Desequilíbrio na microbiota intestinal pode aumentar estados depressivos e de ansiedade

Segundo Luiz Fernando Ferraz da Silva, mudanças alimentares drásticas e uso de alguns medicamentos afetam significativamente a flora intestinal e podem alterar comunicação intestino/cérebro

 Publicado: 21/09/2021
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O conhecimento do efeito das bactérias e do microbioma no sistema nervoso central, nas condições neurológicas e neuropsiquiátricas, deixa mais evidente a integração de todos os órgãos e sistemas do corpo humano – Foto: Antonio Guillem/123RF

 

As bactérias que povoam a flora intestinal cumprem funções de proteger o organismo humano. Elas são chamadas de bactérias do bem e impedem o crescimento de bactérias nocivas, equilibrando o meio interno e externo do intestino, além de processar substâncias, como a bile. Essa convivência positiva, já bem conhecida da ciência, vem ganhando novos contornos com estudos recentes mostrando a influência de alterações na microbiota intestinal no desencadeamento de estados depressivos e crises de ansiedade.

Luiz Fernando Ferraz da Silva, professor do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina (FM) de São Paulo e coordenador do curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), ambas da USP, afirma que essas alterações intestinais podem ocorrer por mudanças abruptas nos hábitos alimentares e pelo uso de alguns medicamentos, como antibióticos administrados por via oral. O resultado, segundo o professor, é a destruição de parte da flora intestinal, afetando a permeabilidade do intestino e tornando o ambiente “mais pró-inflamatório, porque chegam bactérias estranhas”, explica. Com isso, há “liberação de citocinas e mediadores químicos que vão alterar a sinalização que é dada do intestino para o cérebro”, que, de certa forma, ao senti-la, “vai sofrer alterações relacionadas”.

Relação entre o intestino e o cérebro

Ainda são necessárias mais investigações sobre o eixo intestino/cérebro. Mas, adianta o especialista, a relação intestino/cérebro é dada fundamentalmente por meio do sistema nervoso autônomo, das fibras do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático que controlam as funções intestinais. Assim, há o envio de informações do cérebro para regular o intestino, mas também há o retorno para o cérebro. Esse processo, afirma Silva, implica que “qualquer tipo de substância liberada no intestino, como, por exemplo, os mediadores inflamatórios, ou toxinas de bactérias estranhas, pode ser sinalizado através do nervo vago e atuar sobre o sistema nervoso central”.

Luiz Fernando Ferraz da Silva – Foto: FM-USP

Para o professor, o conhecimento do efeito das bactérias e do microbioma no sistema nervoso central, nas condições neurológicas e neuropsiquiátricas, deixa mais evidente a integração de todos os órgãos e sistemas do corpo humano. “Pequenas alterações em um local podem ter repercussões sistêmicas em diversos processos”, avalia o especialista, adiantando que cada indivíduo possui microbiota própria, que depende de seu estilo alimentar e faixa etária. Nesse sentido, o que indica uma flora normal e saudável é individualizado no equilíbrio do perfil nutricional, de vida e de hábito intestinal de cada pessoa.

Com isso, Silva faz alerta para que alterações na dieta e no uso de medicamentos sejam feitas apenas sob orientação médica, pois, “às vezes, achamos que estamos tratando uma coisa e, na verdade, estamos desequilibrando todo o sistema”. 

Acompanhamento profissional em quadros psiquiátricos 

A importância dos impactos da microbiota intestinal nos “aspectos psíquicos e de estresse”, segundo o professor, não significa que a flora intestinal saudável, isoladamente, vá resolver esses problemas. Mesmo que possa contribuir com estratégias terapêuticas, minimizando “o efeito potencializador que pode aparecer quando há um desequilíbrio desse microbioma”, afirma, quadros psiquiátricos e distúrbios neurológicos devem ser acompanhados integralmente por seus devidos profissionais.


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