O passado e suas preposições

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira no curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP

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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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– Aristóteles é ultrapassado![1]

– Vou usá-lo na empresa onde trabalho[2]

Ou muito me engano, ou adeptos do senso comum estão a confundir aquele que “se debruça e escreve sobre o passado” com aquele que “(se)conserva e vive no passado”. Uma coisa é considerar a mentalidade, a postura, os pressupostos e convicções do professor ou pesquisador, segundo as virtudes e limitações que atribuamos a ele, como indivíduo. Outra, nem sempre a coincidir com a primeira, é discutir as características do objeto que o sujeito estuda; questionar os métodos, metas e as implicações da pesquisa que realiza (seja ela em torno de um período de tempo; sobre determinada corrente de pensamento, movimento artístico, teoria crítica, metodologia de ensino, estética literária etc.).

Talvez decorra daí o ajuizamento impiedoso e a condenação sumária do “historiador” (ou de todo aquele que tenciona escrever sobre o que se suponha situado no passado), como se se tratasse de um sujeito necessariamente conservador, elitista ou reacionário, por pesquisar matérias de outro tempo, circunstância ou espaço. Se aceitarmos reduzir a polêmica a esse grau de mesquinhez, enviaríamos Eric Hobsbawm à fogueira santa por ter estudado as contradições sociopolíticas e as tensões econômicas praticadas ao longo do século XX? Afirmaríamos que o pensador Giorgio Agamben seria simpático ao stalinismo por relativizar alguns dogmas da igreja católica?

É claro que, com maior ou menor dose de imaginação e empenho, se pode detectar no teor e no estilo de quem escreve indícios de uma suposta filiação a determinada corrente, estética ou ideológica. Mas não se esqueça de que, assim como o discurso historiográfico consiste na (re)interpretação de dados, direta ou indiretamente coletados por quem os (re)organiza, a pessoa que assina o livro nem sempre coincide com o nome, tampouco com a persona de “historiador(a)” de que o(a) autor(a)/historiador(a) se reveste.

Porventura seja útil prosseguir nesta breve reflexão em torno do que se entendia e se entende por “passado”. Em seguida, descrever algumas formas de abordá-lo, para, finalmente, perguntarmo-nos por que (não) estudá-lo. Um ponto de partida considerado fundamental para a abordagem dos tempos está nas Confissões de Santo Agostinho. De acordo com o Bispo de Hipona,

Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas se isso ainda não me é possível, sei, todavia, que onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. Na verdade, se também aí são futuras, ainda lá não estão, e se também aí são passadas, já lá não estão. Por conseguinte, onde quer que estejam e quaisquer que sejam, não existem senão como presentes. Ainda que se narrem, como verdadeiras, coisas passadas, o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas, que, ao passarem pelos sentidos, gravaram na alma como que uma espécie de pegadas.[3]

Para a Teoria da História corrente historiográfica que teria se iniciado no início do século XIX, na Itália e na Alemanha –, o papel do historiador seria reorganizar as matérias do pretérito, de modo a apresentá-las de modo coeso e coerente, na expressão, forma e gênero do discurso ou “enunciado histórico”, como já o definira Johann Martin Chladenius[4] em 1752. Com outros termos, era o que supunha Georg Gottfried Gervinus, em 1837. Ao retroceder à Poética de Aristóteles, (re)estabeleceu paralelos e diferenças entre História e Poesia, a sugerir que o artifício seria comum a ambas as artes: “[…] logo que falamos de arte historiográfica, buscamos gêneros formais, assim como verdadeiro esteta o faz na poesia, cuja configuração variada é uma expressão necessária, baseada em uma diversidade interior fundamental”.[5]

Outro exemplo. No Prólogo a Martinho Lutero, um Destino – obra publicada em 1927 –, Lucien Fevbre recusava-se a tratar o volume como sendo de natureza estritamente biográfica: “Uma biografia de Lutero? Não. Uma opinião sobre Lutero, nada mais”. Em que pese a modéstia do historiador, essa hipótese será reafirmada por ele mesmo, nas linhas finais: “[…] ao escrever este livro, tivemos uma única intenção: compreender e, na medida do possível, dar a compreender”.[6]

