Nem toda menina nasceu para ser bailarina

Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Katia Rubio – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Essa frase estampada em uma camiseta presenteada por uma Dibradora sintetiza o sentimento de mulheres que desejaram ao longo de suas vidas praticar o futebol e esse desejo as colocou na linha de frente na luta por direitos. Embora pareça recente, é um movimento de décadas que ganhou visibilidade depois de algumas conquistas não tão grandiosas como a luta de muitas mulheres que enfrentaram a tirania daqueles que detinham o controle das instituições e da organização do esporte.

Na língua portuguesa o substantivo “atleta” não declina gênero. Isso pode levar a uma falsa suposição de equidade. Como em outros lugares, o predomínio da lógica de dominação masculina no esporte brasileiro invalidou, durante décadas, a experiência atlética feminina. Considerada como usurpadora ou profanadora de um espaço consagrado ao usufruto masculino, as mulheres atletas brasileiras precisaram resistir e enfrentar pessoas e políticas que impediram e retardaram as práticas esportivas ao longo do século passado.

Parece improvável em um país considerado defensor de direitos e da liberdade privar, com a força da lei, mulheres de praticar atividades esportivas. E assim foi, por quase meio século, inviabilizando sonhos e carreiras de meninas e mulheres que buscaram romper com estereótipos e papéis atribuídos pelo patriarcado dominante.

Tanto quanto ser bailarina, meninas e mulheres também desejaram provar suas habilidades físicas e motoras, velocidade e força, características consideradas masculinas e reforçadas por produções acadêmicas ao longo de décadas. Isso explica parte do atraso das conquistas das mulheres brasileiras no cenário esportivo internacional. Proibidas pelo Decreto-lei 3.199, de 1941, que deliberava: “Às mulheres não é permitida a prática de desportos incompatíveis com a sua natureza”, teve seu detalhamento na Deliberação n. 7 do Conselho Nacional de Desportos, que entrou em vigor a partir de 1965, e foi revogada apenas em 1979. Essa norma determinava quais práticas esportivas podiam ser desempenhadas por mulheres nas escolas, nos clubes ou nos espaços públicos em todo o país, tornando proibidas as lutas de qualquer natureza, o futebol, o futebol de salão, o futebol de praia, o polo aquático, o polo, o rúgbi, o halterofilismo e o basebol. Foram necessárias algumas gerações para que a prática esportiva estivesse também acompanhada do respeito e consideração necessários até chegar a esse momento em que, finalmente, a seleção conta com aquela, considerada por seis vezes, a melhor jogadora do mundo. Marta ganhou esse título porque também tem junto de si Cristiane, Formiga e tantas outras que representam essa tradição de luta.

Em 1979, com a revogação do Decreto-lei 3.199, as mulheres puderam praticar todas as modalidades esportivas e a consequência foi a multiplicação de competições regionais, nacionais e internacionais em todas as modalidades esportivas. Essa determinação coincide com o processo de abertura política, do fim da ditadura militar, a consolidação de novos formatos familiares com a aprovação da lei do divórcio em 1977, firmando mudanças iniciadas nas décadas anteriores que gradualmente transformaram a estrutura patriarcal da sociedade.

A Copa do Mundo de Futebol Feminino, que acontece neste momento na França, sintetiza uma parte dessa história, cuja primeira versão ocorreu em 1991, apesar de todas as resistências. Versão feminina de um mundial que começou com os homens em 1930, essa sétima versão tem para o Brasil um significado especial. Nunca antes na história do futebol feminino houve tanta cobertura e tanta visibilidade para um torneio feminino.

