e italianos. “Aspectos socioculturais mais amplos [como percepção social da ciência e questões socioeconômicas], que incluem religião, possuem peso maior para a compreensão do tema”, relata ao Jornal da USP o professor Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação (FE) da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução Biológica Charles Darwin (EDEVO-Darwin).

Teoria da evolução é um corpo de conhecimento que explica e interpreta os fenômenos evolutivos no planeta Terra. Para Charles Robert Darwin (1809-1882), a evolução ocorre por meio de uma seleção natural, que leva a uma mudança gradativa nas características dos indivíduos. Darwin foi um importante naturalista britânico e ficou conhecido por sua grande contribuição para o entendimento da evolução e por sua obra A Evolução das Espécies.

“Apesar desse conceito ser importante para a compreensão de assuntos relacionados às diversas áreas das ciências biológicas, a dificuldade de compreensão do tema é enorme, principalmente nas escolas”, diz Bizzo. No Brasil, geralmente os conhecimentos de evolução são ofertados aos alunos no final do ensino médio, diferentemente do que ocorre na Itália, que começa antes dos dez anos de idade. “Tópicos que abrangem os principais teóricos [Charles Darwin e Jean-Baptiste de Lamarck] e assuntos que permeiam dogmas religiosos e concepções criacionistas têm gerado diversos confrontos entre alunos e professores que possuem crença religiosa”, diz.

Nelio Bizzo - Foto: Reprodução/Researchgate

Nelio Bizzo - Foto: Reprodução/Researchgate

As novas análises mostraram que os níveis de aceitação sobre a evolução biológica entre estudantes católicos brasileiros estão mais próximos dos evangélicos brasileiros do que quando comparados aos católicos italianos. “Observamos que a nacionalidade dos estudantes é mais determinante que a religião em si para a aceitação da evolução”, diz o pesquisador.  O estudo Acceptance of evolution by high school students: Is religion the key factor? foi publicado na Plos One no último dia 19 de setembro.

Foto: Reprodução/Youtube

Alguns fatores podem atuar como obstáculos à aceitação da teoria da evolução: religião, falta de abertura à experiência e não compreensão da natureza da ciência - Foto: Reprodução/Youtube

Para realizar o estudo, os autores criaram um “índice intercultural”, no qual se quantificou a diferença entre as opiniões (aceitação ou rejeição da teoria evolutiva) de italianos católicos e brasileiros católicos e destes com os brasileiros evangélicos. O termo evangélico representa o universo de não católicos cristãos considerados pela sociedade brasileira como protestantes, constituído por protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais.

A aceitação da evolução foi medida com base em cinco declarações relacionadas com a teoria da evolução, idade da Terra, registro fóssil, ancestralidade em comum e a origem dos seres humanos. Para a afirmação “Diferentes organismos podem ter um ancestral comum”, por exemplo, a diferença de aceitação foi nove vezes maior entre católicos italianos e brasileiros do que entre católicos e evangélicos brasileiros. “O padrão se repetiu com as demais questões”, afirma Bizzo.

Segundo Leonardo A. Luvison Araújo, pesquisador de pós-doutorado da FE e um dos autores do artigo, “embora a pesquisa não tenha aprofundado questões como o sistema educacional dos países, há outras variáveis reconhecidas como relevantes pelos pesquisadores no que diz respeito à aceitação ou rejeição da teoria evolutiva, como nível socioeconômico dos estudantes, o capital cultural familiar e as atitudes em relação ao conhecimento científico pela sociedade em geral”, afirma. Os resultados gerados pelo banco de dados “contradizem pesquisas anteriores que apontavam a religião como fator isolado mais importante para a aceitação da evolução”, relata Araújo.

A pesquisa que gerou o banco de dados, cujas informações foram analisadas mais recentemente pela equipe do professor Bizzo, foi realizada em 2014 com estudantes brasileiros e italianos e fez parte da tese de doutorado de Graciela Oliveira, da FE. A coleta de dados original foi realizada concomitantemente no Brasil e na Itália, por meio de parceiros italianos liderados pelo pesquisador Giuseppe Pellegrini, do Instituto Observa, Science in Society, da cidade de Vicenza, outro coautor do artigo.

Leonardo A. Luvison Araújo, pesquisador de pós-doutorado da FE - Foto: Arquivo pessoal

Leonardo A. Luvison Araújo - Foto: Arquivo pessoal

Religião e ciência

A ideia de evolução biológica não é aceita por muitas pessoas ao redor do mundo. Alguns fatores podem atuar como obstáculos à aceitação da teoria, como religião, falta de abertura à experiência e não compreensão da natureza da ciência, relata o artigo.

Embora a força da associação entre a aceitação da evolução e fatores não científicos variem entre os estudos já realizados, muitas vezes assume-se que a resistência à aceitação é o subproduto de uma base religiosa. Alguns estudos são ainda mais específicos e tentam associar a aceitação da evolução com filiações religiosas.

