Parceria entre USP e Pasteur ajudará Brasil a se preparar contra epidemias

Plataforma científica reúne 17 laboratórios para investigar danos neurológicos causados por vírus, como zika e febre amarela

Arte sobre fotos/USP Imagens
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Um aumento inesperado do número de crianças nascidas com microcefalia e nenhuma informação sobre a causa. Esse era o cenário do Brasil entre 2014 e 2015 quando o Ministério da Saúde registrou um surto da anomalia. Esforço de cientistas descobriu a causa: vírus zika. O combate a epidemias e a identificação antecipada de vírus e parasitas deverão ficar mais ágeis no País com a inauguração da Plataforma Científica Pasteur-USP, em São Paulo, nesta quinta-feira, 4 de julho.

A plataforma é um conjunto de 17 laboratórios voltados à pesquisa para estudo de agentes patogênicos (organismos capazes de causar doença infecciosa em seu hospedeiro) emergentes, cujas infecções podem provocar danos no sistema nervoso central, como os vírus da zika, dengue, febre amarela e influenza, além de protozoários como os tripanossomas causadores da doença do sono.

Paola Minoprio, diretora de pesquisa do Instituto Pasteur – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

São quatro laboratórios de biossegurança nível 3 (NB3) – em uma escala que vai de 1 a 4, equiparáveis a parâmetros internacionais. O nível alto de segurança se dá pelo fato de os laboratórios serem utilizados para estudar patógenos de alto risco individual e moderado para a comunidade, ou seja, os microrganismos transmitem doenças potencialmente letais, porém possuem medidas de prevenção e tratamento conhecidas.

“A ideia principal é uma estratégia científica voltada, principalmente, à descoberta de soluções para agentes que causam epidemia, como o vírus zika, dengue, mayaro”, explica a pesquisadora Paola Minoprio, diretora de pesquisa do Instituto Pasteur e coordenadora da plataforma, junto com o professor Luiz Carlos Ferreira, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

As pesquisas permitirão melhorar a preparação ao combate de epidemias, pois será possível prever antecipadamente o aparecimento delas. “Se conseguimos identificar vírus que estão circulando antecipadamente à epidemia, podemos agir, buscar antígenos e tentar nos preparar, termos reações mais rápidas a emergências virais”, segundo Paola.

Luiz Carlos Ferreira, diretor do ICB / USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A plataforma científica fica no campus Cidade Universitária da USP, em São Paulo. A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Universidade com o Instituto Pasteur, uma das maiores organizações de pesquisa em prevenção e tratamento de doenças infecciosas do mundo, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), referência de ciência e tecnologia em saúde na América Latina.

Paola diz que o Instituto Pasteur é como “célula de intervenção”, pois atua em casos urgentes de epidemia. Como exemplo, lembra do trabalho realizado pelo instituto na República da Guiné quando houve surto de Ébola no país. “Conseguimos elaborar um diagnóstico da doença e medida de proteção para as pessoas que trabalham com biossegurança. Atualmente,  temos um Instituto Pasteur lá, mantido pelo governo da Guiné”, conta.

Segundo Paola, a escolha da USP para sediar a plataforma foi feita com base na relevância e no impacto global da instituição em termos de pesquisa científica. “Além disso, as linhas de pesquisa do Pasteur são muito semelhantes às do ICB e os dois institutos já desenvolvem projetos colaborativos”, explica. Os institutos têm em comum pesquisas nas áreas de Imunologia, Biologia Celular, Microbiologia e Parasitologia.

“A experiência do Instituto Pasteur é a experiência de uma instituição de renome internacional, especialmente nessa área que envolve vírus, doenças infecciosas. Ele é reconhecido e está presente no mundo inteiro”, diz Ferreira. Ele lembra que, nos últimos 80 anos, “não houve uma iniciativa como essa na USP. Estamos trabalhando a internacionalização da pesquisa, do ensino e da inovação.”

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Pesquisadores participam de capacitação nas instalações da plataforma científica  – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Estrutura da plataforma

O investimento previsto para a finalização da plataforma é de cerca de R$ 40 milhões, sendo R$ 15 milhões em equipamentos. Ela conta com 1.700 m² de área total, na qual irão funcionar 17 laboratórios. Destes, quatro são destinados a um nível maior de segurança, chamado biossegurança nível 3. Essas salas possuem 200 m² e cada uma é composta de três câmaras pressurizadas, garantindo o controle da pressão presente nelas.

Fachado do prédio que abriga a plataforma científica  – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Por envolverem análise de microrganismos que apresentam riscos, as salas possuem acesso controlado. Os pesquisadores que atuarão na plataforma passarão por um treinamento de procedimentos de segurança. Toda essa estrutura está localizada no Centro de Inovação e Pesquisa (Inova) da USP.

O professor do Instituto de Química (IQ) da USP e coordenador do Inova, Luiz Henrique Catalani, ressalta que o Instituto Pasteur vem agregar à instituição. “Somos um conjunto de atividades, no qual o Pasteur preenche uma parte importante. Somos voltados a áreas da inovação e empreendedorismo. E, nesse espírito, tanto o Instituto Pasteur quanto o ICB são parceiros fortes, porque se propõem a fazer parte desse complexo.”

A plataforma científica contará com equipe diversa para as análises. Além de Paola, outros sete pesquisadores irão compor o quadro sênior do projeto. São eles: Paolo Zanotto (ICB-Microbiologia), Edison Durigon (ICB-Microbiologia), Patrícia Beltrão Braga (EACH/ICB), Jean Pierre Peron (ICB-Imunologia), Eduardo Massad (FMUSP), Helder Nakaya (FCF-USP) e Pedro Teixeira (ENSP-Fiocruz). Todos manterão suas vinculações às unidades de origem e dedicarão parte de suas pesquisas à plataforma.

Luiz Henrique Catalani, coordenador do Inova – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Além disso, a partir de 2020, serão selecionados, anualmente, mais três grupos de jovens pesquisadores para integrar a equipe. No total, espera-se que a plataforma tenha de 80 a 100 pesquisadores.

O Instituto Pasteur possui atualmente 33 centros em 26 países, integrantes da Rede Internacional do Instituto Pasteur (RIIP), cuja próxima reunião regional abrigará o evento de inauguração da Plataforma Científica Pasteur-USP.

Entre os dias 3 e 5 de julho, pesquisadores de diversos países estarão presentes na USP para discutir assuntos relacionados à biomedicina, como doenças emergentes na América Latina, intervenções multidisciplinares para controle do zika e estratégias de combate à resistência a antibióticos.

A inauguração da plataforma científica conta com o apoio da Embaixada da França no Brasil e da delegação regional francesa de cooperação para América do Sul sediada no Chile, da Associação Internacional do Pasteur, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Thermo Fisher Scientific, empresa de desenvolvimento de produtos biotecnológicos, que também fornecerá parte dos equipamentos dos laboratórios da plataforma.
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Instalações do Instituto Pasteur no prédio do Inova USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Fundado em 1887, o Instituto Pasteur, sediado em Paris, é um centro de pesquisa biomédica reconhecido internacionalmente e vencedor de dez Prêmios Nobel. Com 23 mil pesquisadores trabalhando para a sua rede internacional, possui 130 unidades de pesquisa somente no instituto parisiense, divididas em 11 departamentos de pesquisa cujo principal objetivo é fazer estudos colaborativos e inovadores que melhorem a saúde mundial em termos de prevenção e tratamento de doenças. Outro pilar do Pasteur é a educação: seu centro educativo recebe anualmente 900 alunos e oferece 45 programas de doutorado e pós-doutorado e 26 programas de estágio.

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