Flexibilização da quarentena em SP pode elevar o número de mortes em até três vezes

Estimativa foi feita por pesquisadores da Rede de Pesquisa Solidária a partir de indicadores de Goiás, Estado que flexibilizou o distanciamento social de modo prematuro

Movimento na Ladeira Porto Geral, região tradicional de comércio popular no centro da capital paulista. Se for mantida a flexibilização no Estado de São Paulo, o número de óbitos por covid-19 chegaria a 24.986 até o dia 8 de julho – Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas
A flexibilização da quarentena no Estado de São Paulo pode elevar em até três vezes o número de óbitos nos próximos 30 dias. A estimativa foi feita pela Rede de Pesquisa Solidária a partir de indicadores construídos do Estado de Goiás, que flexibilizou prematuramente o distanciamento social, elevando o número de mortes na região em 274%. Se Goiás tivesse mantido as medidas de distanciamento social nos níveis pré-abrandamento, deflagradas em 19 de abril, o número de vidas perdidas teria sido 63,5% menor, relata o estudo. Usando como referência o ocorrido em Goiás, os pesquisadores da rede construíram dois cenários possíveis para o Estado de São Paulo. O mais grave, que considerou a retomada das atividades no início de junho, é a estimativa de que as mortes causadas pela covid-19 chegariam a 24.986, até o dia 8 de julho.

O boletim número 11 da Rede de Pesquisa Solidária apresentou os resultados das medidas de contenção física em Goiás, um dos Estados pioneiros na adoção de medidas mais rígidas e bem-sucedidas de distanciamento social e que, em meados de abril, adotou prematuramente a flexibilização, elevando o número de óbitos em 274%. A partir desses dados, fez um comparativo entre os números de Goiás e São Paulo para estabelecer as projeções. Foram utilizados o número de certidões de óbito emitidas com causa declarada de morte por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e o número oficial de óbitos diários por covid-19, relatado pelas secretarias estaduais de Saúde de Goiás e de São Paulo.

Os dois cenários construídos para São Paulo foram:

Cenário 01 – Mantidas as medidas de distanciamento social em níveis que estavam em maio de 2020, por mais 30 dias.

Nesse contexto, o montante de óbitos provocados pela covid-19 aumentaria em 5.514 mortes, o que implicaria um total acumulado de 14.632 mortos, até o dia 8 de julho. Os óbitos causados por SRAG aumentariam em 8.956, sendo um total acumulado de 19.141 na contagem, até o dia 8 de julho.

Cenário 02 – Considerando a flexibilização  das medidas de isolamento social autorizada no início de junho de 2020.

A projeção nesse cenário é que o volume de mortes causadas pela covid-19 chegaria a 24.986 óbitos, até o dia 8 de julho. Já as mortes por SRAG chegariam a 23.334 ocorrências, até o dia 8 de julho.

 

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Ouça entrevista com as pesquisadoras Lorena Barberia e Maria Letícia Clara, ao Jornal da USP no ar

A Rede de Pesquisa Solidária é uma iniciativa de pesquisadores para calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que procuram atuar em meio à crise da covid-19 para salvar vidas. O alvo é melhorar o debate e o trabalho de gestores públicos, autoridades, congressistas, imprensa, comunidade acadêmica e empresários, todos preocupados com as ações concretas que têm impacto na vida da população. Trabalhando na intersecção das Humanidades com as áreas de Exatas e Biológicas, trata-se de uma rede multidisciplinar e multi-institucional que está em contato com centros de excelência no exterior, como as Universidades de Oxford e Chicago.

A coordenação científica está com a professora Lorena Barberia (Ciência Política USP). No comitê de coordenação estão: Glauco Arbix (Sociologia-USP e Observatório da Inovação), João Paulo Veiga (Ciência Política USP), Graziela Castello, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Fábio Senne (Nic.br) e José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP (INCT-InCor). O comitê de coordenação representa quatro instituições de apoio: o Cebrap, o Observatório da Inovação, o Nic.br e o InCor.

A divulgação dos resultados das atividades será feita semanalmente através de um boletim, elaborado por Glauco Arbix, João Paulo Veiga e Lorena Barberia. São mais de 40 pesquisadores e várias instituições de apoio que sustentam as pesquisas voltadas para acompanhar, comparar e analisar as políticas públicas que o governo federal e os Estados tomam diante da crise. “Distanciamento social, mercado de trabalho, rede de proteção social e percepção de comunidades carentes são alguns dos alvos de nossa pesquisa. Somos cientistas políticos, sociólogos, médicos, psicólogos e antropólogos, alunos e professores, inteiramente preocupados com o curso da crise provocada pelo coronavírus no mundo e em nosso país”, define Arbix.

As notas anteriores estão disponíveis neste link.

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