Foto: Divulgação/Cinekids

Curso da USP completa 10 anos formando profissionais para as novas demandas da educação

Licenciatura em Educomunicação da Escola de Comunicações e Artes da USP é a primeira e única no Brasil; formados podem atuar com tecnologias nos ambientes educacionais

 Publicado: 08/06/2022  Atualizado: 20/06/2022 as 8:15

Mariana Marques

O curso de Licenciatura em Educomunicação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP completou dez anos com a proposta de atender às novas necessidades da área da educação e formar profissionais qualificados para lidar com as diferentes interfaces que envolvem as tecnologias da informação nos ambientes educacionais.

“A ECA foi uma das pioneiras e líderes no processo de constituição desse campo e a trabalhar o paradigma sobre o fenômeno da interface entre a comunicação e a educação”, explica o professor de Epistemologia da Educomunicação, Claudemir Edson Viana.

Nessa nova área do saber, o profissional precisa estar comprometido com os princípios básicos da Educomunicação. Diálogo, liberdade de expressão, protagonismo e valorização de saberes diversos são alguns dos valores indispensáveis para que a educomunicação seja implementada com sucesso no processo de aprendizado. “A educomunicação cria processos que levam jovens a produzirem as suas interpretações sobre as questões que lhes dizem respeito, que são de seu interesse ou que chegam até eles por estar na pauta social e acabam sendo de interesse deles.”

Claudemir leciona no curso desde 2013. Nesses oito anos dedicados a formar educomunicadores, ele pode acompanhar o desenvolvimento da licenciatura e foi parte importante do processo de amadurecimento do curso, lecionando em diversas disciplinas e ajudando a elaborar outras.  

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Claudemir Edson Viana, professor da Escola de Comunicações e Artes - Foto: Divulgação/ECA USP

“Algo que me orgulha bastante é fazer parte de uma equipe de docentes e funcionários muito integrados ao corpo discente. É uma marca aqui da licenciatura de educomunicação, esse diálogo próximo e constante entre docentes e discentes. Porque um dos fundamentos da educomunicação é justamente o diálogo não só como filosofia de vida, mas como metodologia de trabalho de produção de conhecimento”, ressalta o professor.

Estudantes de escolas públicas em projetos de educomunicação: tecnologia, comunicação e educação - Foto: Reprodução/Youtube TV Futura

Formando protagonistas

Recém-formada no curso, a ex-aluna Bianca Coelho conta que conheceu a educomunicação durante o período em que fazia aulas no cursinho pré-vestibular popular da sua cidade natal. “Foi a partir desse processo de estudar para entrar na universidade pública que eu comecei a me envolver com temáticas sociais. Nós tínhamos saraus e aulas em que desenvolvíamos o pensamento crítico de uma forma muito livre, o que me chamou cada vez mais atenção. E durante esse processo de estar tentando entrar na graduação, eu pensava em fazer Pedagogia ou Ciências Sociais. Foi pesquisando cursos que eu descobri a Educomunicação.”

A ex-aluna Bianca Coelho - Foto: Divulgação/ECA USP

O que chamou a atenção da então estudante do ensino médio foi a conexão entre a Educomunicação, os assuntos que envolvem direitos humanos e a análise crítica da forma como nossa sociedade pensa e concretiza a educação. De acordo com a educomunicadora, os princípios da área envolvem diálogo, autonomia e protagonismo dos estudantes. 

“Isso é uma coisa que sempre me chamou muita atenção, porque na escola eu me sentia silenciada. Eu sentia medo de falar na aula, tinha medo de me posicionar. E a educomunicação vem em contrapartida, buscando entender cada vez mais o papel daquele aluno e o quanto ele é essencial. Mais do que isso, busca promover um espaço escolar que seja pautado nessa troca de conhecimentos por busca dessa autonomia, desse protagonismo do aluno”, destaca Bianca.

Profissionais e ativistas da educomunicação

O campo de atuação dos profissionais formados em Educomunicação é bastante amplo. Os educomunicadores podem atuar em instituições de ensino formais e organizações não governamentais (ONGs), promovendo projetos pedagógicos que permitam o melhor desenvolvimento do processo de aprendizagem. Pensar em formas mais eficientes de transmitir determinado conhecimento ou educar jovens e adultos sobre o melhor modo de utilizar os dispositivos midiáticos disponíveis são algumas das atribuições possíveis do educomunicador.

Henrique Uyeda do Amaral, educomunicador formado em 2021, teve uma trajetória profissional diferente: “Eu fiz a primeira graduação em Engenharia de Produção e desde o começo percebi que não queria trabalhar com aquilo. Então fui descobrindo um pouco mais sobre quem sou e como eu queria ser como profissional. E fui seguindo caminhos que fugiam um pouco da engenharia”, conta.

