Reinventar-se é o grande desafio dos corais da USP

Durante a pandemia de covid-19, os grupos que integram o Coral da USP e o corpo de corais da Escola de Comunicações e Artes (ECA), também da USP, usam diferentes tecnologias e recursos para manter suas atividades pedagógicas, ensaios e apresentações

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Membros do Coral da ECA gravaram apresentação de forma remota. Foto: Reprodução/Youtube.

Novos projetos, aplicativos, experimentação e, principalmente, reinvenção são as palavras que norteiam as atividades, pedagógicas e de extensão cultural dos corais da Universidade de São Paulo, neste momento de quarentena obrigatória por causa da pandemia de covid-19. O canto coral, em que os encontros são mais que necessários e nos quais as apresentações ganham grandes plateias, precisou se reinventar, buscando soluções das mais variadas, desde gravações individuais em casa, aulas pelos aplicativos Google Meet ou Zoom e ensaios programados por naipes de vozes até ferramentas tecnológicas como aplicativos de vídeo e de edição e sincronização de vozes. O resultado, uma programação intensa e até diária, mesmo nas condições de isolamento, das séries #coraluspemcasa e #ECAemCasa, que podem ser acessadas através do instagram, Youtube e Facebook.

O Coral da USP (Coralusp) é composto de 15 grupos corais, com cerca de 500 cantores – alunos e funcionários da USP, além da comunidade externa –, incluindo ainda uma equipe de regentes e professores de teoria musical e técnica vocal. Segundo seu diretor artístico e também regente Eduardo Fernandes, o Coralusp precisou se reinventar completamente. “No primeiro momento, pensamos em soluções para nossos dois públicos: o interno, os cantores, para acolhê-los e manter as atividades; e o externo, o público que assiste aos concertos, para manter o seu interesse pelos corais”, relata Fernandes. Assim surgiu o #coraluspemcasa.

Foram feitos vários testes em várias plataformas e, como ele diz, não há uma ferramenta de sincronicidade para que se possa ouvir todos cantando juntos, como nos moldes tradicionais de um ensaio. Buscaram-se então estratégias para vencer esses desafios. “Talvez a mais interessante foi a de enviar gravações para os cantores só dos naipes de vozes (baixo, tenor, contralto e soprano) correspondentes à voz daquele cantor”, ressalta, contando ainda que essas gravações são devolvidas para os regentes e depois editadas e sincronizadas. “Se de um lado perdemos por não ouvir o conjunto, de outro o resultado foi muito positivo. No coro você não ouve o cantor isoladamente, só no grupo, e agora você pode dar uma resposta muito mais precisa para cada um. O que também aumentou o trabalho incrivelmente”, afirma.

Além disso, informa, alguns regentes estão dando aulas, via Google Meet ou Zoom, com cinco ou dez alunos, mas também de forma separada por naipes de vozes. “Ele passa o vocalise e depois pede para que cada um cante sozinho”, informa Fernandes, que atualmente está dando aulas sobre a história da MPB. “Mas sem esquecer que há um momento coletivo, muito importante para o nosso trabalho coral. No início, conversamos um pouco sobre o momento atual e só depois acontece a aula propriamente dita”, comenta Fernandes, que ainda deixa alguns links do Youtube que podem ser acompanhados em tempo real durante as aulas (veja nesta página). Ele também diz que o Coralusp tem feito alguns testes de improvisação com grupos corais menores, com bons resultados. “Estamos aprendendo a cada dia, sempre há uma novidade. Às vezes é um pouco estressante, mas ao mesmo tempo é muito rico”, garante.

