Novos rumos de “Revisão nas Falas”: homenagem a Coripheu de A. Marques

Mario Fanucchi é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP)

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Mário Fanucchi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

São Paulo, sete horas da manhã de um dia de dezembro de 1949.

– Bom-dia, senhores ouvintes. Aqui, quem fala é Coripheu de Azevedo Marques. Começa mais uma edição do Matutino Tupi.

Com sua voz nada “microfônica” pelos padrões de então, o próprio editor e diretor abria a transmissão do primeiro noticioso diário de longa duração da emissora. O segundo, transmitido às dez da noite, era o Grande Jornal Falado Tupi.

Ouvem-se os acordes do tema do filme O Maior Espetáculo da Terra. Depois de alguns segundos, o volume da marcha se reduz e um dos locutores lê a primeira manchete. Coube-me ler a segunda (e o fiz meio inseguro, como no meu primeiro dia de trabalho no rádio, lá na minha cidade natal). Mais dois locutores completam a apresentação das principais notícias e o jornal segue no padrão que Coripheu costumava exigir. Ritmo e ênfase adequada – como ele indicava, com gestos e, às vezes, com resmungos (que os microfones chegavam a registrar) – o mesmo acontecendo quando ele corrigia falhas dos locutores. Nos primeiros dias, cheguei a pensar que ele só reagia daquele jeito no Matutino, programa obrigatório para os novatos. Mas, ao checar as edições noturnas, constatei que não foram poucas as vezes em que ele não perdoou um ou outro lapso de um Homero Silva, Ribeiro Filho, Alfredo Nagib ou Arruda Neto — nomes consagrados do Grande Jornal Falado.

– Sete horas e vinte minutos. Não perca a sua condução!

Essa era outra intervenção marcante de Coripheu ao microfone (que ele alcançava esticando-se sobre o ombro de um dos locutores sentados em torno da mesa, no centro do estúdio. Ele também costumava pedir ênfase para um título, ou uma frase  destinada a causar efeito – desta vez com  gestos veementes, como um maestro pedindo mais alma…

– Pessoas desaparecidas, que estão sendo  procuradas!

Coripheu dava enorme importância a esse item de prestação de serviço.   Andava ao redor da mesa, distribuindo as laudas aos locutores, que  proclamavam os pedidos de ajuda para localizar pessoas que haviam migrado para São Paulo e perdido contato com suas famílias, ou delas desejavam receber notícias. Igualmente, permitia comunicação entre conterrâneos recém-chegados, que se organizavam para enfrentar dificuldades. Era um autêntico “correio sem selo”, que cumpriu, ano após ano, um papel de valor inestimável.

Quanto à linha editorial, esse  era um diretor de jornal falado que deixava bem claro seu propósito. Coripheu podia ser definido como um autêntico “municipalista”, ou alguém que coloca a Cidade em primeiro lugar em relação ao Estado e ao País. Costumava reclamar contra a maneira como o governo estadual trata os assuntos dos municípios e, por sua vez, se submete ao governo central, com prejuízo para todos.  Era nessa pregação, de natureza conceitual, que ele exercia a função de âncora, faltando-lhe tão somente a tal voz microfônica para se transformar no principal locutor. Se esse for o entendimento, não seria o nosso Coripheu o primeiro ou, pelo menos, um dos primeiros jornalistas a ancorar um trabalho em equipe nos meios eletrônicos?

– Reclame! É um direito seu!

Ouvem-se os acordes do tema do filme O Maior Espetáculo da Terra. Depois de alguns segundos, o volume da marcha se reduz e um dos locutores lê a primeira manchete.

Esse foi um dos mais importantes capítulos da trajetória dos jornais falados sob a direção de Coripheu de Azevedo Marques. O ouvinte telefonava para a a rádio ou para a redação do programa, na Rua 7 de Abril, denunciando irregularidades de toda ordem, que eram devidamente anotadas e lidas no Matutino e Grande Jornal Falado. (Anotadas?… Por que não gravadas? Amigos, não esqueçam que o ano é 1949 e os recursos técnicos eram empregados com parcimônia, para atender, na medida do possível, toda a programação. E mais: havia programas populares de grande audiência, que garantiam o faturamento…) Mas, para Coripheu, sempre era possível valorizar uma informação para torná-la mais efetiva. Os redatores da equipe, a postos na sede dos jornais Associados, na Rua 7 de Abril, redigiam as reclamações com precisão, sempre enfatizando as situações de risco para as pessoas. As denúncias ou pedidos de ajuda, uma vez lidos pelos locutores (estimulados pelas recomendações e gestos de Coripheu),obtinham  repercussão  acima do que se podia esperar. O efeito desse fenômeno de comunicação veio a ser um dos principais atrativos dos radiojornais da época. Serviu, também, de modelo para o desenvolvimento que o gênero vinha experimentando depois da Segunda Guerra Mundial.

O esquema montado por Coripheu e sua equipe, para executar com sucesso um plano de cobertura de notícias  de caráter geral (ainda que com o apoio de agências de informações nacionais e internacionais e do indispensável serviço próprio de rádio-escuta), era algo simples, se comparado com o trabalho exigido pela prestação de serviço. A papelada com anotações era guardada em pastas que reuniam os pedidos de ajuda sobre pessoas procuradas (com o histórico de seu andamento); as cartas denunciando todo tipo de irregularidade ou deficiência, com registros das respostas obtidas; centenas e centenas de endereços e números de telefone de serviços, entidades e pessoas. Mas toda essa preciosa documentação não saía do prédio da 7 de Abril senão em partes: ia, pela manhã e à noite, da redação dos Diários até os estúdios, no Sumaré, dentro da robusta pasta de couro que Coripheu carregava – ida e volta.

Comentário: Homenagem a Coripheu de Azevedo Marques (20/5/1907 – 29/8/1969).

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