Morre Teixeira Coelho, um pensador da cultura “extremamente original”

Com 44 livros publicados ao longo de mais de 50 anos, o professor da USP teve atuação essencial para a concepção de políticas públicas culturais no País

 04/06/2022 - Publicado há 3 meses  Atualizado: 06/06/2022 as 13:52
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José Teixeira Coelho Netto – Foto: Matheus Araújo/IEA

“Um pensador da cultura extremamente original.” Assim era o professor da USP e crítico de arte José Teixeira Coelho Netto – que morreu na madrugada deste sábado, dia 4, aos 78 anos, vítima de câncer na medula -, na opinião do professor Martin Grossmann, docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e ex-aluno de Teixeira Coelho.

Para Grossmann, a originalidade de Teixeira Coelho está presente nas suas ideias sobre cultura contemporânea, expostas nos 44 livros que publicou ao longo de mais de 50 anos de atividade acadêmica. Entre essas obras está O Que é Ação Cultural, lançado em 1989 pela Editora Brasiliense. Nesse livro, que Grossmann considera “fundamental”, Teixeira Coelho aborda questões que então começavam a ser discutidas na Europa, relacionadas com a figura do usuário da cultura não como mero consumidor, mas como produtor. “Ele mostrou que, na arte pós-moderna, a audiência não é passiva, e sim atuante, partícipe do fazer cultural, o que exige dela inteligência e crítica”, afirma Grossmann. “Não havia reflexão no Brasil sobre isso.”

O trabalho de Teixeira Coelho foi essencial para a concepção de políticas públicas na área da cultura no Brasil, continua Grossmann. Nos anos 80, como fundador e coordenador do Observatório de Políticas Culturais da ECA – o primeiro núcleo desse tipo no País -, ele e sua equipe elaboraram o Dicionário Crítico de Políticas Culturais, publicado em 1997 pela Editora Iluminuras e depois lançado no México e na Espanha. “Essa obra estabeleceu o vocabulário necessário para verbalizar a ação cultural”, explica Grossmann. “O Observatório serviu também para formar gerações de agentes culturais.”

Grossmann destaca ainda a atuação de Teixeira Coelho como gestor cultural. Entre 1998 e 2002, ele dirigiu o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP com “planos audaciosos” – como expor obras do acervo do museu na Avenida Paulista, para torná-lo conhecido do público – e, como curador-coordenador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), de 2006 a 2014, foi responsável pela recuperação daquela instituição ao mudar o padrão da gestão, segundo o professor. “Ele era um intelectual independente, um polímata. Não dá para classificá-lo apenas como historiador ou filósofo da arte.”

A vice-reitora da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, concorda com Grossmann em que Teixeira Coelho foi um dos mais importantes pensadores da cultura do Brasil. “Ele foi pioneiro, primeiro, nos estudos sobre os meios de comunicação e, depois, nas áreas da crítica de arte e da curadoria”, destaca Maria Arminda. Ela lembra também a contribuição de Teixeira Coelho para os institutos culturais no País, como o Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, onde deu conferências, organizou eventos e editou publicações. “Ele fez uma reflexão filosófica muito significativa sobre as possibilidades artísticas dos novos meios de informação, as relações entre arte e tecnologia e todo o andamento da cultura na pós-modernidade.”

Nascido na capital paulista em 1944, Teixeira Coelho era professor da Escola de Comunicações e Artes da USP – onde recebeu o título de Professor Emérito em 2015 – desde 1973. Curador de exposições no Brasil e no exterior – como a Bienal de Curitiba (PR) de 2015 -, ele se dedicou também à ficção: é autor de História Natural da Ditadura (Iluminuras, 2006), que ganhou o Prêmio Portugal Telecom 2007. No início de abril deste ano, assumiu o cargo de coordenador do tema Cultura e Artes, no Programa Eixos Temáticos da USP.


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