Para o público externo, o que se tem feito com frequência são os vídeos-mosaico, inspirados no trabalho do compositor norte-americano Eric Whitacre, que se popularizaram nesta pandemia. “Já lançamos quatro vídeos nesse formato”, diz Fernandes. Um deles traz um trecho de O Menino Azul, de Aécio Flávio, com o grupo Azul do Coralusp, regido pelo maestro André Juarez. Tem também o concerto virtual com o grupo Dona Yayá do Coralusp, sob regência de Mauro Aulicino, que interpreta Erê, composição de Indy Naíse, baseada no Ijexá, uma referência do candomblé e da música afro-brasileira, que retrata a realidade vivida por jovens negros que se pintam de prateado, como se fossem estátuas vivas, para que possam ser enxergados e sobreviver, resistindo ao preconceito e à violência policial.

Também foi criada uma programação especial e diária no Facebook. Às segundas, a Quarentécnica traz aulas de técnica vocal de 30 minutos e também no formato de mini-aulas, com cerca de 5 minutos. Notas Musicais, às terças, inclui posts sobre obras de canto coral, incluindo uma gravação. Nas quartas-feiras, dois programas se alternam a cada 15 dias: MPB Histórias e Arranjos, que contextualiza uma canção da música popular brasileira, incluindo uma gravação original e um arranjo coral; e Grupos Vocais em Pauta, que fala sobre grupos vocais antigos. Na quinta, há dois programas: #TBT Coralusp, com recuperação de momentos marcantes do coral, e Da Me Ni Po Tu La Be, na verdade um exercício de técnica vocal de articulação, uma aula curta que mistura técnica vocal e percepção musical. Fechando a semana, Sextando em Casa traz um vídeo da equipe artística do Coralusp cantando e/ou tocando em casa.

#ECAemCasa

Coro de Câmara Comunicantus, sob a regência do professor Marco Antonio da Silva Ramos. Foto: Susana Sato

Mesmo a distância, os corais do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP também continuam suas atividades, sob a orientação dos professores responsáveis Susana Cecilia Igayara Souza, Marco Antonio da Silva Ramos e Paulo Fred Teixeira. “Estamos discutindo muito o que é fazer ensaio nesta situação de pandemia e o que vai ser incorporado depois. No momento, estamos com foco em soluções”, ressalta Susana. “Fomos descobrindo como fazer ensaios corais por plataformas de videoconferência. Dá para projetar partituras, transmitir áudios e vídeos e conduzir exercícios vocais que os coralistas fazem de suas casas, com os áudios desligados”, enumera a professora.

A ECA possui vários coros com pesquisas diferenciadas. O coro de câmara Comunicantus, regido por Marco Antonio da Silva Ramos, que tinha uma forte agenda de performance, partiu para os ensaios usando a tecnologia para a gravação de vídeos, também inspirados no Virtual Choir, de Eric Whitacre – um deles já está no Youtube com a obra Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Segundo Ramos, a primeira dificuldade não foi tecnológica. “Excelentes coralistas do Coro de Câmara Comunicantus se depararam com cantar sozinhos obras com grande empenho vocal, com grande trânsito entre os diferentes registros que faziam parte do nosso repertório. Não funcionou. Separamos as dificuldades das impossibilidades, criamos novas formas de ensinar, ensaiar e acalmar os coralistas para enfrentarem os desafios técnicos musicais e tecnológicos. Fomos descobrindo e criando novas possibilidades, trazendo abordagens da música eletroacústica para o nosso cotidiano, desenvolvendo outras formas de compor e fazer arranjos (ou mesmo de selecionar obras possíveis de realizar), e com isso acredito que está havendo a criação paulatina de uma estética nova, nascida dessas barreiras”, afirma Ramos.

Outras dificuldades, diz Ramos, estão nos programas de conferência a distância, que oferecem dois tipos de barreiras: não permitem que duas pessoas se manifestem simultaneamente – “portanto não podemos cantar ao mesmo tempo, timbrar, equalizar, mudar a performance através da regência etc” – e todos criam uma defasagem (delay) entre as vozes, por causa das necessidades da tecnologia wireless, impedindo respostas rítmicas simultâneas. “Então fomos pensando, trabalhando com os estudantes, ouvindo suas sugestões e as dos colegas, testando um sem número de plataformas de chats e conferência”, lembra Ramos. Como comenta Susana, eles já conseguiram bons resultados: “Fizemos ensaios de naipe, em ‘salas’ diferentes. O envolvimento dos coralistas trouxe muito entusiasmo. Os coralistas não querem parar de cantar, querem aprender novas músicas, e ainda se sentem como um grupo”.