Tentilhões de Darwin ou tentilhões de Galápagos. Darwin, 1845 - Foto: John Gould / Domínio público via Wikimedia Commons

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Neste cenário, o objetivo do trabalho foi explorar a força das associações entre nacionalidade, religião e aceitação da evolução por alunos usando múltiplas análises de correspondência e ferramentas estatísticas de dois países diferentes: o Brasil, considerado o país com o maior número de católicos romanos no mundo (mas que vem perdendo hegemonia nas últimas décadas com a ascensão contínua de protestantes); e a Itália, considerada o hub do catolicismo romano. Eles seguem os mesmos regulamentos básicos do Vaticano, que incluem opiniões explícitas sobre
evolução biológica e uma interpretação não literal de textos sagrados. No entanto, há profundas diferenças socioculturais devido a muitos fatores complexos, incluindo a educação.

Deve-se considerar ainda que, nas últimas três décadas, houve um aumento significativo do movimento criacionista no Brasil, e pesquisas realizadas aqui já haviam mostrado que esse movimento influenciou jovens professores de ciências.

Perfil dos estudantes

Os alunos que participaram da pesquisa tinham aproximadamente a mesma faixa etária, com idade média de 15 anos e, após aplicação dos critérios de exclusão, 3.881 pessoas estavam aptas a participar do inquérito.

Havia uma pequena diferença na proporção de gênero nos dois países, já que as meninas superaram em números os meninos no Brasil (55%) e na Itália (52%). Uma alta proporção de estudantes brasileiros religiosos (56%) se declararam católicos e 12% deles declararam não seguir nenhuma religião.

O maior grupo não católico cristão foi o dos pentecostais (21%) e o número de cristãos ortodoxos, luteranos e anglicanos era baixo, menos de 1%. Outras religiões somaram 13%.

Já na Itália, 67% dos alunos declararam seguir a Igreja Católica e 22% disseram não seguir nenhuma religião ou filosofia. Dos entrevistados, 3% eram cristãos não católicos e outros 3,5% eram de outras religiões.

As novas análises feitas nesse banco de dados nos trazem uma definição mais clara do que seja “aceitar a evolução” do ponto de vista filosófico e que a formação religiosa não é o aspecto mais importante de resistência à teoria evolutiva, dizem os pesquisadores.

Para Araújo, “a religião e a ciência não estão em um mesmo plano de conhecimento e, portanto, não devem se sobrepor. Os professores possuem papel fundamental na aproximação dos estudantes ao conhecimento científico. Por isso, investir em formação inicial e continuada de professores para que eles tenham uma reflexão mais profunda sobre a relação ciência e religião poderia ser ótima estratégia.”  

Novas perspectivas

Segundo os autores, esses resultados abrem novas perspectivas interpretativas e proporcionam uma melhor compreensão de atitudes em relação à teoria da evolução.

Bizzo propõe uma revisão de métodos de obtenção de informações sensíveis envolvendo questões religiosas nas escolas. “É importante garantir o anonimato de quem emite opinião sobre determinados temas.” Ele lembra de uma pesquisa em que os alunos não escreviam o nome e as questões foram impressas em papel. “Obtivemos níveis de aceitação da evolução acima dos esperados, mesmo entre os estudantes que se declararam evangélicos”, relata.

Araújo indica também que os conceitos ligados à teoria evolutiva, como o estudo do tempo geológico, sejam incluídos na grade curricular desde o início do ensino fundamental, como ocorre na Itália, e que eles passem a ter caráter obrigatório. No Brasil, à época da coleta de dados, alguns desses conceitos eram geralmente estudados no fim do ensino médio. 

Ao final do artigo, os autores dizem que é importante ter em mente que a imagem apresentada no estudo é apenas um quadro, pois os valores estão mudando muito rapidamente, mesmo em ambientes religiosos. “Por exemplo, o nível de aceitação da evolução melhorou em membros de algumas denominações cristãs conservadoras cujos ensinamentos são informados com barreiras culturais à evolução. Infelizmente, a mudança também pode ser notada na direção oposta, com grupos conservadores antievolução e denominações religiosas mostrando uma influência em todo o mundo, inclusive no Brasil”, escrevem.

Para Araújo, “a religião e a ciência não estão em um mesmo plano de conhecimento e, portanto, não devem se sobrepor. Os professores possuem papel fundamental na aproximação dos estudantes ao conhecimento científico. Por isso, investir em formação inicial e continuada de professores para que eles tenham uma reflexão mais profunda sobre a relação ciência e religião poderia ser ótima estratégia”, conclui. 

Mais informações: e-mail bizzo@usp.br, com Nelio Bizzo, e e-mail luvison@usp.br, com Leonardo Augusto Luvison Araújo


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