Casa da Afasia propõe nova terapia fonoaudiológica para vítimas de AVC

Pacientes com limitação na compreensão e expressão da linguagem receberão tratamento em ambiente que simula situações cotidianas

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Foto: Reprodução Aphasia House/UCF
A Casa da Afasia reproduz o ambiente funcional do paciente – Foto: Reprodução Aphasia House via UCF

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Pessoas que sofrem danos cerebrais resultados de situações como, por exemplo, traumatismo crânio-encefálico, meningite, doenças infecciosas ou acidente vascular cerebral (AVC) podem desenvolver alterações na capacidade comunicacional, efeito ao qual se dá o nome de afasia.

O quadro ocorre quando há lesões nas áreas do cérebro responsáveis pela linguagem, podendo causar limitações na capacidade de expressão e compreensão do indivíduo, seja oral ou escrita. Focando especificamente as vítimas de AVC que apresentam afasia, o Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP experimentará, a partir de fevereiro de 2017, um novo modelo terapêutico por meio do projeto Casa da Afasia.

O conceito da Casa da Afasia é fruto de uma parceria entre a FOB e a Universidade da Flórida Central (UCF), nos Estados Unidos, onde a pesquisadora Janet Whiteside trabalha com um modelo chamado Aphasia House. Após visitar a universidade norte-americana e entrar em contato com o tratamento promovido por Janet, a professora Magali de Lourdes Caldana, da FOB, decidiu implementar o método no Brasil. “O modelo trabalha com sessões de terapia intensiva, das quais o paciente participa durante cinco semanas, por quatro horas diárias”, explica a professora.

Segundo ela, atualmente, no Brasil, os pacientes pós-AVC dispõem de grandes centros de reabilitação, como a rede de hospitais Sarah Kubitschek e a rede Lucy Montoro, além de haver profissionais da área de fonoaudiologia que oferecem o tratamento tradicional em cidades de médio e grande porte, baseado em sessões de terapia realizadas de duas a três vezes por semana.
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Casa de Afasia: Denise Guimarães/FOB
Modelo de ambiente funcional da Aphasia House – Layout: Aphasia House via UCF

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Nesse cenário, a inovação da Casa da Afasia, além da terapia intensiva, é o que Magali chama de setting terapêutico. “A Casa da Afasia tem esse nome pois ela reproduz o ambiente funcional do paciente, sua casa. Baseados no modelo da doutora Janet Whiteside, teremos um contêiner cujo interior terá o aspecto de uma casa, e lá serão realizadas as sessões”. De acordo com Magali, o ambiente, com banheiro, cozinha, quarto, sala e escritório, já está em construção e deve estar pronto em janeiro de 2017.

A ideia é um tratamento que escape à situação “mesa-cadeira-computador-figuras-diálogo”, passando a trabalhar com situações concretas. “O paciente vai para a sala assistir a um programa de televisão, depois vamos discutir o programa e trabalhar suas dificuldades. Isto é, passaremos a considerar situações reais, que eles vivenciam em suas casas”, argumenta a professora.

De acordo com a professora da FOB, a pesquisadora norte-americana já possui “resultados muito positivos” com esse tipo de abordagem, e o objetivo é testar se esses resultados podem ser verificados também na realidade brasileira.

“Claro que temos as particularidades do nosso país, que também serão observadas. Por exemplo, as condições gerais de saúde do paciente pós-AVC, sua condição socioeconômica de ir às sessões todos os dias e permanecer durante quatro horas. Essas e outras questões, e as soluções para elas, só poderão ser analisadas durante o desenvolvimento do projeto” reitera.

Por se tratar de um projeto de pesquisa, inicialmente, a Casa da Afasia atenderá a um número restrito de pacientes. “Faremos uma pré-triagem com pacientes de Bauru e região que tenham sofrido um AVC recentemente (até três meses), analisaremos alguns critérios de inclusão e a partir daí os pacientes serão selecionados”, explica Magali.

A professora ressalta que um dos requisitos é que os pacientes possam comparecer diariamente às sessões e permanecer pelo tempo de quatro horas que cada uma delas dura, durante as cinco semanas do tratamento. Isso totaliza cem horas de terapia.
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Casa de Afasia: Denise Guimarães (FOB/USP)
Professora Magali Caldana, ao centro, e a equipe da Casa da Afasia – Foto: Denise Guimarães/FOB

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Funcionamento

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o projeto se estenderá de fevereiro de 2017 até junho de 2018. Nesse período, serão feitos vários ciclos de tratamento: terminadas as cinco semanas de terapia, a equipe da Casa da Afasia terá um mês de intervalo para analisar os resultados, então uma nova leva de pacientes será chamada para mais um ciclo de cinco semanas, e assim sucessivamente.

“É um trabalho de evidência científica que requer um controle bem grande, por isso, na primeira chamada trataremos apenas cinco pacientes. Conforme consigamos controlar as interferências e os critérios de inclusão e exclusão do projeto, abriremos para números maiores nas chamadas seguintes”, esclarece Magali.

A equipe da Casa da Afasia conta, além da professora Magali, com as fonoaudiólogas e pesquisadoras Natalia Gutierrez Carleto, Elen Caroline Franco, Natalia Caroline Favoretto e Cristina do Espírito Santo, e com a parceria de profissionais das áreas da fonoaudiologia, fisioterapia e neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. O contêiner que materializa a casa, onde serão realizadas as sessões de terapia, será instalado próximo à Clínica de Fonoaudiologia do campus da USP em Bauru.

Após o período de desenvolvimento da pesquisa, a intenção da equipe da Casa da Afasia é abrir o tratamento à população em geral, mantendo o foco em vítimas de AVC que tenham sofrido danos neurológicos na área da comunicação.

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