Henrique Uyeda do Amaral, formado em educomunicação- Foto: Arquivo pessoal

Foi trabalhando com a gestão de projetos em uma empresa de educação que Henrique descobriu seu interesse na área do ensino. “Eu sempre tive muito interesse em educação, em discutir o tema, o nosso sistema educacional. Isso desde a época da escola e depois ainda mais na faculdade de engenharia, que é ultratradicional nos métodos de ensino.”

“Quando eu estava numa instituição que tinha cursos também na área de educação foi que eu decidi que queria ir para a área pedagógica e queria entrar nesse outro caminho. E para isso procurei, pensei e achei que uma formação poderia acelerar esse processo: a educomunicação”, explica Amaral. 

Hoje, ele atua ativamente na plataforma Base Educom, da qual é cofundador. Nela, profissionais, estudantes e pessoas interessadas na área buscam estabelecer uma comunidade para discutir temas relativos à atuação educomunicativa em contextos variados. “Eu sou entusiasta, acho que a educomunicação é um caminho que precisa ser olhado com muito bons olhos. Porque de certa forma contribui muito para todos os outros campos da educação e da comunicação.”

A Base Educom, em parceria com o Laboratório de Inovação, Desenvolvimento e Pesquisas em Educomunicação (Labidecom), lançou a série Especial: 10 Anos de Licenciatura em Educomunicação. Clique no player abaixo para ouvir o primeiro episódio e confira a série no Spotify, neste link.

Novo perfil

A consolidação do campo educomunicacional também trouxe uma mudança no perfil de alunos que buscam a graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP. De acordo com Claudemir, cada vez mais estudantes procuram o curso como primeira opção ao entrar na universidade. “Desde 2016 o perfil (de alunos) está mudando. Ele tem sido de jovens que têm interesse no campo devido a algum histórico na vida de envolvimento com movimentos sociais, com causas sociais. Muitos jovens que trabalham em projetos, em ONGs, já conhecem a educomunicação, já participaram de projetos e eventos. E querem buscar uma formação mais profissional no campo.”

É nesse perfil que Felipe Seriacopi se encaixa. Aluno do sexto período de Educomunicação, ele conta o que o levou a escolher essa licenciatura: “Eu sempre pensei em cursar publicidade, tanto que eu prestei vestibular para publicidade no terceiro ano do ensino médio e no ano seguinte. Mas, ao mesmo tempo, também sempre gostei muito da interação com as crianças”, explica. “Minha família tem um lado muito voltado para a educação. Meus pais já foram professores e atualmente eles escrevem livros didáticos de história. Então sempre foi algo que eu valorizei muito, essa questão da educação.”

Na Educomunicação, Felipe viu a oportunidade de reunir duas grandes áreas nas quais tinha interesse. Hoje, pensa em trabalhar com tecnologia e educação. “Eu gosto dessa parte, das tecnologias; produção de vídeo, de áudios e conteúdos mais voltados para audiovisual e o uso dos recursos tecnológicos.”

Felipe Seriacopi, aluno do curso de Educomunicação na ECA - Foto: Arquivo pessoal

Recentemente, o estudante começou a fazer estágio em uma escola da rede pública de São Paulo, e destacou o quão enriquecedora a experiência tem sido. “Está sendo uma boa experiência. Eu estou há duas semanas lá, não tenho ainda uma vasta experiência, mas ter esse contato com as crianças me deixa alegre. Eu chego lá e é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, as crianças estão sempre conversando umas com as outras e eu vou analisando como cada uma está participando da aula. Vou construindo o perfil daqueles jovens, daquela escola.”

Apesar da correria, é o contato com os estudantes do ensino fundamental que mais tem marcado de forma positiva o período na instituição de ensino: “As crianças são bem carinhosas comigo. Elas vêm, conversam e acho legal ter essa proximidade com elas também”.

Educomunicação na Wikipédia

No mês de abril, estudantes do curso na ECA participaram do projeto Educomunicação e Wikipédia: Experimentos da Escrita Acadêmica Compartilhada e Coletiva. Além de aproximar os universitários da escrita em ambientes on-line colaborativos, a atividade contou com a inclusão de verbetes relacionados à Educomunicação na maior enciclopédia da internet. Uma das produções foi a criação do verbete Ismar de Oliveira Soares, professor da ECA que é um dos principais nomes do campo da Educomunicação e que também participou da criação do curso de graduação na USP. 

Ismar de Oliveira Soares, professor - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Licenciatura em Educomunicação

Local: Escola de Comunicações e Artes e Faculdade de Educação da USP (Campus da capital – Cidade Universitária, São Paulo)
Período: noturno
Duração ideal: 8 semestres (4 anos)

Vagas pela Fuvest: 21
Ampla Concorrência (AC): 13
Escolas Públicas (EP): 5
Pretos, Pardos e Indígenas (PPI): 3

Vagas pelo Sisu: 9
Ampla Concorrência (AC): 2
Escolas Públicas (EP): 4
Pretos, Pardos e Indígenas (PPI): 3

Clique no player e confira uma apresentação do curso


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