O manual impecável de Plinio Martins Filho

Jean Pierre Chauvin é professor do Departamento de Editoração da ECA-USP

Por - Editorias: Artigos
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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Cícero (106 – 43 a.C.) dizia que, ao compor discursos com vistas à persuasão, o orador deveria manejar a palavra considerando público, gênero e assunto, atendendo a três condições: ensinar, agradar e comover o seu ouvinte ou leitor. Sem forçar a nota, proponho uma analogia. Tomemos a figura de um editor com mais de quarenta anos de ofício e afirmemos que o seu manual contempla as três feições da modalidade a que se filia.

Por ser eminentemente didático, este livro terá serventia imediata na mão de estudantes, autores e editores. Por condensar amplos conhecimentos de quem o escreveu, será capaz de ensinar o consulente em geral. Diagramado com cuidado, forjado em linguagem acessível e ricamente ilustrado, textos e imagens logram inegável coesão, o que agradará o leitor mais exigente.

Resultado da parceria entre três dentre as maiores editoras universitárias do País, Manual de Editoração e Estilo é a versão atualizada da tese de doutorado de Plinio Martins Filho, que lá reúne suas experiências relacionadas ao fluxo de produção de um livro em diversas casas editoriais. Em seu trabalho, o editor elege o produto que é objeto de sua grande afeição.

O manual conta com os belos testemunhos de J. Guinsburg – que presta “tributo à realização” do “compêndio” – e Marisa Midori Deaecto, a avalizar a arte de Plinio Martins em figura e ação – legítimo editor “do tipo tinhoso”, que “não salta as linhas”, em seu “trabalho de artesão”, que remonta a séculos antes de Cristo.

Para tratar da matéria a que se propõe, o autor o dividiu em temas tão abrangentes quanto variados, o que lhe permitiu abordar a aparência da palavra, o espaço que ela preenche na página, as formas que adquiriu no tempo, os tipos que contêm, o diálogo entre o som e o silêncio, representados entre a mancha e os vazios no papel – seja ele lauda, capa, contracapa, folha de guarda, folha de rosto, dedicatória, epígrafe, índice, capítulo, citação, referência, glossário ou colofão.

Resultado da parceria entre três dentre as maiores editoras universitárias do País, Manual de Editoração e Estilo é a versão atualizada da tese de doutorado de Plinio Martins Filho.

Homem habituado a relatar experiências profissionais, dentro e fora da sala de aula, e a transformar homens em autores, nada mais justo que a arte que o anima e ocupa ganhasse registro em forma de livro: saberes encadernados que circularão entre a estante da biblioteca e a carteira da faculdade, pelos braços firmes de numerosos portadores.

Para discorrer sobre o ofício próprio e longevo, Plinio Martins contempla o objeto, inicialmente chamado original: “É pelo original que realmente começa a editoração, e não pela entrevista com o editor”. Nele, aponta a sua estrutura quaternária (elementos pré-textuais, textuais, pós-textuais e paratextuais).

Ele ensina como aprontar, anotar, corrigir e normalizar letras, palavras; elenca características e discorre sobre a adequação das fontes tipográficas; resgata lições essenciais de ortografia; deslinda impasses de padronização, relacionados a diversas línguas; revê os sinais de pontuação e seus usos. Por fim, Plinio Martins referenda as leituras que o acompanham, em sua tarefa tripartite de editor, autor e professor, em jornada disciplinada e incansável na busca da eficiência e da qualidade máxima.

Ora, escrever sobre matéria vasta e rica em informações envolve riscos. Um resenhista que discorre assim, registrando mero fragmento do que vai no volume em análise, expressa bem menos do que este livro vale e comporta. É que ao manual se aplica o melhor ensinamento legado pela memória em palavra impressa.

Manual de Editoração e Estilo (coeditado por Edunicamp, Edusp e Editora da UFMG, 728 págs.), combina reflexões, saberes e fazeres. Como tal, merece ser percebido e utilizado como obra segura e inseparável de todo sujeito ligado, por arte, dever ou prazer, ao livro – artefato cultural, repositório da memória, guardião do saber, porta-voz do que se carrega, irradia e traz de volta.

Por exemplo, Plinio ensina o motivo e o valor da citação, elemento que “incorpora a um determinado trecho um texto alheio, obtido de outra fonte, transcrito como índice de autoridade ou em função de seu caráter modelar”. Fala-nos das vinhetas, “ornatos tipográficos […] que servem de enfeite e cercaduras em páginas de composição”. Reproduz os numerosos “sinais de revisão de prova” – códigos que ilustram os muitos saberes que subjazem ao trabalho do editor.

Para discorrer sobre o ofício próprio e longevo, Plinio Martins contempla o objeto, inicialmente chamado original: “É pelo original que realmente começa a editoração, e não pela entrevista com o editor”.

Profissional meticuloso, o editor recomenda que ajamos em acordo com a ótica de quem gosta de “catar o mínimo e o escondido” – para fazermos referência ao cronista Machado de Assis. Por outro lado, seu livro não se reduz a um receituário que absolutize e contraponha o certo e o errado; é um guia que aponta os diferentes caminhos por onde seguir.

Como contempla os desígnios que caracterizam o gênero manual, é livro que abriga livros; obra que comporta conteúdo, expressão e forma; exemplar em tripla acepção: modelo que ensina, matéria que nos move, regra de que se faz melhor uso e tira maior proveito.

Evidentemente, não estamos no tempo dos oradores greco-latinos. Em nossos dias, o universo da palavra anda a disputar espaço pela fala mais adequada, a leitura atenta, o estudo empenhado. Dentre outras virtudes, composto por alguém que tanto sabe de seu ofício, o manual transporta o ensino para o papel, representando a matéria ampla de modo sucinto.

Nisso reside outra virtude da obra: indicar ao leitor os caminhos mais seguros para dirimir questões, eliminar as dúvidas e resolver situações de maior ou menor impasse. Compreendido desta forma, o livro pode fazer as vezes do autor, em sua ausência. Nessas ocasiões, a obra ultrapassará o atributo de manual, assumindo as feições de um conselheiro de papel: entidade imaginária capaz de sussurrar preceitos e procedimentos ao leitor, face as suas dúvidas únicas ou recorrentes.

Digamos que este manual esteja em correspondência com um generoso “guardião de livros”, como sugere Marisa Midori Deaecto, em seu “Prefácio”. Nas oportunidades em que o percebermos e utilizarmos dessa forma, estaremos diante de um conselheiro robusto, com mais de setecentas páginas, capaz de evitar os atalhos duvidosos que comprometam a qualidade do que venhamos a revisar e normatizar.

Eis um livro que nos coloca sob o abrigo da memória e do uso. No manual de Plinio Martins Filho, aspectos históricos, culturais e pragmáticos harmonizam-se sob a forma de um material que estará a serviço de curiosos, acadêmicos e profissionais dedicados à arte de estudar, preparar e editar livros.

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