Estudante de Medicina da USP descobre mais de 25 asteroides nunca descritos

Verena conquistou vaga em Medicina na USP em Ribeirão Preto enquanto caçava asteroides durante a pandemia; premiação pela descoberta aconteceu em dezembro de 2021

 10/01/2022 - Publicado há 6 meses  Atualizado: 10/02/2022 as 12:41
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Verena Paccola, estudante de Medicina da FMRP USP, durante premiação em Brasília – Foto: MCTI

 

Aos 4 anos de idade, a estudante Verena Paccola, do primeiro ano do curso de Medicina da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP), já nutria um olhar questionador e curioso sobre o mundo. Um exemplo dessa característica é que ela levava um microscópio na escola no dia em que as crianças podiam levar brinquedos.

“Minha madrinha fazia pesquisa e ela tinha um microscópio velho e me deu, eu levava para a escola e colocava formigas e folhas de árvore para analisar. Isso marca muito a minha história, porque eu me considero cientista desde então. Para mim, ser pesquisador é quando você começa a buscar as respostas para as perguntas sobre o mundo”, conta.

Verena, que tem apenas 22 anos, possui um histórico de excelência em diversas áreas, como em campeonatos de robótica, olimpíadas de neurociência e até de visita à Organização das Nações Unidas (ONU). Em dezembro de 2021, ela recebeu uma nova conquista: foi premiada pela descoberta de um asteroide classificado como importante no programa Caça Asteroides da Nasa e do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

Primeiros passos

Verena e Patrick Miller, criador do programa Caça Asteroides – Foto: Arquivo Pessoal

Tudo começou em 2020, quando a estudante se preparava para o vestibular e sonhava com a vaga no curso de Medicina da USP. “Eu precisava estudar algo além dos conteúdos do ensino médio e fiquei sabendo da oportunidade de caçar asteroide, me inscrevi e fiz o treinamento on-line para aprender a analisar uma sequência de imagens do Universo”, conta.

Ou seja, ela analisava visualmente fotos em busca de pontos em movimento, gerava um relatório e enviava para os organizadores do programa. Depois, o material é enviado para a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que confirma se é um asteroide – corpos rochosos de estrutura metálica, que orbitam o Sol – ou outro elemento do Universo.

“Eu descobri mais de 25 asteroides e pelo menos um deles é classificado como muito importante. Ele faz parte de um grupo que é chamado de fraco, se movimenta mais devagar e pode colidir com a Terra. Agora, a Nasa está colhendo mais dados e irá analisar a órbita do asteroide para verificar qual é a probabilidade de colisão com a Terra e quando isso ocorreria”, revela Verena. A estudante ainda poderá dar nome aos asteroides descobertos após a emissão da documentação.

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Monitoramento de asteroides de grande dimensão prevê impactos globais

Em entrevista à Rádio USP, Roberto Costa, professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explicou que objetos espaciais maiores de 1 quilômetro de diâmetro têm riscos de impacto global. “Sorte nossa que a Terra é um alvo pequeno e esses objetos na faixa do quilômetro de diâmetro adiante são conhecidos e monitorados”, esclarece.

A premiação aconteceu no dia 9 de dezembro de 2021, em Brasília, e contou com a participação de Patrick Miller, criador do programa Caça Asteroides; do ministro Marcos Pontes e membros do MCTI. “Eu fui convidada para fazer um discurso como representante do Estado de São Paulo e recebi troféu, medalhas e certificados pela participação, por ser o primeiro lugar no Brasil e de honra ao mérito”, comemora.

Sonho que virou realidade

Nascida em Indaiatuba, interior de São Paulo, Verena sempre enxergou o corpo humano como um desafio. “Eu tive um padrasto que era médico e eu passava a noite lendo os livros de medicina dele. Ele era radiologista, me ensinava a ver chapas de radiografia e eu ficava fascinada”, relembra.

Na época, a estudante tinha 7 anos e brincava com tubos vazios de sangue, jaleco e se divertia com o sonho de se tornar médica. A vontade permaneceu ao passar dos anos e ganhou um novo capítulo: Verena cursou o ensino médio no Colégio Técnico de Campinas, da Unicamp, e se formou como técnica em Enfermagem.

Verena com a mãe e a avó quando passou no vestibular para Medicina na FMRP – Foto: Arquivo Pessoal

Após se formar no ensino médio, ela desenvolveu uma pesquisa na área de Neurociência Computacional para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, no Hospital Albert Einstein, por um ano. Também fez a inscrição e foi aceita na Universidade da Columbia Britânica no Canadá, em 2019. “Foi complicado por questões financeiras e pela diferença nas formações, pois é preciso fazer quatro anos de graduação e depois fazer pós-graduação em Medicina e eu queria ser médica”, explica.

Verena voltou para o Brasil no final de 2019 e decidiu que iria estudar novamente os conteúdos do ensino médio para cursar Medicina na USP em 2020. “Tem uma frase que marca muito a minha vida: ‘Na vida não existem escolhas certas ou erradas. Existem escolhas. E o nosso papel é, depois de decidir, fazer desta escolha a melhor decisão que poderíamos ter tomado na vida’. Então se eu voltei do Canadá e se eu não fui direto para a faculdade após o ensino médio, fiz com que essas decisões fossem uma das melhores para mim”, conta.

Ao voltar para o Brasil, ela ganhou bolsa para um cursinho preparatório e estudou para o vestibular em meio à angústia da pandemia. “Eu passei em Medicina na FMRP pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) em abril de 2021 e um dos melhores momentos foi contar para minha mãe e para a minha avó. Foi muito emocionante”, relembra.

Atualmente, Verena sonha em ser neurocientista e atuar na área da Neurocirurgia. “O centro cirúrgico é a área que eu mais me apaixonei, até hoje. Tudo me guia para essa área, mas pode ser que eu mude no decorrer da graduação. Estou aberta a oportunidades”, finaliza.

Ouça no player abaixo entrevista da estudante Verena Paccola ao jornalista Ferraz Junior, no Jornal da USP no Ar, Edição Regional.


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