Fundação da USP foi parte do processo brasileiro de construção social da raça nos anos 1930

Em 1934, no Brasil, enquanto vigoravam projetos de branqueamento da nação, uma elite com pensamento racista concebeu a Universidade de São Paulo, como mostra estudo da Faculdade de Educação (FE) da USP

 21/09/2023 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 09/10/2023 as 9:12

Texto: Antonio Carlos Quinto

Arte: Gabriela Varão*

Torre da Praça do Relógio no campus da Cidade Universitária, no Butantã - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

No ano em que foi fundada a Universidade de São Paulo (USP), no dia 25 de janeiro de 1934, quase meio século após a abolição (1888), o Brasil convivia com a discriminação racial contra os negros. “Havia um processo de exclusão dos negros e de ocultação e negação do racismo”, destaca a pesquisadora Mariana Machado Rocha. Esse foi o cenário de fundo para o seu estudo de doutorado intitulado Uma luta científico-social desproporcional: colonialidade e branquitude na fundação da USP e ensino superior na Imprensa Negra Paulista (1924 – 1937). A tese foi defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP e busca interpretar de que formas o racismo influenciou a concepção desta universidade.

Sob orientação da professora Ana Luiza Jesus da Costa, Mariana analisou discursos de Júlio de Mesquita Filho, Fernando de Azevedo e Armando de Salles Oliveira (protagonistas da fundação da USP), e o posicionamento da Imprensa Negra Paulista, mais especificamente os jornais Clarim da Alvorada, Progresso e A Voz da Raça, que circulavam nas décadas de 1920 e 1930.

Mariana conta que em ambos os grupos — fundadores e Imprensa Negra — a perspectiva sobre ensino superior esteve conectada aos seus respectivos ideais de nação. “Mas esses ideais foram definidos a partir de posições radicalmente distintas a respeito dos sentidos de raça, do lugar dos negros na sociedade brasileira e do papel da ciência e da cultura na sociedade”, descreve a estudiosa em entrevista ao Jornal da USP.

Pesquisadora, trabalhadora, negra e mãe! Mariana foi moradora da comunidade São Remo, que divide muros com a Universidade - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

De acordo com ela, o grupo fundador da Universidade teve uma relação de proximidade com o Estado. Júlio de Mesquita Filho era cunhado de Armando de Salles Oliveira, à época interventor federal no governo paulista. Essa proximidade favoreceu a possibilidade de que o projeto de universidade de uma fração da elite branca paulista fosse concretizado por meio do governo. “Foi quando a universidade pensada pela branquitude ganhou a forma de uma instituição dotada de uma suposta neutralidade, que escondia o racismo presente em suas bases”, destaca a pesquisadora. Mariana também analisou documentos como o decreto de criação e o primeiro Estatuto da Universidade. E aponta: “A fundação da USP se constituiu como parte importante do processo brasileiro de construção social da raça nos anos 1930.”

Um “afluxo repentino de toxinas”

Em sua pesquisa de doutorado, Mariana destaca um trecho do discurso de Júlio de Mesquita Filho, que evidencia o pensamento da época em relação aos negros recém-libertos:

“Promulgado o decreto de 13 de Maio, entrou a circular no sistema arterial do nosso organismo político a massa formidável de dois milhões de negros, subitamente investidos das prerrogativas constitucionais. […] Esse afluxo repentino de toxinas, provocado pela subversão total do metabolismo político e econômico do país, haveria necessariamente de suceder grande transformação na consciência nacional que, de alerta e cheia de ardor cívico, passou a apresentar, quase sem transição, os mais alarmantes sintomas de decadência moral (Mesquita Filho, 1925, p. 9).

De acordo com a pesquisadora, Mesquita Filho entendia que os negros eram o problema da nação e a USP seria fundada para formar a elite que conduziria o País ao progresso apesar desse “problema”. O discurso, segundo Mariana, traduzia o pensamento geral dos fundadores.

