Casos de ansiedade não tratados podem tornar-se problemas de saúde mental mais graves

O transtorno de ansiedade patológica, se não for tratado, pode gerar doenças como a depressão, entre outros transtornos mentais, e é sobre isso que fala Márcio Bernik

 21/03/2023 - Publicado há 12 meses
Houve um aumento brutal importante de sintomatologia psiquiátrica em geral – Foto: DCStudio/Freepik

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a população mais ansiosa do mundo, seguido de Paraguai, Noruega, Nova Zelândia e Austrália. Cerca de 9,3% dos brasileiros sofrem do transtorno de ansiedade patológica que, quando não tratado, pode desencadear outros transtornos mentais, como a depressão, que atinge 300 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Hoje, a ansiedade é um problema de saúde pública global.

Tanto a depressão quanto a ansiedade tiveram um aumento de 25% mundialmente em decorrência da pandemia. O Brasil entra coroado nessa lista por alguns motivos, considerando o fato de que o País normalmente tem índices elevados de problemas como depressão e ansiedade. Porém, não são apenas desemprego e problemas com a segurança pública que desencadeiam esse aumento.  

“O que você tem no Brasil é um bom sistema de epidemiologia pública de coleta de dados, então os dados são bastante confiáveis, e uma população muito aberta para conversar de problemas emocionais”, diz Márcio Bernik, psiquiatra e coordenador do Programa de Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Isso pode ser o motivo pelo qual o País aparece em primeiro lugar no ranking de países mais ansiosos. 

“Houve um aumento brutal importante de sintomatologia psiquiátrica em geral, especialmente aquelas ligadas a stress, que são os transtornos de ansiedade e depressão, de 2020 para cá”, diz o psiquiatra. Para ele, começamos a entrar agora na terceira onda de aumento de problemas mentais, consequência da pandemia.

  Como as pessoas enfrentam esses problemas?

“Um estudo realizado na Suíça, que acompanhou 10.000 jovens durante 30 anos, mostrou que quatro em cada cinco quadros de depressão, na vida adulta ou no início da vida adulta, geralmente surgiram de um transtorno de ansiedade não tratado ou maltratado”, lembra o psiquiatra.  Se o transtorno de ansiedade é uma forma de adaptação ruim ao stress crônico, a depressão é a falência dos mecanismos de enfrentamento de estresse. Bernik ainda explica que a pandemia foi um período chamado de tempestade perfeita e ele enumera os motivos: as pessoas não buscaram por ajuda e tratamento por medo de se contaminarem, além de novos casos não tratados e tratamentos não continuados; existem poucos serviços de saúde mental e nenhum ambulatório psiquiátrico no País;  o aumento do stress psicossocial, por conta das notícias diárias de pessoas morrendo, adoecendo, com medo de perder emprego e aumento da criminalidade. 

“Não dá para fingir que o problema não existe. Não dá para imaginar que a pessoa vai resolver sozinha”, diz o médico. Não há remissão espontânea da ansiedade e da depressão, caso a pessoa não procure tratamento, ela não vai melhorar. “Não é falta de coragem moral da pessoa, não é uma fraqueza de caráter”, ele explica.  Ele ainda chama atenção para o Distress Disability Disadvantage, os três Ds, que ajudam a entender e diagnosticar os problemas: o distress é o sofrimento excessivo; disability é a incapacidade de enfrentar o mundo como ele é; e disadvantage é o sentimento de desvantagem em uma empresa ou faculdade, porque a pessoa não consegue falar ou expressar o que sente e a qualidade de seu trabalho cai.

“Dentro desse contexto, você precisa buscar ajuda, que passa por uma avaliação psiquiátrica, ou pelo menos uma unidade básica de saúde com um médico. O tratamento não é obrigatoriamente um tratamento com medicamentos, você pode optar em muitos casos por uma terapia comportamental cognitiva, um medicamento e, sempre que possível, também psicoterapia”, diz Bernik. 


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica e o Instituto de Estudos Avançados. No ar, pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h e às 16h45. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 

 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.