Exposição “Vídeo_MAC” conta a história da videoarte no Brasil

Mostra revela o Museu de Arte Contemporânea da USP nos anos 1970 como espaço de intensa troca entre artistas

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“A exposição Vídeo_MAC lança luz sobre como o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP era, nos anos 1970, um espaço de autonomia e de intensa troca entre os artistas, num momento de recrudescimento de investidas contra a arte”, observa a professora Ana Magalhães, diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. “Isso só foi possível, a meu ver, pelo fato de ser um museu universitário, em que a prerrogativa de se manter a Universidade como espaço de reflexão crítica era imperativa.”

A mostra tem a curadoria de Roberto Moreira Cruz e pode ser acessada gratuitamente no site do MAC www.mac.usp.br). Reúne uma série de vídeos de artistas que atuaram na instituição entre 1977 e 1978, em um projeto pioneiro de arte no País. “Eles foram desenvolvidos em um setor que funcionou como uma espécie de laboratório, onde os artistas puderam experimentar e criar proposições a partir desse novo meio”, explica a diretora. “A exposição é resultado do projeto de pós-doutorado de Roberto Cruz, sob supervisão da professora Cristina Freire, realizado entre 2017 e 2019 no âmbito do Programa de Pós-Graduacão Interunidades em Estética e História da Arte da USP. Portanto, faz parte do projeto maior de pesquisa que Cristina Freire empreendeu ao longo de sua carreira no MAC e do seu trabalho de resgate das ações de Walter Zanini como primeiro diretor do museu.”

O MAC foi uma instituição pioneira no País em formular um projeto de fomento e divulgação de obras audiovisuais experimentais na segunda metade da década de 1970.” 

Video_MAC reúne o trabalho de jovens artistas que, nos anos 1970, já movimentavam a arte contemporânea com a sua criatividade e talento. Regina Silveira, Julio Plaza, José Roberto Aguilar, Carmela Gross, Gabriel Borba, Roberto Sandoval, Gastão de Magalhães e Donato Ferrari, entre outros, estão presentes. O curador Roberto Cruz exibe também a série Videopost, organizada por Jonier Marin. Essas obras ficaram desaparecidas por mais de 35 anos e são inéditas para o grande público. São também pouco conhecidas pelos pesquisadores.

“O MAC foi uma instituição pioneira no País em formular um projeto de fomento e divulgação de obras audiovisuais experimentais na segunda metade da década de 1970”, conta o curador. “O então diretor, Walter Zanini, colocou em prática em 1977 o Setor de Vídeo, que funcionava como um laboratório de criação e difusão da videoarte.”

Roberto Cruz explica que foi adquirido, para o desenvolvimento do trabalho, o equipamento no formato portapak, modelo AV3400, da Sony, de 1⁄2 polegada, em preto-e-branco. “Essa iniciativa inaugurou as atividades desse setor, que contou com a coordenação de Cacilda Teixeira da Costa, Marília Saboya e Fátima Berch, com o apoio técnico de Hironie Ciafreis.” Afirma que no curto período de cerca de um ano foi criado um conjunto de obras audiovisuais consideradas pioneiras no contexto da arte contemporânea brasileira. “Como parte dessas ações foram também realizadas mostras informativas no Espaço B, sala dedicada à programação periódica de videoarte.”

Com a criação do Setor de Vídeo e do Espaço B, Walter Zanini buscou estimular a contribuição e colaboração dos artistas. “Zanini pensou o MAC como um laboratório de experimentações artísticas e, para tanto, lançou mão de suas estratégias de pesquisador”, comenta Ana Magalhães.

Os vídeos foram digitalizados com a contribuição do artista multimídia Antoni Muntadas, que fez a remasterização num laboratório na Espanha.”

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O curador explica que dez fitas de vídeo remanescentes foram encontradas em 2013, no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, por Regina Silveira e Cristina Freire, após insistentes buscas, pois não estavam indexadas corretamente no acervo daquele museu. “Esse material foi digitalizado com a contribuição do artista multimídia Antoni Muntadas, que fez a remasterização num laboratório na Espanha. O aparelho portapak original, que pertencia ao Setor de Vídeo, se encontra atualmente no MIS, mas está inoperante.”

Num ambiente integrado de exibição simultânea, o espectador confere uma seleção de 18 trabalhos produzidos naquela época, “momento em que de forma embrionária e intuitiva se esboçavam os primeiros traços da videoarte no Brasil”, como diz o curador.

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O espectador vai se surpreender ao ver a técnica, arte e ousadia das obras. O vídeo de Carmela Gross, sem título, tem três minutos e três segundos de duração. A artista traça linhas com um pincel atômico e, em um gesto contínuo, desenha uma grade visual sobre a tela da televisão até cobrir toda a imagem.

Num trabalho de 1977, José Roberto Aguilar apresenta O Circo, com quatro minutos e 55 segundos. Registra a conversa de um palhaço e um produtor sobre a realização de uma peça teatral. Simboliza as relações de trabalho entre patrão e empregado.

Regina Silveira apresenta Videologia, de 1978, sem som e sem cortes. Uma mão vai desenhando uma imagem que revela um revólver.

Júlio Plaza cria a Câmara Obscura, de 1977. Filma o ambiente interno do Espaço B em um plano que permanece estático por quatro minutos.

Já os três vídeos de Gabriel Borba intrigam o visitante. Em O Gato Acorrentado a Um Só Traçado, de 1977, de um minutos e 43 segundos, o artista desenha formas que sugerem as de um gato, reconhecido especialmente pelo miado.

Os trabalhos reunidos por Roberto Cruz em Vídeo_MAC  trazem um tempo marcado pela irreverência que impulsionou a videoarte no Brasil. Vale conferir.

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