Monte Negro: doenças crônicas ameaçam crianças

Luiz Marcelo A. Camargo é professor do Instituto de Biociências e coordena o ICB5 em Rondônia

Por - Editorias: Artigos
Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail
Luís Marcelo Aranha Camargo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Em 2013 a equipe do ICB5/USP, em Rondônia, desviou seus olhares do microscópio ao aspecto envelhecido da população. Monte Negro já foi jovem… Os colonizadores da década de 1970 (famílias jovens oriundas do Sul e Sudeste) ocupam a floresta há quase 50 anos. Em seu bojo, as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como a hipertensão arterial, aumento do colesterol, diabete, cânceres e doenças pulmonares relacionadas ao tabagismo, além da violência, pronunciam-se com voz grave e alta.

Quando o ICB5/USP se instalou em Monte Negro, há 20 anos, a mortalidade proporcional por doenças infectoparasitárias (DIPs) era ao redor de 20%; hoje é de apenas 2%. Atualmente a morbidade (ocorrência de casos clínicos) por DIPs ainda continua elevada, com elevados índices de dengue, zika vírus, chikungunya, HIV, hepatites, sífilis, hanseníase, micoses sistêmicas, entre outras. Com relação às DCNTs, estas respondem hoje por mais de 50% dos óbitos, seguidas de causas violentas (20% dos óbitos, com elevada ocorrência de acidentes por veículos automotores e homicídio). Mais de 50% das pessoas morrem acima dos 50 anos, indicador considerado razoável, pois a morte é mais esperada após esta idade. Em São Paulo, por exemplo, mais de 70% dos óbitos ocorrem acima desta faixa etária, demonstrando uma situação mais confortável.

Essa mudança radical do perfil de saúde da população nos últimos anos instigou os pesquisadores do ICB5. Inicialmente, em 2013, foram estudados 412 idosos (acima de 59 anos) da área urbana de Monte Negro. Os resultados foram no mínimo trágicos: 60% de hipertensos, 65% com o colesterol aumentado, 24% com diabete, 60% com obesidade abdominal, 20% com catarata e 30% com lesão importante nos rins.

Questionou-se: onde está o erro? Por que essa elevada prevalência de DCNTs? Seguramente, o papel do envelhecimento tem seu peso. O corpo se desgasta. É natural. Porém, associa-se a este fato um sistema de saúde precário, pouco abrangente, que não prioriza a promoção de saúde, desaparelhado e omisso. Não satisfeitos, os pesquisadores, em 2015, resolveram abordar o problema pela raiz: as crianças. Já estariam elas doentes e/ou com fatores de risco para DCNTs? Em 2013 a equipe do ICB5/USP em Rondônia, desviou seus olhares do microscópio ao aspecto envelhecido da população. Monte Negro já foi jovem… Os colonizadores da década de 1970 (famílias jovens oriundas do Sul e Sudeste) ocupam a floresta há quase 50 anos. Em seu bojo, DCNTs como hipertensão arterial, aumento do colesterol, diabete, cânceres e doenças pulmonares relacionadas ao tabagismo, além da violência, pronunciam-se com voz grave e alta.

Quando o ICB5/USP se instalou em Monte Negro, há 20 anos, a mortalidade proporcional por doenças infectoparasitárias (DIPs) era ao redor de 20%; hoje é de apenas 2%. Atualmente a morbidade (ocorrência de casos clínicos) por DIPs ainda continua elevada, com elevados índices de dengue, zika vírus, chikungunya, HIV, hepatites, sífilis, hanseníase, micoses sistêmicas, entre outras.

Na tentativa de elucidar a questão, 499 crianças de 6 a 16 anos (de um universo de 1.489 crianças), alunas das escolas públicas urbanas de Monte Negro, foram examinadas. Resultados preliminares não são nada animadores. Além de elevadas prevalências de obesidade e sedentarismo (ao redor de 30%), fatores de risco para as DCNTs, foram detectadas crianças com hipertensão arterial, intolerância à glicose (pré-diabete) e alteração dos níveis do colesterol.

Quando o ICB5/USP se instalou em Monte Negro, há 20 anos, a mortalidade proporcional por doenças infectoparasitárias (DIPs) era ao redor de 20%; hoje é de apenas 2%.

As meninas, por exemplo, apresentam mais risco de desenvolver doença cardiovascular que os meninos, provavelmente por serem mais sedentárias. Quarenta por cento das crianças necessitam de atenção à saúde bucal com urgência e 10% apresentaram alteração na acuidade visual, fato que pode prejudicar o aprendizado. Como serão estas crianças quando envelhecerem em um sistema de saúde precário? Como serão nossos idosos amazônicos  em 2070?

Vale lembrar que esses dados acompanham uma tendência mundial e são similares em estados desenvolvidos do Brasil. Há poucos dados para a Amazônia. Há também pouca informação na literatura sobre o manejo das crianças com DCNTs.

Enquanto os pesquisadores do ICB5 se debruçam sobre os dados e tentam compreender melhor esse fenômeno, resolveram, em parceria com a direção das escolas públicas, implantar o PSE (Programa de Saúde Escolar). A ideia inicial é prestar assistência à saúde e promoção à saúde aos quase 1.500 alunos das escolas públicas. Visitas diárias de cinco estudantes de medicina e um preceptor médico às escolas já examinaram mais de 500 crianças até então. As crianças com problemas de saúde são encaminhadas ao ICB5/USP para um melhor esclarecimento diagnóstico e tomada de conduta.

Os colegas da FOB/USP atenderão em julho próximo à demanda de pacientes odontológicos e fonoaudiológicos triados pelo ICB5. As crianças com problemas de acuidade visual serão avaliadas a distância (telemedicina) pelos profissionais do Departamento de Oftalmologia da Unifesp e Ipepo. Reuniões com os gestores da educação pública local e pais de alunos têm ocorrido no sentido de informar sobre a situação e promover hábitos mais saudáveis pelos alunos.

Entendemos que a atitude do ICB5/USP é paliativa, porém a equipe não poderia ficar omissa. Os dados científicos (em análise), sem dúvida trarão mais luz à questão e produzirão mais questões a serem investigadas. Na pior das hipóteses, esse estudo preenche modestamente uma lacuna de informação em saúde para a Amazônia brasileira e traz à tona uma nova problemática na área de saúde pública: a coexistência de três agravos à saúde em um mesmo espaço físico, mesmo em regiões remotas do Brasil: DIPs, DCNTs e violência, ocorrendo concomitantemente. Um verdadeiro “nó”, que muitas vezes extrapola a questão específica da saúde, como no caso da violência. Fica aos gestores de saúde o alerta e a necessidade imediata da tomada de uma conduta mais contundente em políticas de saúde pública… ou nossos filhos e netos serão idosos muito doentes.

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail