Desabamento de prédio em São Paulo traz à tona a crise habitacional

A Prefeitura do Município de São Paulo já havia feito relatório sobre os riscos de incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida

Por - Editorias: Atualidades, Rádio USP

Edifício Wilton Paes de Almeida – Foto: Javam Alves/Fotos Públicas-CC  .

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Na madrugada do dia 1º de maio, o edifício Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, ocupado pelo Movimento Social de Luta por Moradia (MSLM) e que abrigava 140 famílias, foi consumido pelo fogo e desabou no Largo do Paiçandu. Tombado pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico -, o prédio era considerado patrimônio histórico de interesse arquitetônico e paisagístico e já havia sido classificado em situação de risco.

O professor Ruy Marcelo Pauletti, do Departamento de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP, esteve presente na região, após o desmoronamento, para fiscalizar dois prédios do entorno. Ele explica que a vistoria passou a ser mais rigorosa na década de 70, após as tragédias dos edifícios Joelma e Andraus, mas aos prédios antigos não se aplicam todas as normas dos prédios atuais.

O jornalismo da Rádio USP ouviu especialistas em diversas áreas, acompanhe as reportagens.

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Edifício Wilton Paes de Almeida – Foto: Javam Alves/Fotos Públicas-CC

Centro de São Paulo carece de política habitacional do governo

03/05/2018
O desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida trouxe à tona problemas conhecidos, apesar de silenciados, como é o déficit habitacional e o descaso com a moradia popular e o patrimônio público. Alex Abiko, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do Grupo de Ensino e Pesquisa Engenharia e Planejamento Urbano, espera que a tragédia traga lições e inspire ações que resolvam ou ao menos minimizem o problema da habitação na área central da cidade.

Abiko reconhece a importância de se prestar assistência às famílias atingidas, mas lembra a urgência de se pensar soluções para o problema da moradia. O professor reforça a necessidade de o poder público assumir como responsabilidade uma política habitacional para o centro de São Paulo. Ele lembra que, geralmente, as habitações sociais são construídas em regiões periféricas, onde os terrenos são mais baratos. Mas o problema, nesses casos, é apenas parcialmente resolvido. Sendo prédios mal localizados, impactam outras áreas, como o sistema de mobilidade urbana.

Uma das soluções apresentadas pelo professor é a recuperação de edifícios. Abiko aponta duas justificativas para o imobilismo do poder público nesse sentido: uma financeira e outra tecnológica. É caro reformar prédios inteiros e construções antigas costumam ter problemas que são encontrados já durante o processo de reconstrução. O professor conclui dizendo ser necessário aprender com os casos de sucesso e, por isso, apresenta exemplos de recuperação de construções no centro de São Paulo, como o Edifício Riachuelo e o Casarão do Carmo, transformados em habitação social.
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Edifício Wilton Paes de Almeida – Foto: Javam Alves/Fotos Públicas-CC

Prédio da década de 60, que desabou em São Paulo, era patrimônio histórico

03/05/2018

Edifício Wilton Paes de Almeida – Foto: Javam Alves/Fotos Públicas-CC

O edifício Wilton Paes de Almeida, consumido pelo fogo, foi projetado em 1961 pelo arquiteto Roger Zmekhol, e era considerado um marco da arquitetura modernista. Segundo o projeto original do edifício, sua estrutura teria pilares metálicos, de aço, e não de concreto armado como tem sido visto nas imagens divulgadas pela imprensa de seus escombros. Isto explicaria por que o prédio teria desabado tão rápido, em apenas uma hora e vinte minutos. Segundo o professor Paulo Helene, especialista em patologia das construções, da Escola Politécnica da USP, em situações similares o prédio não costuma colapsar, ou seja, cair por causa do incêndio. O professor lembra que na década de 70 dois grandes incêndios ocasionaram mudanças nas adequações dos edifícios para aumentar sua segurança. No entanto, as construções anteriores, das décadas de 60 para baixo não contam com regulamentações de segurança, mas o professor Helene acredita que a partir dessa nova tragédia isso vá mudar.
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Edifício Wilton Paes de Almeida – Foto: Sturm via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Vistoria é mais rígida em prédios recentes do que em antigos

03/05/2018
Projetado em 1960 e Tombado em 1992, o edifício Wilton Paes de Almeida, que desmoronou na madrugada desta terça-feira, era um patrimônio histórico de interesse arquitetônico e paisagístico. O prédio tinha 24 andares, era localizado na região do Largo do Paiçandu, ocupado pelo Movimento Social de Luta por Moradia (MSLM) e já havia sido classificado em situação de risco.

O professor Ruy Marcelo Pauletti, do Departamento de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP, esteve presente na região, após o desmoronamento, para fiscalizar dois prédios do entorno. Ele explica que a vistoria passou a ser mais rigorosa na década de 70, após as tragédias dos edifícios Joelma e Andraus, mas aos prédios antigos não se aplicam todas as normas dos prédios atuais.

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Professor da Poli comenta queda de edifício em São Paulo

02/05/2018
O incêndio, seguido de desabamento, do Edifício Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, no Largo do Paiçandu, no centro de São Paulo, ocorrido nesta terça-feira (1), continua repercutindo na imprensa e na opinião pública. Uma morte foi confirmada em decorrência da tragédia que atingiu o prédio, tombado pelo patrimônio histórico e local de uma ocupação irregular. Ao falar sobre o caso para a Rádio USP, o professor Valdir Pignatta e Silva, do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, disse que tudo indica – a partir das notícias e vídeos divulgados – que o edifício apresentava um  excesso de aspectos de risco, como fiação elétrica exposta, botijão a gás em local com probabilidade de incêndio e o que chama de quebra de compartimento vertical, que ocorre quando um  pavimento não está “serrado” em relação ao superior, o que contribui bastante com a propagação do incêndio, uma situação bastante semelhante ao que ocorreu no passado, quando dos incêndios dos edifícios Joelma e Andraus.

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Foto: Corpo de Bombeiros de São Paulo via Fotos Públicas

A tragédia dos prédios invadidos no centro de São Paulo

02/05/2018
A luta do Corpo de Bombeiros para salvar vidas soterradas no prédio que desabou no dia 1 de maio, na região central de São Paulo, deixa claro o descaso das autoridades públicas em relação aos imóveis abandonados. A professora Raquel Rolnik, da FAU-USP, conversou com a repórter Sandra Capomaccio sobre a falta de uma política pública de moradia entre os governos federal, estadual e municipal.

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Foto: Rovena Rosa/Agencia Brasil via Fotos Públicas

Desabamento de prédio revela crise habitacional em São Paulo

02/05/2018
Na madrugada de ontem (1º), um prédio de 24 andares incendiou-se e desabou no Largo do Paiçandu. O edifício era ocupado irregularmente por mais de 140 famílias. Apenas um homem é considerado desaparecido. Agora, a Defesa Civil vai vistoriar 70 prédios ocupados no centro de São Paulo. Outra decorrência do incêndio foi a reabertura, feita pelo Ministério Público, do inquérito que apurava o risco de desabamento do prédio, que anteriormente foi arquivado. Eduardo César Marques, professor do Departamento de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), falou sobre a questão da habitação em São Paulo.

Segundo o professor, esse evento traz dois temas à tona: a habitação da área central e a fiscalização de prédios em geral. Ele explica que existe uma crise habitacional com proporções grandes, um padrão de segregação muito elevado e uma quantidade razoável de prédios abandonados mantidos fechados que poderiam ser convertidos para habitação, cumprindo a função social da propriedade a que deveriam estar submetidos. Além disso, são muitas as edificações a serem vistoriadas em São Paulo, porém, a prefeitura não tem um monitoramento constante das
áreas que são objeto de maior preocupação.

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Desabamento de edifício em SP revela comportamentos “narcisistas”

03/05/2018 – Coluna de Guilherme Wisnik

Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Guilherme Wisnik avalia como “tragédia terrível” o incêndio seguido de desmoronamento do prédio no Largo do Paiçandu, centro da capital paulista, na madrugada de 1º de maio.

Mas, para além do “desastre”, Wisnik censura o comportamento de usuários do Facebook que usaram uma ferramenta na qual se definiram como “seguras” em relação ao fato.

“É um esquerdismo falso. As pessoas querem se fazer passar por moradores de rua”, afirma. “Eu fico realmente revoltado porque sinto que esse narcisismo perpassa as relações nas redes sociais.”

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A ocupação de prédios vazios e periferias das grandes cidades

03/05/2018 – Coluna de Raquel Rolnik

As pessoas são deslocadas de um lado para o outro por falta de moradias decentes para viver. Atualmente, são 30 mil famílias que recebem, em média, R$ 400,00 de ajuda para o aluguel. O valor é insuficiente para que  esses desabrigados paguem um espaço “legal” para viver. A crise habitacional, que contribuiu para o incêndio e a queda de um edifício no centro de São Paulo, é o tema da coluna desta semana da urbanista e professora Raquel Rolnik.

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Políticas equivocadas agravaram crise habitacional em São Paulo

17/05/2018 – Coluna de Raquel Rolnik

A explosão de ocupação em edifícios vazios não se limita apenas à área central da cidade, mas acontece também nas extremas periferias da cidade e nos limites das zonas rurais – nesse caso específico, de terrenos vazios. Segundo a professora Raquel Rolnik, essas ocupações têm a ver com o que chama de crise habitacional ou de emergência habitacional na cidade de São Paulo, o que, por sua vez, no caso dos terrenos, está ligada à explosão de preços que ocorreu nos anos de boom econômico na cidade (de 2003 em diante) e ao fato de os salários não terem acompanhado essa explosão. A situação só piorou com a atual crise econômica.

A colunista observa que sempre foi uma característica histórica de São Paulo e das demais cidades brasileiras apresentarem uma grande dificuldade para que grande parte da população conseguisse acessar moradias no mercado formal, o que as políticas voltadas para o setor, apresentadas pelos sucessivos governos, só fizeram piorar. Ela aponta como exemplo a política de remoções promovida pelos governos estadual e municipal na cidade de São Paulo, recentemente. De acordo com a professora Raquel, não há política propositiva ou preventiva que amplie o acesso à moradia para a população de menor renda. O resultado disso tudo é a explosão de um mercado informal muito precário no centro e nas periferias da metrópole.

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Incêndio revela virulência dos grupos de ódio contra os sem-tetos

07/05/2018 – Coluna de Giselle Beiguelman

O incêndio e o desabamento do edifício Wilson Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, no dia 1º de maio, teve ampla repercussão social e midiática nas redes. Em sua coluna da Rádio USP, Giselle Beiguelman, professora e artista da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, pontua: “Essa tragédia é o resultado da falta de políticas públicas que tratem a moradia como um direito”.

A repercussão social e midiática, segundo a professora, mobilizou as redes desde o início. “Desencadeou, imediatamente, articulações de grupos de apoio às vítimas, com rápidos sistemas de provimento de alimentos e campanhas de doações aos atingidos. Mas, tão rápida quanto a organização dessas manifestações, foi a apropriação do fato por grupos de ódio.”

Segundo Giselle, esses grupos, nos Estados Unidos e Europa, são racistas e antissemitas e vão contra o “padrão de nação e sociedade” que eles defendem. “Aqui, em SP, esses grupos se voltam contra a população mais vulnerável: sem-teto, refugiados, e seu foco expande-se para tudo aquilo que foge ao padrão idealizado do que seria a população genuína da cidade”, observa. “Em eventos, como a invasão da Cracolândia, em maio passado, e agora, no incêndio do prédio ocupado por cerca de 150 famílias, com apoio do Movimento Luta por Moradia Digna, isso fica muito claro. Nos comentários nas redes, são comuns as falas que expressam o desejo de ver outras minorias atingidas pelo mesmo infortúnio, o sadismo e a transformação da vítima em culpado, ocultando a corresponsabilidade do Estado e optando por criminalizar os movimentos sociais.”.

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