Felizmente, pelo menos desde 1979 compreende-se melhor como as temporalidades (e leituras sobre elas) podem caber em um mesmo período do tempo. Especialmente no que se refere ao próprio ofício de historiar, Reinhart Koselleck alertava para o fato de que “uma ‘sociedade’ e seus ‘conceitos’ encontram-se em uma relação de polarização que caracteriza também as disciplinas históricas a eles associados”. A seu ver, a “[corrente] história social não pode prescindir do auxílio que lhe é prestado pelas implicações histórico-críticas da história dos conceitos”.[7]

Quatro anos antes dele, Michel de Certeau havia nos advertido para o fato de que: “Esses discursos [históricos] não são corpos flutuantes em um englobante que se chamaria a história (o ‘contexto’!). São históricos porque ligados a operações e definidos por funcionamentos. Também não se pode compreender o que dizem independentemente da prática de que resultam”.[8]

No Prólogo a Martinho Lutero, um Destino – obra publicada em 1927 –, Lucien Fevbre recusava-se a tratar o volume como sendo de natureza estritamente biográfica: “Uma biografia de Lutero? Não. Uma opinião sobre Lutero, nada mais”.

A escrita da história buscaria a verdade?[9] Ou visaria ao efeito de verdade? Nos últimos anos, muito se tem discutido em que aspectos os historiadores “modernos” e “pós-modernos” divergiam (e continuam a fazê-lo). Alguns teóricos negam a existência de uma crise[10], ou ruptura, entre os representantes de ambas as correntes historiográficas. Outros salientam as diferentes estratégias de que uns e outros se valem, ao discutir como se escreve sobre a história.

Em ótimo painel dessa “crise de paradigmas”, Carlos Oiti Berbert Júnior observou: “De um lado, o paradigma moderno considerava apenas a análise documental como suficiente para encontrar a verdade. De outro lado, o paradigma pós-moderno propunha emprestar à narrativa histórica uma autonomia que, até então, não lhe tinha sido concedida”.[11]

Para os leitores interessados em se aprofundar nessa questão, recomendaria ler a oportuna coletânea História & Narrativa, organizada por Jurandir Malerba. Dentre os 18 textos lá reunidos, chamarei atenção para a tradução de um artigo sobre Leopold van Ranke, escrito por Jörn Rüsen em 1990. Há 29 anos, o historiador alemão lembrara que haveria “tendências recentes na Teoria da História” a enfatizar “o caráter poético e retórico da historiografia”.[12]

Percorrendo de muito perto os textos legados por Ranke, Jörn Rüsen defende que a escrita da história envolve a reconstrução dos acontecimentos através da pesquisa de fontes primárias, combinada a determinados procedimentos colhidos na retórica, com o fim de persuadir. O próprio Leopold van Ranke suspeitava-o em 1830: “A história é distinta de todas as outras ciências, já que também é uma arte. A história é uma ciência da coleta, da busca, da penetração; é uma arte porque recria e retrata aquilo que encontrou e reconheceu”.[13]

Após discutir em que a retórica e a estética diferem, quando detectadas no discurso historiográfico, Rüsen defendia que “o apelo estético da historiografia clássica do século XIX é mais do que apenas uma consequência das habilidades pessoais dos historiadores; é um reflexo de uma racionalização interna da historiografia por meio dos estudos históricos”. Como ilustrá-lo? Comparando as obras de Leopold von Ranke com aquelas da década de 1990: “Para nós, a articulação linguística das habilidades acadêmicas na historiografia aparece nas notas de rodapé. Quanto mais notas de rodapé, mais profunda a preocupação acadêmica. As obras de Ranke não têm muitas notas de rodapé. Sua preocupação acadêmica ou científica é muito mais internalizada”[14].