Para o professor Paulo Fred Teixeira, que é regente do Coral da ECA – com 80 participantes, entre alunos do primeiro e segundo anos –, é preciso tomar cuidado para não fazer ensaios muito longos. “O universo digital cansa e exige uma atenção muito maior que o presencial. Para as gravações, existe um processo de elaboração das guias que servem como referência para os cantores. O regente e sua equipe preparam vídeos ou áudios direcionados para cada naipe, para que possam praticar e, quando estiver bem estudado, possam gravar sozinhos ouvindo a base”, explica Teixeira, acrescentando que em certas obras é necessário um vídeo com o gestual do regente para garantir a unidade e fluidez musical.

Também responsável pelas edições dos vídeos, Teixeira conta que primeiro o áudio é finalizado em um software, depois sincronizados os naipes, equalizando as disparidades sonoras promovidas pelas diferentes captações e, finalmente, equalizado o som geral. “Sincronizamos as imagens e trabalhamos com a criatividade. Estamos aprendendo a lidar com os softwares de edição de vídeo que não costumávamos utilizar com tanta frequência”, afirma Teixeira. “Publicamos o Canto de Ossanha com o Coral da ECA. É um arranjo que foi trabalhado presencialmente nos poucos ensaios que tivemos e decidimos fazer uma versão em vídeo. Incluímos uma instrumentação com violão, cavaquinho e pandeiro, e o resultado ficou bastante divertido”, garante.

Como informa Susana, há ainda coros comunitários, que estão fazendo testes com sessões de ensaios com naipes de vozes, com previsão de lançamento de um concerto virtual para o segundo semestre, além do coro de Terceira Idade, que no momento está trabalhando com um projeto de memória. Para a professora, cada música se tornou um projeto, e além disso há gravações de aquecimento e exercícios harmônicos. “Em nosso site e no nosso canal do Youtube temos materiais diferenciados. Tanto vocalises avançados para o Coro de Câmara Comunicantus como exercícios pensados para o Coral da Terceira Idade da USP e o Coral Escola Comunicantus. Porque trabalhar a respiração e o bem-estar vocal é fundamental neste período, para todo mundo”, sugere.

Outro grande desafio é o repertório. “Temos tanto arranjos de MPB como projetos de composição, obras inéditas. E estamos editando e lançando vídeos das gravações feitas ao vivo em 2019”, conta Susana. Entre as obras já pensadas neste novo formato, Ramos destaca Sonho Final, do estudante do curso de composição do Departamento de Música da ECA Vinícius Ponte, que propôs novas formas de ensaio, de gravação e de edição e fez uso composicional de recursos que seriam quase impossível conseguir num ensaio normal, ao vivo. Ramos ainda lembra que estão em preparação uma outra obra inédita, um arranjo encomendado pelo coro e adaptações do repertório em versões criativas de áudio e vídeo.

E o que é cantar durante a pandemia? “Mesmo diante de tantas tragédias que já atingiram a humanidade, ouvir um grupo cantar sempre trouxe conforto, e as pessoas superam as maiores dificuldades para continuar cantando e emocionando o público. O importante é continuar cantando”, responde Susana. Segundo Ramos, o ambiente coral não voltará igual para o pós-pandemia: “A escuta vocal de cada cantor, cada compositor e cada regente, a relação com o público, a mistura de tecnologia com as vísceras de cada um, a espera por um resultado não imediato, tudo está sendo aprendizado. E o que um dia a gente cria, a gente continua usando”.

A programação #coraluspemcasa pode ser acessada através do Facebook, Youtube, instagram e do site. E o programa virtual #ECAemCasa pode ser acompanhado pelo Facebook, Youtube ou pelo site

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