Ganhadores do prêmio Nobel participam de encontro na USP

Três laureados estiveram em evento na Universidade e interagiram com a comunidade em um bate-papo sobre a carreira científica

 18/04/2024 - Publicado há 1 mês     Atualizado: 19/04/2024 as 19:00
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David MacMillan, Serge Haroche e May-Britt Moser no palco do Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP, onde contaram suas histórias e tiraram dúvidas – Foto: Michel Sitnik/USP Imagens


A USP recebeu, na manhã da última quarta-feira, 17 de abril, três ganhadores do prêmio Nobel. Em um bate-papo que incluiu conselhos, curiosidades e muitos pedidos de
selfies, Serge Haroche (Nobel de Física em 2012), May-Britt Moser (Nobel de Medicina em 2014) e David MacMillan (Nobel de Química em 2021) apresentaram suas histórias pessoais como cientistas e compartilharam suas visões a respeito do cenário do desenvolvimento científico. O evento Diálogo Nobel Brasil 2024 teve como tema “Criando nosso futuro juntos com a ciência” e foi realizado no Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP, que contou com um auditório lotado por cerca de mil pessoas, dentre elas muitos estudantes, que tiveram a oportunidade de interagir com os convidados e direcionar suas perguntas. 

Na abertura, o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, destacou a importância de aproximar os estudantes da Universidade dessas personalidades da ciência: “A contribuição inovadora dos convidados de hoje está no discurso científico global. Além de uma enorme inspiração, certamente essa reunião será um catalisador para que os nossos alunos e o nosso corpo docente aprofundem seus esforços de pesquisa”.

Já a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, chamou a atenção para a importância de uma universidade como a USP receber este tipo de encontro: “Este evento faz parte das comemorações do 90º aniversário da USP e estamos muito felizes em fazer parte do seleto grupo das 100 melhores universidades do planeta. A próxima geração está aqui nos assistindo, representada por alunos e por jovens pesquisadores. Eu gostaria de lembrar que, em 2015, 193 países aprovaram uma agenda global com objetivos que deverão ser atingidos até o ano de 2030, dentre eles proteger o planeta e liberar a população da pobreza, buscando o desenvolvimento sustentável em uma jornada coletiva ancorada na ciência. Faltam apenas sete anos para o prazo desse compromisso e ainda estamos muito distantes dos resultados acordados. Então, eu peço a todos vocês aqui para abraçarem a ciência e a educação, para que possamos mudar o planeta”.

Questionado sobre como definiria o conceito de impacto científico, David MacMillan explicou que há diversas maneiras de se criar esse impacto: “A pesquisa básica é o primeiro momento. Algo que você investiga pode se tornar algo incrível e fundamental daqui a 20 anos, e em química temos muitos exemplos disso. Mas tem um outro impacto que eu costumo comentar que é a possibilidade de você inventar uma reação na segunda-feira e, na sexta-feira, as pessoas já estarem usando isso na indústria farmacêutica. De repente, aquela bolha em que você vive acaba atingindo o restante do mundo. Isso tem um impacto na sociedade como um todo”.

Alunos da USP conversam com David MacMillan – Foto: Michel Sitnik/USP Imagens


MacMillan comentou também como este equilíbrio entre os tipos de pesquisa pode ser desafiador para os novos cientistas: “É importante ter agências financiadoras e, às vezes, os revisores dessas agências podem ser difíceis, porque eles estão buscando coisas que fazem sentido com base no que já sabemos. Mas os jovens podem querer ir em uma direção muito diferente. E, infelizmente, é difícil obter financiamento para isso. Então temos um problema, que é acabar fazendo as coisas que fazem sentido em vez das coisas que são mais incomuns ou que têm mais risco. Esse é o grande equilíbrio para os jovens. É tentar navegar para ter os recursos e fazer o que tem de ser feito, mas sem abandonar esse componente de alto risco”.

Cerca de mil pessoas, entre alunos e pesquisadores da USP e de outras instituições, lotaram a plateia do Centro de Difusão Internacional da USP – Foto: Michel Sitnik/USP Imagens


Serge Haroche também abordou a questão dos custos e do financiamento de pesquisas e como isso afeta a liberdade do trabalho: “Além de a pesquisa custar cada vez mais e depender muito de recursos, hoje vemos uma tendência nos programas de pesquisa para direcionar as investigações de cima para baixo, o que cria uma série de limitações. Essa não é a forma como a pesquisa deve acontecer, pois você começa a pesquisar por causa da curiosidade e as aplicações acabam surgindo de uma situação inesperada. Os legisladores deveriam prestar mais atenção nisso e compreender que devem apoiar a pesquisa criando condições para que seja feita de baixo para cima”.

