Contato com adoecimento e morte interfere no estado mental de estudantes da saúde

Além de desafios comuns da vida universitária, complexidade dos estudos e proximidade com pacientes e familiares favorecem risco maior de sofrimento mental desses alunos

 Publicado: 25/11/2021
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Os estudantes ingressam na universidade no final da adolescência e enfrentam mudanças importantes na vida por essa transição – Foto: Freepik

A saúde mental de estudantes do nível superior vem chamando a atenção dos especialistas, mas sobretudo os alunos da área de saúde estão necessitando de maior apoio. A afirmação é da professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Maria Paula Panúncio-Pinto, vice-coordenadora do Centro de Apoio Educacional e Psicológico (Caep) da FMRP.

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Características da universidade contribuem para o adoecimento de estudantes

A etapa da vida passada na universidade, segundo Maria Paula, provoca alterações significativas na vida dos jovens de maneira geral, mas que são agravadas nos graduandos da área de saúde, já que, somadas à complexidade das competências desenvolvidas ao longo dos cursos, lidam com questões delicadas como adoecimento, sofrimento e morte.

“Os estudantes ingressam na universidade no final da adolescência e enfrentam mudanças importantes na vida por essa transição”, afirma a professora, lembrando que são mudanças que demandam “muita energia, muitos esforços desses estudantes”. Elas ocorrem independentemente das vivências pessoais de cada aluno que precisam ser consideradas, porque são, muitas vezes, fontes de dificuldades socioeconômicas, discriminações e outras violências, como as “questões de gênero, identidade de gênero e orientação sexual, questões de raça, de classe social e de aparência física”, complementa.

Maria Paula ressalta que todos esses fatores, somados à adaptação da vida universitária, influenciam o desempenho acadêmico e a saúde mental. Não é raro que o baixo rendimento escolar indique sofrimento mental, informa a professora. E com intervenção precoce, segundo ela, é possível evitar evasão escolar e desfechos mais complexos como o adoecimento.

Programas educacionais de olhar integral

Segundo Maria Paula, essas são situações que exigem programas educacionais preparados para identificar e apoiar estudantes que necessitam de recursos, sejam financeiros, pedagógicos ou psicológicos e psiquiátricos, ou ainda vários deles ao mesmo tempo. “O programa educacional precisa lançar esse olhar integral para o estudante, e não apenas para ele em sala de aula”; e que não inclua apenas a aprendizagem, mas “o cuidar integralmente essa pessoa que é o estudante”.

Não é raro que o baixo rendimento escolar indique sofrimento mental, daí a importância da intervenção precoce – Foto: Freepick

Como um exemplo de atenção ao aluno, Maria Paula cita o trabalho do Caep no campus de Ribeirão Preto. Criado pela Comissão de Graduação da FMRP, o serviço atende a todos os cursos de saúde da unidade, desenvolvendo atividades de promoção de saúde e qualidade de vida por meio de oficinas, palestras e rodas de conversa que enfatizam a importância do autocuidado.

Para a psicóloga do Caep Karolina Murakami, as preocupações de seu trabalho com os estudantes da área de saúde são bem fundamentadas, já que eles apresentam aspectos particulares geradores de estresse para a vida acadêmica e futuro profissional. São alunos que “se tornam cuidadores precoces, além de compartilharem sofrimento e as expectativas por parte dos pacientes e dos seus familiares”, argumenta. São questões que, segundo Karolina, prejudicam a saúde mental dos alunos, diminuindo a atenção e concentração nos estudos, que podem afetar as “habilidades de tomar decisões e até prejudicar o estabelecimento de uma relação afetiva com o paciente” e a qualidade do cuidado necessário aos doentes.

Desempenho acadêmico afetado por problemas pessoais

Exemplo de estudante que teve o desempenho acadêmico abalado pela saúde mental, Fabrício Oliveira Costa de Carvalho, de 22 anos, aluno do curso de Terapia Ocupacional da FMRP, conta que enfrentou dificuldades em 2020, seu primeiro ano como universitário. Relata ter vivido crise de ansiedade e conflitos com a desorganização em sua rotina e questões familiares que repercutiram em seus estudos.

Percebendo a necessidade de apoio, Carvalho buscou o Caep e afirma ter sido o caminho acertado. “Eu consegui me culpar menos, consegui não ficar me julgando tanto, não ficar me machucando muito”, conta, creditando à ajuda do Caep seu melhor rendimento acadêmico, por ter aumentado o discernimento e foco nas disciplinas, além da melhor organização de sua rotina.

Entre as dicas de prevenção ao sofrimento mental, Rosana Shuhama, psicóloga do Programa de Atendimento Psiquiátrico e Psicológico Discentes (PAPP-DIS), do Hospital das Clínicas da FMRP, diz que um estilo de vida equilibrado pode ser obtido com boa alimentação e exercícios físicos, vínculos sociais saudáveis, tratamento medicamentoso, quando necessário, e acesso a conhecimento sobre o assunto. Rosana atende aos alunos dos cursos da FMRP e médicos residentes do HCFMRP com sintomas psiquiátricos e problemas emocionais e comportamentais de agravo moderado.

Em sua experiência, Rosana conta que episódios depressivos e transtornos de ansiedade estão entre os casos mais comuns. Além disso, o uso abusivo de substâncias psicoativas, comportamentos de autolesão e pensamentos de morte e suicídio também preocupam o programa. Assim, diante da necessidade, a psicóloga indica a estudantes da FMRP e médicos residentes do HCFMRP agendarem uma primeira consulta para avaliação no PAPP pelos números (16) 3963-6500 (Clínica Civil) ou (16) 3602-2945 (SAMSP), sem qualquer necessidade de encaminhamento.


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