Debate sobre ciência cognitiva mescla biologia, humanidades e artes

Aspectos biológicos e filosóficos das neurociências se unem em evento multidisciplinar na USP

Por - Editorias: Ciências
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Ciência cognitiva é um termo genérico para um conjunto de esforços interdisciplinares visando a compreender a mente e sua relação com o cérebro humano – Foto: Reprodução

Bienalmente, a Sociedade Brasileira de Ciência Cognitiva (SBCC) realiza um evento para reunir pesquisadores nacionais e internacionais do ramo. Este ano, o Encontro Brasileiro Internacional de Ciência Cognitiva (EBICC) chega à sua 11ª edição. Entre os dias 30 de outubro e 1º de novembro, a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e a Biblioteca Brasiliana receberão palestras, workshops, apresentações e mesas para discutir conceitos como consciência, autonomia e complexidade — as três palavras que conduzirão o 11º EBICC.

Para o professor Vinícius Romanini — docente da ECA e presidente da SBCC — é importante que nichos comunicacionais e artísticos entendam esse universo das ciências cognitivas, acerca do estudo da mente e da inteligência. Apenas dessa forma, estudiosos das humanas irão conseguir se apropriar e participar ativamente da pesquisa. “Hoje tudo é comunicação, tudo é informação. Nós, da ECA, com um enorme departamento de cultura, não podemos ficar de fora disso.”

Durante os três dias de encontro, pesquisadores de diversos países convidam espectadores a participarem de debates tendo como base seus próprios estudos. Na abertura, na segunda-feira, Terrence Deacon — neuroantropólogo da Universidade de Berkeley, Califórnia, nos EUA — apresentará seu trabalho sobre a emergência da mente a partir das relações da matéria. Utilizando a distinção sobre cérebro: entre massa e sinapse, lança-se uma discussão sobre o mistério de enxergar coisas como espírito, mente e inteligência através de um mundo meramente físico, tomado pelas relações exatas.

“Deacon tem formação nas neurociências, mas consegue observar aspectos da questão com um olhar ligado às humanidades. Misturando semiótica, ciência que estuda os signos e significados da linguagem, e biossemiótica, escreveu obras como The Symbolic Species, altamente premiada, na qual os humanos seriam uma ‘espécie simbólica’, atingindo um patamar evolutivo diferencial em relação aos outros seres por conseguirem pensar de maneira afigurativa.”

Criado na USP em 1990, o grupo de pesquisa em Ciência Cognitiva e Psicobiologia passou a denominar-se Ciência Cognitiva – Foto: Reprodução

Outro nome importante é Gregory Chaitin, o principal teórico da informação vivo. Argentino-americano, Chaitin trabalha com seu próprio conceito de informação algorítmica e a teoria do número Ômega — uma formulação para a filosofia e matemática essencial para a relação destes nichos com a ciência lógica. Durante sua mesa, na terça-feira, Chaitin falará sobre o universo como consciência — uma teoria chamada de “pampsiquista”, baseada em resultados empíricos observáveis na mecânica quântica, na qual o universo seria mente.

“Existe uma hipótese que circula na filosofia responsável por designar a consciência como um dos elementos constitutivos do universo. A teoria defende que consciência e informação sejam na verdade a mesma coisa. Logo, o universo é consciente, em alguma medida, em alguma instância, e nossa mente nada mais é que a distanciação de uma possível consciência universal difusa”, explica o organizador.

Além do espaço, a USP irá colaborar com muita pesquisa acadêmica e diálogo no 11º EBICC. Destaque ao Professor Emérito Teixeira Coelho Netto, do Instituto de Estudos Avançados (IEA), com um debate sobre a introdução computacional no campo das artes e da comunicação, e ao próprio Vinícius Romanini, que além de organizar o encontro participará de uma mesa sobre teoria da informação semiótica, da significação, da complexidade e da autonomia em Peirce — grande filósofo americano do século 19. “Nesta mesa-redonda discutiremos tais conceitos para depois constituir um artigo. O debate vai virar produção científica”, completa Romanini.

Arte e cognição

Em meio a debates e palestras, apresentações artístico-culturais ocuparão o 11º EBICC. Todas as intervenções estão sendo oferecidas por pesquisadores relacionados às ciências cognitivas e buscam provar que esse momento não é apenas um intervalo para entretenimento, mas sim, uma exibição de outros nichos alcançados pelo tema central do evento.

Dentre os convidados para as performances, Jonathan Manzoli — professor-maestro da Unicamp — apresentará uma ópera composta a partir do uso de ferramentas artificiais. Responsável por trabalhar nos ramos da filosofia matemática, algoritmos e uso de tecnologia nas composições musicais, Manzoli é um dos estudiosos com produções artísticas vinculadas às contribuições acadêmicas.

Giselle Beiguelman: professora da FAU vai expor no evento instalação representando a estética da delação premiada. Baseada em pesquisa cognitiva, obra tem como objetivo conectar temas da atualidade e interpretar cognitivamente como isso está mudando as percepções – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A professora Giselle Beiguelman, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, trará uma instalação representando a estética da delação premiada. Baseada em pesquisa cognitiva, a intervenção artística tem como objetivo conectar temas da atualidade, continuamente presenciados, e interpretar cognitivamente como isso está mudando a percepção sobre cotidiano, democracia e participação popular na política.

“Nada é por acaso, cada ponta, cada elemento introduzido está articulado em pesquisas na área da cognição. Neste ano, estamos constituindo um evento multi e, até mesmo, transdisciplinar. Temos participantes da biologia, física, química, matemática, engenharia, artes e comunicações. Isso prova que o ramo das ciências cognitivas não estão num quadrado, como costumamos pensar, mas sim, em um leque”, conclui Romanini.

O 11º Encontro Brasileiro Internacional de Ciência Cognitiva (EBICC) acontece nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, na ECA (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 443 – Butantã, São Paulo – SP) e na Biblioteca Brasiliana (Rua da Biblioteca, s/n – Cidade Universitária, São Paulo – SP).

 

Mais informações sobre programação e inscrições estão disponíveis no site.

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