Serge Haroche com estudantes da USP – Foto: Michel Sitnik/USP Imagens


Haroche contou que esteve na USP outras vezes e que tem muita familiaridade com o Brasil, já tendo inclusive realizado trabalhos com acadêmicos do país, entre eles, o atual pró-reitor de Pesquisa e Inovação da USP, Paulo Nussenzveig. Por fim, deixou alguns conselhos para os mais jovens: “O essencial é ter curiosidade, focar em um campo que realmente interesse, trabalhar bem com a interdisciplinaridade e saber lidar com os revezes, sempre com humor e apoio entre a equipe. Os fracassos são uma constante, mas a grande recompensa de um cientista é quando percebe que algo antes desconhecido foi descoberto e compartilhado com o mundo. Poder observar pela primeira vez fenômenos que estavam ocultos e sonhar com que isso seja útil um dia é a maior satisfação que podemos vivenciar”, afirmou. 

Para May-Britt Moser, que também ressaltou a importância de saber lidar com as pressões deste tipo de trabalho, o papel de um cientista de ponta vai muito além da pesquisa propriamente dita: “Para mim, significam muito os encargos que tenho não só como pesquisadora, mas como líder. Somos responsáveis pela ciência que realizamos, pelos animais que utilizamos e também pelas pessoas que estão trabalhando conosco. Ficamos tão imersos nos laboratórios que é como se o nosso hobby fosse nosso trabalho. Por isso sinto a obrigação de que as pessoas estejam felizes no trabalho. Fazer ciência muitas vezes é difícil e temos que lidar com fracassos, desafios e busca por respostas. Mas, ao mesmo tempo, trabalhar muito e chegar a uma resposta é algo viciante, e é por isso que muitos cientistas falam tanto sobre paixão. Eu me tornei uma cientista porque era uma criança curiosa, e por isso hoje sou tão viciada. Mesmo com todas as dificuldades, encaro como uma benção poder fazer este tipo de coisa. Considero muita sorte”.

May-Britt Moser revelou diversas curiosidades sobre sua carreira na ciência – Foto: Michel Sitnik/USP Imagens


May destacou ainda a importância da diversidade no ambiente de trabalho: “Em nosso laboratório, temos pessoas de 30 diferentes países. São pessoas de várias etnias e isso é muito bom, porque a diversidade enriquece. É importante ter gente de todas as cores, e não estamos falando só de gênero ou da cor de pele, mas também do lado de dentro, com as mais variadas atitudes, formações, visões e experiências. É isso que abre os horizontes para o nosso trabalho”, ponderou, frisando que “o importante é não aceitar rótulos. Simplesmente sejam cientistas e orgulhem-se disso”.

O encontro foi realizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em parceria com a Nobel Prize Outreach, um braço de comunicação da Fundação Nobel que promove eventos com os laureados para inspirar cientistas em todo o mundo.

Assista abaixo à íntegra do evento, com tradução simultânea para o português:

Quem são:

Serge Haroche é um físico francês, nascido em Casablanca, no Marrocos. Desde 2001 é professor de Física Quântica do Collège de France. Em 2012 foi laureado, juntamente com David Wineland, com o Prêmio Nobel da Física, “por métodos experimentais inovadores que permitem a medição e a manipulação de sistemas quânticos individuais”. Haroche é membro das Academias de Ciências da França e da Europa. É também membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, da Academia Americana de Artes e Ciências e das Academias de Ciências do Brasil, Colômbia, Rússia e Marrocos. É Doutor Honoris Causa do Weizmann Institute e das Universidades de Montreal, Patras, Strathclyde e Bar Ilan.

May-Britt Moser é psicóloga e neurocientista norueguesa, chefe do departamento do Centro de Computação Neural na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. Foi agraciada com o Prêmio Nobel de Medicina em 2014, dividido com o norueguês Edvard Moser e o britânico-americano John O’Keefe. Sua pesquisa busca compreender a base neuronal das funções cognitivas superiores e é focada em navegação espacial e memória, porque essas são funções cognitivas fundamentais que compartilhamos com todos os animais. Os artigos de Moser têm atraído interesse especial porque a representação espacial é uma das primeiras funções a serem caracterizadas em um nível mecanicista em redes neuronais, e habilidades de navegação comprometidas são um dos principais sintomas da doença de Alzheimer.

David MacMillan é um químico britânico, professor da Universidade de Princeton desde 2006. Em 2021 foi laureado com o Nobel de Química, juntamente com Benjamin List “pelo desenvolvimento da organocatálise assimétrica”. Catalisadores são substâncias que aceleram reações químicas sem se tornarem parte do produto final, importantes para a habilidade dos químicos em construir moléculas. Em 2000, os dois pesquisadores desenvolveram um novo tipo de catálise que se baseia em pequenas moléculas orgânicas e tem tornado a química mais amigável ao meio ambiente. É utilizada, por exemplo, em pesquisa farmacêutica.


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