Há tempos a seleção brasileira de futebol deixou de ter uma relação com o público do país. Que não se culpe os 7×1, um resultado inesquecível de uma seleção que não deixou saudade, não pelo futebol que não jogou, mas pelo time que não chegou a ser uma seleção. É bom lembrar que grande parte dos jogadores que representam o país no presente deixou de ter relação com ele há tempos. Distantes dos clubes nacionais, trabalhadores globalizados, os diaspóricos atletas são hoje cidadãos do mundo da bola, em busca de mercado no qual possam vender sua força de trabalho, não guardam mais identidade com país ou clube. E isso tem seu preço. Distante das TVs abertas, de onde a imagem é mais democrática do que a TV paga, que exibe os campeonatos internacionais em sistema pay-per-view, os ilustres representantes do selecionado masculino brasileiro são alienígenas futebolísticos que surgem em eventos bissextos cuja finalidade maior é proporcionar dividendos para a instituição que explora aquilo que já foi um símbolo nacional: a camisa amarela, hoje uma metonímia da era pós-verdade.

Mas o futebol em si permanece como um símbolo nacional e a seleção feminina provou isso.

Em alguns locais de trabalho cumpre-se o mesmo ritual das copas do mundo masculinas: o trabalho é suspenso para que se possa assistir e torcer por nossas heroínas; resgata-se a camiseta expropriada para outros fins e veste-se o manto sagrado para completar o ritual com a bandeira também usada para fins indevidos; procura-se a emissora cuja voz que narra tem o timbre adequado para descrever e analisar o que se passa em campo. Isso mesmo. É tempo de mulher no futebol, de fio a pavio. É assim que tem que ser.

As usurpadoras de outros tempos são agora ídolos de uma geração órfã de modelos ideais verdadeiros. As donas da bola de agora não ostentam, nem escandalizam por atitudes machistas ou misóginas, e encantam pela determinação com que enfrentam as adversidades impostas pelo sistema e pela vida nada fácil de atleta em tempos de desprestígio esportivo. Embora futebolistas, pertencem a um grupo que mais parece corrida de revezamento com obstáculos por carregar as dificuldades do passado com a velocidade e a resistências necessárias para superar as adversidades e seguir em frente, mesmo sabendo não serem elas as responsáveis por romper a linha de chegada.

Já não precisam mais se espelhar na outra seleção para construírem a própria imagem, muito embora sua liderança técnica permaneça em questionadas mãos masculinas. Como se sabe, se no território da prática esportiva já foi possível avançar consideravelmente, no território da liderança o poder permanece entre aqueles que historicamente dominaram a gestão administrativa e técnica. Essa é a próxima barreira a ser vencida, ainda que possa demorar mais algumas décadas, tempo para que as gerações futuras entendam que não houve concessão, houve luta para que a visibilidade de hoje fosse possível.

Um estudo recente mostrou que apenas 7% dos técnicos esportivos brasileiros são mulheres, em um total de 259 federações esportivas de 22 modalidades. Entre as federações pesquisadas, 71,4% não possuem mulheres cadastradas como técnicas, o que representa uma desigualdade de oportunidade entre gêneros na atuação como treinadores. Isso sugere não apenas a discriminação e o preconceito, mas acima de tudo uma reserva de mercado apoiada na resistência de dirigentes quanto à contratação de mulheres.

Aqui e acolá, inclusive entre os doutos e consagrados conhecedores da arte da bola com o pé, ainda se ouvirá afirmações e comentários, “sempre com embasamento”, sobre a diferença entre esse time e o outro. A finalidade é desqualificar, reduzir, minimizar a importância de um feito já consagrado, que abalou uma estrutura já secular. Mas não passarão! Assim como o espartilho, isso tem a força de uma moda que passará e, no futuro, será lembrado como marca de uma época que deixou marcas dolorosas para aquelas que usaram um adereço tão limitante e doloroso. E, passado o tempo, conquistaram o direito à liberdade do movimento.

O esporte foi ao longo do século XX um espaço privilegiado para a construção de identidades e de desenvolvimento da alteridade, não apenas no Brasil como na maioria dos países ocidentais. Embora essa tenha sido uma conquista tardia, há que se ressaltar a importância que ela representou para as gerações da segunda metade do século passado. Considerada no presente como uma atividade profissional, o esporte é uma campo privilegiado de visibilidade e de conquistas.

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