As vozes da floresta amazônica vibram na arte de Hugo Fortes

O cineasta, artista e professor da ECA-USP leva os sons das noites e manhãs no meio das matas e rios para o mundo afora

 

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Obra de Hugo Fortes foi exposta neste mês na Espanha: “Essa exibição ganhou uma dimensão que ainda não havia sido experimentada, através de uma tripla projeção em uma tela circular imersiva, possibilitando que as imagens fossem multiplicadas”, explica o artista – Foto: Divulgação

 

É a sensação de estar imerso na floresta amazônica, ouvindo as vozes dos pássaros e animais, árvores, matas e rios que Hugo Fortes, artista, cineasta e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP apresenta no vídeo Amazonia Insomnia. As paisagens são, como define Fortes, “um fluir de sons, cheiros, imagens e calores que parecem se entranhar em nosso corpo”.

Embora pouco exibido no Brasil, o filme já foi destacado em exposições e seminários no Canadá, Índia, Itália e Portugal. E de 15 a 18 deste mês integrou a mostra Panoramas Exp, na Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, que teve a participação especial de Regina Silveira, artista e professora da ECA. “Esta exibição ganhou uma  dimensão que ainda não havia sido experimentada, através de uma tripla projeção em uma tela circular imersiva, possibilitando que as imagens fossem multiplicadas ainda mais, criando novos espelhamentos ao longo de todo o espaço circular imersivo”, descreve o artista. “Também a trilha sonora do vídeo, realizada com a manipulação digital de sons de animais da Amazônia captados in loco, ganhou uma nova reverberação através de dez caixas instaladas ao redor da tela, proporcionando uma experiência espacial de percepção sonora.”

Para criar os 4 minutos e 24 segundos do filme Amazonia Insomnia, o professor ficou dez dias sob o amanhecer e anoitecer da vida na floresta. Ele e outros 15 artistas de diversos países participaram de um projeto organizado pelo Programa de Imersão Artística na Amazônia Labverde. Atravessaram por três dias os rios Negro e Amazonas até chegar à Reserva Florestal Adolpho Duke, fundada há 58 anos em homenagem ao botânico e etnólogo austríaco, considerado um dos pioneiros em flora amazônica. “Durante a residência lá pude realizar uma primeira versão do vídeo. Naquele momento, ainda sem som e em uma projeção única, ela foi apresentada em uma videoinstalação na própria reserva.”

Assista no link abaixo ao vídeo Amazonia Insomnia, de Hugo Fortes.

Essa imersão foi em 2018. Mas o contato com as paisagens continua sendo revelada no cotidiano da arte de Hugo Fortes. “Foi inesquecível adentrar com nossas canoas em um igarapé, onde ouvíamos o movimento de macacos bugios em um coro mágico e ensurdecedor. Não conseguíamos vê-los. Ficavam escondidos nas árvores, apenas sentíamos sua presença como legítimos espíritos habitantes da floresta. É essa sensação de maravilhamento e de reconhecimento de nossa pequenez diante da multiplicidade de espécies e de vidas da floresta que procuro transmitir em meu trabalho.”

“Um dos desafios que enfrento atualmente como artista é poder exibir esse conjunto de trabalhos de forma adequada no Brasil, porque acredito que é aqui que ele deve ser visto, para que possa contribuir para a formação da consciência sobre a necessidade de preservação da floresta.”

 

O artista e professor da USP Hugo Fortes: para criar o vídeo Amazonia Insomnia, ele ficou dez dias registrando os sons da floresta – Foto: Divulgação

Além do vídeo, Fortes busca refletir a força da floresta em pinturas, fotografias, obras gráficas digitais e instalações. “Um dos desafios que enfrento atualmente como artista é poder exibir esse conjunto de trabalhos de forma adequada no Brasil, porque acredito que é aqui que ele deve ser visto, para que possa contribuir para a formação da consciência sobre a necessidade de preservação da floresta”, pontua. “Infelizmente, o Brasil tem passado por um total desmonte não só na área ambiental, mas também na área cultural, o que dificulta a exibição desse tipo de trabalho, que requer um engajamento e estrutura institucional para ser exibido adequadamente. Tenho encontrado mais possibilidades de apresentação fora do País do que aqui mesmo. Entretanto, tenho procurado ocupar os espaços que surgem para a sua exibição, ainda que de forma fragmentária ou para públicos específicos.”

A preservação das florestas também está presente nas atividades de Hugo Fortes como professor. Na ECA desde 2008, ele leciona na graduação para alunos de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Design e, na pós-graduação, em Artes Visuais. “Discuto os temas ambientais com os meus alunos de graduação e de pós. E também junto ao grupo de pesquisa Imaginatur: Imagens da Natureza”, destaca.

O Imaginatur é coordenado por Fortes e por Marcos Martins, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É integrado por artistas professores, pesquisadores e estudantes de diversas universidades brasileiras voltados para o estudo das relações entre arte e natureza, um conhecimento importante para garantir a preservação do ambiente.

“Lamentavelmente o lucro tem falado mais alto, sem perceber que quem pagará a conta da destruição da natureza seremos nós mesmos. Por esse motivo, creio que se torna cada vez mais necessário produzir e mostrar trabalhos artísticos que tratem dessa questão.

As paisagens da floresta amazônica estão nas pinturas, fotografias e instalações de Hugo Fortes – Foto: Divulgação

“ Vejo com muito pesar toda a situação que vem se desenrolando no Brasil nos últimos anos, particularmente neste governo atual, que se posiciona propositadamente contra as questões ambientais, culturais, científicas, sociais e educacionais”, observa o professor e artista. “Infelizmente não vejo grandes possibilidades de mudança a curto prazo, já que nossos governantes estão mais interessados na implantação da violência e das atitudes ditatoriais através de uma agenda de desmonte social e ambiental.”

Na avaliação de Hugo Fortes, é mais do que clara a necessidade de mudança na área ambiental e o reconhecimento da importância da preservação da floresta para se evitar o desequilíbrio climático e o extermínio de espécies e das populações indígenas e ribeirinhas. “Lamentavelmente o lucro tem falado mais alto, sem perceber que quem pagará a conta da destruição da natureza seremos nós mesmos. Por esse motivo, creio que se torna cada vez mais necessário produzir e mostrar trabalhos artísticos que tratem dessa questão. A arte pode conscientizar através da sensibilização e do envolvimento afetivo, e não só a partir de dados racionais,  frios e distantes.”

 

 


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