A que fatores poderíamos atribuir o desinteresse generalizado pelas matérias que versam sobre o passado? Recusa à teoria? Crença otimista no futuro? Alguns atribuem essa postura à chegada da televisão, na década de 1950, e ao advento da internet (e o império das imagens disseminadas no ciberespaço), a partir dos anos de 1990. Seria difícil precisar desde quando o interesse pelas coisas de outros tempos deixaram de seduzir uma parcela considerável, inclusive de nossos estudantes. A julgar pela ausência de relógios, em estabelecimentos comerciais e shoppings centers, o problema não parece estar localizado apenas no desinteresse ou descrédito nos livros de ou sobre história: ele também pode se relacionar à negação do tempo figurado pelos ponteiros, a fixar quanto nos resta de consumismo ao abrigo do sol e das intempéries.

No tempo do consumismo, para que “serve” o passado? Será ele mercantilizável? Alguém poderá supor que reler os diálogos de Platão, retornar à Retórica de Aristóteles ou às Orações de Cícero resultará inútil e improdutivo. Afinal, tratar-se-ia de obras “datadas”, “superadas” por pensadores que pensam em acordo com a nossa época, dita pós-moderna, pós-utópica e pós-ideológica. Poder-se-ia afirmar praticamente o mesmo, ao sugerir que as contribuições de Sigmund Freud, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Jean Baudrillard ou Gilles Lipovetsky estariam fora de seu tempo e lugar. Quem será capaz de mensurar a extensão do passado e quantificar a importância das matérias situadas nele? Como contabilizar o prazo de validade de uma fórmula química, de um procedimento cirúrgico, de uma teoria matemática? Situado na véspera, um discurso perderá sentido e terá menor impacto?

No tempo do consumismo, para que “serve” o passado? Será ele mercantilizável? Alguém poderá supor que reler os diálogos de Platão, retornar à Retórica de Aristóteles ou às Orações de Cícero resultará inútil e improdutivo.

Em 1965, Vilém Flusser deslocava a questão para o campo teológico. Ele sugeria que:

“O diabo é provavelmente imortal, mas certamente surgiu em dado momento. Ele nada na correnteza do tempo, quiçá a dirige, ele é histórico no sentido estrito do termo. É possível a afirmativa de que o tempo começou com o diabo, que o seu surgir ou a sua queda representam o início do drama do tempo, e que “diabo” e “história” são dois aspectos do mesmo processo”.[15]

A senhora, o senhor internauta perceberam que o filósofo não estava a defender o que pressupõem as Escrituras, mas a propor justamente o contrário. Dada a conjuntura que nosso país atravessa, não seria demasiado pressupor que estudar e escrever sobre pessoas e atos que movimentam a história também sejam um modo de nos contrapor à sanha padronizadora, que parece embalar as mentes de muitos homens (e mulheres). Ora, é a tese do eterno presente que mais interessa àqueles que inoculam e sobrevivem da manutenção dos dogmas, graças a que voltaram a dizer que a responsabilidade pelo fracasso é do próprio sujeito, sem “capacidade”, “mérito” ou “competência” em lograr êxito. Haverá mesmas oportunidades e lugares dignos para todos, já que compartilhamos um território tão grande? Sabemos que não.

Só muito remotamente a mudança do coletivo em relação ao passado advirá de iniciativas particulares, isoladas. Afinal, passou-se a vincular ao âmbito privado a derradeira instância, aquela que permitiria a maior (ou menor) capacidade de intervenção dos sujeitos nos assuntos que lhe dizem, ou não, respeito.

O discurso da (in)competência[16] atrelou-se ao deslumbre pela tecnologia, que se supõe um índice de melhoria, no ritmo da evolução mais e mais célere. Talvez o mais grave seja acreditar que a “ordem” supostamente racional, nos termos em que parte de nossa sociedade diz acreditar, assegure o ajuste econômico e traga paz e harmonia dos coletivos. Como percebeu Flusser: “A desordem é própria da vida. A ordem é inimiga da vida, é a própria morte. Ordenar [a] vida significa matá-la”[17]. Diante do espelho, de que lei, de que ordem, de que justiça se está a falar em nosso país?

