Covid longa carece de dados e de diretrizes de encaminhamento no Brasil

Nota Técnica da Rede de Pesquisa Solidária relata falta de dados sobre covid longa por órgãos do governo e a necessidade de políticas públicas sobre o assunto

 Publicado: 19/01/2023
Existe relação entre a não vacinação e o maior risco de desenvolver a forma prolongada da doença – Foto: Unsplash/Pixabay

A Nota Técnica nº44, da Rede de Pesquisa Solidária, tem a temática A importância de detectar e tratar a covid longa no Brasil: uma análise sobre sintomas dos indivíduos acometidos e do acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Uma de suas conclusões é a falta de dados fornecidos pelo Ministério da Saúde e pelas Secretarias dos Estados, mesmo com três anos de pandemia.

“Quando você não tem dados, você carece de políticas públicas, porque você não consegue dimensionar a magnitude do problema nem sabe como lidar com ele”, pontua a professora Lorena Barberia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que também integra a Rede de Pesquisa Solidária.

Covid longa

Além da fase aguda, que é representada pelos sintomas iniciais e o período regular do vírus, existe a covid longa, que corresponde ao prolongamento de sintomas após a fase aguda. Os sintomas muitas vezes são diversos e variados, desde problemas neurológicos até respiratórios; portanto, identificar e tratar a covid longa exige uma busca por diretrizes e políticas públicas que destacam a importância de dados.

Lorena Barberia – Foto: Angico/USP

Os dados expressados na pesquisa realizada com brasileiros, via questionário enviado pela internet, estão presentes na Nota Técnica e identificaram uma relação entre a não vacinação e o maior risco de desenvolver a forma prolongada da doença. A persistência de sintomas após o período agudo foi mais frequente entre pessoas não vacinadas (72%) do que em pessoas vacinadas (59%). Lorena coloca que a vacinação é uma forma de evitar os sintomas mais graves, mas a prevenção e os cuidados para não ser contaminado são importantes: “A gente está muito preocupado em reforçar a questão da prevenção. As vacinas são parte de uma estratégia para nos ajudar a evitar os sintomas graves. Felizmente, a proporção de pessoas com covid longa na população vacinada era menor, mas a gente ainda quer chamar atenção que existe um risco: ainda não entendemos porque algumas pessoas desenvolvem covid longa. Isso chama atenção, porque, se eu sei que existe um risco, então eu vou ter mais consciência nas minhas práticas de evitar contrair o vírus e evitar transmitir para outras pessoas”.

Diretrizes

“Uma parcela muito significativa das pessoas sofre da infecção, e essa estimativa não é fácil de nós sabermos, porque não temos esse monitoramento, mas internacionalmente os  dados sugerem que você tem uma parcela muito grande de pessoas manifestando alguns sintomas persistentes e pode ser entre 10% a 30% da população infectada”, diz a professora. A falta de dados advindos do Ministério da Saúde e das Secretarias é um grande empecilho à criação de políticas públicas e diretrizes efetivas para o tratamento da covid longa. “Nós olhamos todos os documentos que foram produzidos pelo Ministério falando sobre covid longa e, o que nós estamos querendo chamar atenção é que, mesmo que o Ministério da Saúde cite, mencione e reconheça que existe covid longa, essas iniciativas foram insuficientes. Existe uma demanda que não tem regras previstas de encaminhamento. Fica uma questão muito difícil para essas pessoas que procuram os serviços de saúde, porque não existem protocolos padronizados e diretrizes de encaminhamento, não existe esse tipo de infraestrutura. A gente está querendo cobrar do Ministério da Saúde uma coordenação maior de diretrizes para o encaminhamento das pessoas com covid longa que precisam do acesso aos serviços de saúde”, acrescenta Lorena.

Pandemia

Após três anos de pandemia, que ainda não acabou, como ressalta a pesquisadora, é necessário pensar nos desafios que persistem. Uma das conclusões da Nota Técnica foi que, por meio do questionário, 81% dos pacientes que afirmaram ter covid longa necessitaram do suporte de profissionais e de serviços de saúde. 

Lorena pontua que um diálogo sobre como será a agenda dos novos governos quanto às questões da forma prolongada da moléstia é fundamental para uma melhoria na implementação de políticas públicas efetivas. “Nós precisamos sempre lembrar que somos o segundo país em número de óbitos no mundo. Precisamos cobrar desses novos governos programas e políticas para evitar que esse problema continue sendo tão grave na sociedade brasileira. A pandemia não acabou, a política pública continua sendo necessária e a gente precisa desse diálogo com os gestores para pensar nessas políticas e avaliar se elas estão ajudando a diminuir o número de casos e o número de pessoas que estão sofrendo por conta da covid longa”, comenta a professora.


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