Paulo Emílio unia crítica e conjuntura do País, diz Ismail Xavier

Atuação do crítico de cinema como gestor cultural foi tema de palestra na Cinemateca Brasileira, no dia 3

Por - Editorias: Cultura
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Paulo Emílio Salles Gomes: um dos maiores críticos de cinema e gestor cultural do Brasil – Foto: Acervo da Cinemateca Brasileira

No dia 3 de outubro, o professor Ismail Norberto Xavier, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, ministrou uma palestra sobre o crítico de cinema e professor da USP Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), em mais uma edição do ciclo Cultura, Institucionalidade e Gestão da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da USP. Realizada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo – uma das criações de Paulo Emílio -, a palestra foi acompanhada pelo titular da cátedra, o arquiteto Ricardo Ohtake. A cátedra é uma iniciativa do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e do Itaú Cultural.

Em sua análise sobre a trajetória de Paulo Emílio, Xavier destacou sua consciência sobre os lugares de fala e ação, quando se trata do pensamento acerca do cinema brasileiro. ‘’Ele tinha uma capacidade extraordinária de pensar a crítica de acordo com a conjuntura do País’’, frisou. ‘’Paulo Emílio consolidou uma trajetória de combate ao dogmatismo no pensamento.’’

O componente teórico, embora seja um aspecto indispensável para a construção de um repertório, não é suficiente para uma discussão ampla sobre o recorte cinematográfico, disse Xavier. Para ele, visando ao aprimoramento desse setor, o gestor cultural deve conciliar técnica e crítica, esta alinhada às atualidades que influenciam o ambiente. Nesse contexto, Paulo Emílio esforçou-se para fazer de sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo uma forma de disseminar e incentivar o debate ligado ao cinema.

 

Ricardo Ohtake e Ismaiel Xavier durante palestra sobre Paulo Emílio Salles Gomes, na Cinemateca Brasileira – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Acontecimentos marcantes da vida de Paulo Emílio também foram abordados na palestra. Preso em decorrência de sua militância política, o professor fugiu para a França, onde teve a oportunidade de conhecer membros da Cinemateca Francesa, ligados ao Chaplin Club, clube de cinema dedicado ao cinema mudo. Segundo Xavier, o contato com a cultura francesa permitiu o desenvolvimento de uma mentalidade cinéfila consolidada.

Paulo Emílio foi fundamental na criação dos cursos de Cinema e Audiovisual da USP e da Cinemateca Brasileira, em 1961. Durante o período em que esteve envolvido com a Cinemateca, buscou despertar o interesses de cinéfilos em potencial, mas, sobretudo, disseminar a importância da construção de uma identidade relacionada à iniciativa, já que cineastas, como apontou Xavier, são influenciados por órgãos dessa natureza.   

O envolvimento de Paulo Emílio revolucionou a Cinemateca. A preocupação com a preservação e a constituição de um rico acervo norteou a gestão do espaço, que se tornou referência nesses quesitos. O patamar de destaque alcançado fez com que, mesmo após os incêndios que atingiram o local, em 1969, o Estado fosse sensibilizado para a importância de se preservar um acervo.

O evento da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, na Cinemateca Brasileira – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A consolidação dessa mentalidade representa um marco na vida de Paulo Emílio, apontou o professor Ismail Xavier, já que o pensamento sobre cinema não era do interesse do crítico em um primeiro momento. Essa mudança, inclusive, foi tema de uma de suas últimas obras, Festejo Muito Particular, escrita em 1977, para comemorar os 80 anos do cinema brasileiro. Nesse texto, Paulo Emílio narra como se interessou pelo cinema e se engajou, a fim de equacionar problemas que afligiam o setor. Trata-se da retórica do conhecimento, ou seja, colocar-se no lugar de quem está onde esteve por algum tempo.

Nesse percurso, Paulo Emílio se preocupou com uma análise nacionalista da produção de cinema nacional, destacou Xavier. Há, porém, um fator diferenciado nessa ação: o nacionalismo de Paulo Emílio não era ufanista. “Ao contrário, era crítico, sempre tentando apreender de que forma o contexto ao qual o País está submetido influencia o cinema local.” Para o crítico, a relação com o estrangeiro era válida, mas não poderia ser condição primária, já que o conhecimento era superficial, segundo Xavier.

Como gestor cultural, não mediu esforços para desenvolver a cultura no Brasil, assinalou Xavier. “Pode-se dizer, ao cabo, que o devido reconhecimento tem sido conquistado. O fato de a Cinemateca Brasileira ter se tornado, em 1984, parte integrante do Ministério da Cultura é, sem dúvida, uma grande conquista.”

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