Não é de se espantar que o papel do passado seja negligenciado não apenas do ponto de vista “teórico”, em contraposição à práxis, como percebeu Gadamer[18]. A comparação entre discursos e gestos situados em tempos e espaços diferentes costuma ser suficiente para relembrar de que matéria nós e os outros somos feitos. O pretérito não é pretexto para a negação do presente; o passado o precede, mas não o rege. Não deveríamos confundir esse aspecto do pretérito com a reafirmação da mesmice, menos ainda negar as possibilidades de mudança.

 

[1]Ressalva de uma coordenadora de curso de graduação (fora da USP) proferida em fevereiro de 2012.

[2]Cumprimento de aluna, após uma aula (fora da USP) em que abordei a Retórica a Herênio (Tradução e Introdução de Ana Paula Celestino Faria e Adriana Seabra. São Paulo: Hedra, 2010), em maio de 2013.

[3]Confissões, Livros VII, X, XI. Trad. Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria CristinaCastro-Maia de Sousa Pimentel. Covilhã: Lusofia: Press, 2008, p. 117.

[4]Princípios Gerais da Ciência Histórica: exposição dos elementos básicos para uma nova visão sobre todos os tipos de saberes. Trad. Sara Baldus. Campinas: Editora Unicamp, 2013, p. 40.

[5]Fundamentos de Teoria da História, Trad. Sara Baldus e Julio Bentivoglio. Petrópolis, Vozes, 2010, p. 30.

[6]Martinho Lutero, um Destino. Trad. Dorothée de Bruchard. 2a reimp. São Paulo: Três Estrelas, 2017, pp. 11-12.

[7]Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. 3a reimp. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012, p. 98.

[8]A Escrita da História. 3a ed. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Gen; Forense Universitária, 2017, p. 4.

[9]A esse respeito, leia-se: Jacques Le Goff. História & Memória, 7a ed. Trad. Bernardo Leitão, Irene Ferreira e Suzana Ferreira Borges. Campinas: Editora Unicamp, 2016.

[10]Conforme observa Carlos Oiti Berbert Júnior, “O nosso principal argumento baseia-se no fato de que a história como atividade que busca compreender o passado vive atualmente uma crise. Por sua vez, essa crise é motivada por um impasse que tem como centro o problema do ‘sentido’ e da ‘interpretação’ associado ao papel da narrativa na construção do conhecimento histórico” (A História, a Retórica e a Crise dos Paradigmas. Goiânia: Editora da UFG, 2012, p. 68).

[11]Idem, ibidem, p. 10.

[12]“Retórica e Estética da História: Leopold von Ranke”. In: Jurandir Malerba (org.). História & Narrativa: a ciência e a arte da escrita histórica. Petrópolis: Vozes, 2016, p. 85.

[13]Ranke Apud Rüsen, op. cit., 2016, p. 89.

[14]Idem, ibidem, p. 97.

[15]A História do Diabo. São Paulo: Annablume, 2008, p. 21.

[16]De acordo com Marilena Chauí, “[…] a função da ideologia é ocultar a divisão social das classes, a exploração econômica, a dominação política e a exclusão cultural, oferecendo aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, fundada em referenciais identificadores, como a Humanidade, a Liberdade, a Justiça, a Igualdade, a Nação” [André Rocha (org.). Escritos de Marilena Chauí. Vol. 3: A Ideologia da Competência. Belo Horizonte: Autêntica, 2014, p. 53].

[17]A História do Diabo, ed. cit., p. 41.

[18]“Quando alguém quer contribuir com a reflexão como um historiador que filosofa, é enviado às origens da cultura, quer dizer, aos feitos básicos, como são a palavra e a linguagem” (Elogio de la Teoría: discursos y artículos. Trad. Anna Poca. Barcelona: Ediciones Península, 2000, p. 9).

 

 

 

 

 

 

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