O desaparecimento de um idioma é o começo do fim de um povo

Para o professor Eduardo Navarro, a língua é a essência de um grupo e preservá-la é fundamental para manter a diversidade cultural

 08/06/2022 - Publicado há 8 meses
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A morte dos falantes e a falta de continuidade pelos mais novos são aspectos determinantes para o fim de uma língua – Fotomontagem sobre línguas nativas com imagem de Tiago Zenero/PNUD Brasil no Flickr – Arte: Ana Júlia Maciel
O idioma é parte fundamental de um povo. A preservação histórica de determinado grupo está diretamente relacionada à língua falada por ele. Diversos idiomas estão desaparecendo ou correm risco de extinção. Esse esvaziamento cultural é um sintoma decisivo e muito perigoso para o fim da história de uma comunidade. Conforme dados veiculados pelo Atlas das línguas em perigo da Unesco, a situação brasileira é alarmante. O Brasil possui 190 línguas em risco de extinção e, com isso, inúmeros grupos ameaçados.

O professor Eduardo de Almeida Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, analisa os motivos que levam ao desaparecimento de línguas: “O que provoca o desaparecimento de línguas nacionais, por exemplo, é o enfraquecimento do Estado ou o domínio de um outro povo sobre aquele Estado, como foi o caso da língua latina. O latim desaparece quando o Império Romano é invadido por outros povos e, a partir de um certo momento, se transforma completamente nas chamadas línguas neolatinas”.

Desaparecimento imposto

A imposição do idioma do colonizador é um aspecto determinante. A língua dominante é tradicionalmente escrita e possui uma força muito maior que as línguas de tradição oral. “A língua que se escreve se altera com muito menos rapidez do que a língua que não se escreve, que somente se fala. Então, essa língua está ameaçada quando ela é falada por poucas pessoas”, aponta o professor.

O professor Eduardo de Almeida Navarro – Foto: Jornal da USP

Um exemplo disso são as línguas indígenas da América do Sul, sobretudo no Brasil. De acordo com Navarro, centenas de línguas eram faladas às margens do rio Amazonas: “O Padre António Vieira chegou a dizer que aquele rio era o rio Babel e que a única coisa que se sabia sobre essas línguas é que elas eram incontáveis”.

O professor conta que são línguas faladas por comunidades pequenas e diante da força de uma língua escrita, que tem um Estado por trás garantindo o seu uso, a língua minoritária tende a sucumbir e desaparecer. “São línguas que estão em uma condição muito frágil, faladas por um número pequeno de pessoas, algumas são faladas por milhares, mas são poucas. Existem idiomas como o guató, do Pantanal mato-grossense, falado por menos de dez pessoas. Línguas que não se transmitem mais aos filhos, porque os meios de comunicação de massa não utilizam essas línguas, eles só utilizam o português”, atesta.

Ele ainda cita o contexto atual de mundo para dar outros exemplos e indica que a globalização econômica potencializa o domínio da língua inglesa. Para o professor, países de uma só língua que também falam o inglês, como os nórdicos europeus Suécia e Noruega, podem sucumbir a longo prazo. A força econômica representada pelos Estados Unidos e a gradual padronização e imposição de modelos culturais pode colaborar com esse risco.

A língua como preservação histórica e cultural

Navarro destaca a importância da língua para a vitalidade de um grupo: “A língua é a essência de um povo e, ao desaparecer essa língua, esse povo vai perder a sua identidade e vai se enfraquecer. A língua, muitas vezes na história humana, vai determinar a constituição de um território exclusivo do povo que a fala e também a formação de Estados nacionais. Cada povo tem uma língua, isso é um princípio que às vezes não se aplica, mas geralmente é muito importante”.

A morte dos falantes e a falta de continuidade pelos mais novos são aspectos determinantes para o fim de uma língua. A interação com idiomas hegemônicos e a exclusão sofrida em centros urbanos são decisivas. “Os jovens passam a não desejar mais falar a língua dos pais. Muitos deixam a reserva indígena e vão para as cidades para começar uma vida diferente, aí nós temos o começo do fim de uma língua. A língua passa a ser somente entendida pelos filhos e passa não ser mais falada pelos netos”, relata o professor.

Para conter esses danos culturais, são necessárias políticas de proteção. Um Estado que tenha como objetivo preservar a história de seu povo é fundamental. Navarro comenta: “Com o atual governo, nós tivemos uma perda de conteúdos muito grande no que tange ao uso de línguas minoritárias, houve um grande descaso com essa questão. Agora, é preciso ter em mente que é uma tarefa difícil, mas não impossível”.

O desaparecimento de línguas é prejudicial para toda sociedade. Cada língua que desaparece é uma visão de mundo que está desaparecendo e uma forma de perceber a realidade que está deixando de existir. A língua muitas vezes se apresenta como a alma de um povo.

“É fundamental que a humanidade preserve a sua diversidade cultural. A diversidade cultural é como a biodiversidade, quando a biodiversidade diminui, o meio ambiente está sofrendo, a natureza está se empobrecendo. A mesma coisa se aplica às sociedades humanas, quando a diversidade cultural diminui, a experiência humana está se empobrecendo”, enfatiza o professor.


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