Índice de desenvolvimento social pode se relacionar ao aumento da altura e obesidade em crianças

Para José Donato Júnior, a implementação de benefícios dos programas sociais de renda pode ter influenciado no aumento da altura das crianças brasileiras, possibilitando melhor alimentação

 Publicado: 14/05/2024
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Existe uma correlação entre índice de desenvolvimento social em riqueza e estatura – Arte de Lívia Magalhães com imagens de Freepik
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Um estudo feito por pesquisadores da Fiocruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Londres, mostrou que a média de altura das crianças brasileiras aumentou um centímetro em sete anos, ao passo que os índices de obesidade infantil também estão subindo consideravelmente. José Donato Júnior, professor do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo, analisa os resultados da pesquisa e os fatores que estão provocando as alterações fisiológicas nos jovens brasileiros.

Segundo o especialista, apesar do aumento de um centímetro na média de altura dos jovens parecer pouco, na verdade é um número bastante representativo, uma vez que a comparação foi feita entre a estatura média das crianças nascidas entre 2001 e 2007 com as crianças nascidas em 2008 a 2014, ou seja, é uma diferença de apenas sete anos, podendo inclusive haver irmãos na análise.

Dinheiro e altura

Conforme o docente, existe uma correlação entre índice de desenvolvimento social em riqueza e estatura, por isso, a estatura média dos brasileiros é menor do que a de populações de países europeus, por exemplo. Ele afirma que os países desenvolvidos possuem melhores condições nutricionais, menos infecções, mais tratamento de doenças e cada um dos fatores que pode diminuir o potencial de crescimento acaba sendo mitigado em boas condições de saúde e nutricionais.

“Se uma criança pega uma infecção e não se trata direito, ela vai acabar comendo pouco porque está doente, frágil, e isso pode se arrastar por meses. Em locais que oferecem bons serviços de saúde e nutricionais, essa criança se recupera rapidamente e volta a ficar sadia, mas em locais mais pobres essa infecção pode durar bastante, o que diminui o seu potencial de crescimento“, analisa.

José Donato Júnior – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

De acordo com Donato Júnior, o estado nutricional informa o cérebro caso o indivíduo esteja se alimentando corretamente, não apenas quantitativamente, mas, principalmente, qualitativamente. Nesses casos, é mais provável que o corpo desenvolva melhor a estatura, pois, do ponto de vista evolutivo, quanto mais alta uma pessoa, mais energia ela precisa gastar e, consequentemente, precisa se alimentar mais.

A pesquisa aborda também o impacto da orientação educacional das mães nessas mudanças fisiológicas, mas, para o docente, essa é uma medida indireta, uma vez que as mulheres com melhor instrução têm mais chances de conseguir melhores empregos e arcar com uma alimentação mais nutritiva para seus filhos. Essa soma de fatores, conforme o especialista, proporciona maior probabilidade para que os jovens consigam atingir o potencial máximo de crescimento, determinado pela genética de cada indivíduo.

Programas de renda

Para o professor, a implementação de benefícios dos programas sociais de renda, como o Bolsa Família, pode ter influenciado no aumento da altura das crianças brasileiras, possibilitando melhor alimentação. Por esse motivo, as pessoas com melhores condições financeiras provavelmente não tiveram mudanças significativas na média de altura, mas, para o extrato mais pobre, as alterações são interessantes, pois agora essas pessoas têm condições de se alimentar melhor e crescer mais.

O estado nutricional informa o cérebro caso o indivíduo esteja se alimentando corretamente, não apenas quantitativamente, mas, principalmente, qualitativamente – Arte: Jornal da USP

 

“Por um lado, temos que comemorar que houve programas sociais que conseguiram causar impacto em um curto período de tempo, mas vendo que esse ganho também está vindo com o aumento da incidência de obesidade, aí envolve uma outra esfera mais complexa, que é assim: como vamos ensinar as pessoas a se alimentarem adequadamente e não em excesso?”, reflete.

Obesidade

Conforme o especialista, o aumento no índice de obesidade infantil é um reflexo da mesma tendência que acontece com os adultos, marcada por fatores que envolvem má nutrição, sedentarismo e questões psicológicas. Para ele, essa condição é extremamente grave, pois é um gatilho para uma série de outras doenças muito mais graves, como diabete, hipertensão e problemas cardiovasculares, os quais podem reduzir a expectativa de vida consideravelmente.

No âmbito da alimentação, ele conta que as pessoas estão consumindo cada vez menos alimentos orgânicos e estão abusando dos ultraprocessados, os quais são densamente calóricos. As comidas desse grupo, como doces e salgadinhos, costumam receber altas doses de açúcar, gordura, sal e outros aditivos em suas composições.

A falta de atividade física é outro ponto preponderante e o professor destaca as mudanças de costume, já que diversas crianças deixam de brincar, correr e se movimentar e preferem ficar em casa conectadas à internet ou assistindo televisão. Essa falta de movimentação do corpo, principalmente na fase de crescimento, influencia em acúmulo de gordura e ganho de peso.

“Outro fator que também vale a pena destacar é a questão psicológica, pois o mundo hoje é um lugar estressante, inclusive para a criança, então é um desgaste emocional muito grande. Quando estão estressados, tanto os adultos quanto as crianças descontam um pouco na comida, porque é na alimentação que encontram uma fonte de prazer e uma recompensa para aquele dia cansativo e desgastante”, finaliza.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira


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