Primeira turma de formandos e professores diante da Basílica Abacial Nossa Senhora da Assunção do Mosteiro de São Bento, em São Paulo - Foto: Acervo CAPH / FFLCH

“Nem todos foram tão explícitos quanto o Júlio de Mesquita Filho, mas era um pensamento comum. Nos documentos oficiais a questão racial era tratada a partir do silêncio, nas entrelinhas e sem explicitar a exclusão dos negros”, explica ela, destacando que “esse silêncio é parte do Pacto Narcísico da Branquitude, um conceito de Cida Bento que descreve a ação dos brancos de se favorecerem entre si”.

Imprensa Negra e produção de conhecimento

Do outro lado, a Imprensa Negra da época, como narra Mariana, debatia temas políticos de interesse dos negros. “Ela disputava a memória de formação da identidade nacional reivindicando o reconhecimento do papel dos negros na produção de riquezas e no desenvolvimento nacional”, explica. A Imprensa Negra, segundo a pesquisadora, produzia e disseminava conhecimento. Esses intelectuais eram intérpretes do Brasil e viam raça e nação de uma maneira radicalmente diferente da perspectiva dos fundadores da USP. “Para eles os negros não eram um problema, ao contrário, eram parte importante da construção da riqueza da nação, e o ensino superior tinha o potencial de ser um caminho para sua inclusão na sociedade e nos espaços de poder”, destaca.

A Imprensa Negra também exercia um papel de denúncias contra o racismo e hoje serve como fonte de pesquisa para recuperar histórias que permaneceram ocultas por muitos anos. Mariana lembra do caso de Jacinta Maria de Santana, mulher negra que teve o corpo mumificado e exposto numa sala de aula da Faculdade de Direito (FD) de São Paulo. “Por muito tempo, estudantes brancos objetificaram aquele corpo utilizando-o para seu deleite e zombaria, chegando a arremessá-lo num barranco no centro da cidade, trocavam seu nome e chamavam-na de ‘a Múmia da Faculdade de Direito’”, lamenta Mariana. Para a pesquisadora, a Faculdade de Direito atuou numa educação racista para alunos que viriam a ocupar importantes cargos de poder perante a nação, e alguns anos mais tarde ela seria incorporada à USP.

Uma reportagem veiculada no Jornal da USP, na edição de 6 de abril de 2023, traz a informação de que, após pressão dos estudantes negros, a FD retirou a homenagem ao professor Amâncio de Carvalho. Até meados de 2023, ele, responsável pela mumificação e exposição de Jacinta, emprestava o nome a uma das salas da faculdade.

A análise do jornal Progresso também trouxe ao conhecimento público o caso do médico Enoch Carteado. Formado em Medicina pela Bahia, integrou um grupo que foi a Paris, no ano de 1928, para uma especialização. “Os médicos brancos paulistas não aceitaram Enoch por ele ser negro”, conta a pesquisadora.

Uma “estrangeira” de dentro

Pesquisadora, trabalhadora, negra e mãe! Mariana foi moradora da comunidade São Remo, que divide muros com a Universidade. Foi quando ela elaborou a dissertação de mestrado intitulada Quando a Favela é Extensão da Universidade: o Programa Avizinhar em meio às relações entre a USP e a São Remo, que fala sobre os vínculos da USP com a favela vizinha ao campus. “Fui moradora de lá durante uma boa parte da minha formação. Foi quando observei que a USP se relacionava de um jeito específico com os moradores, que frequentavam o campus para trabalhar em posições socialmente desvalorizadas e quase nunca para ocupar o lugar de estudantes”, conta.

Enquanto pesquisadora, Mariana percebeu que com ela não era diferente: “Sempre recebi ‘mensagens’ mais ou menos implícitas de que aqui não era o meu lugar. Foi quando me perguntei: como teria sido a relação da USP com as comunidades negras à época de sua fundação?”, conta, enfatizando que esta foi uma das motivações em empreender seu estudo de doutorado.

Analisando a USP nos dias atuais, a pesquisadora cita: “Mudanças aconteceram sim, mas ainda há situações que nos permitem pensar que a USP continua servindo predominantemente aos interesses da branquitude. Basta observar os currículos, os quadros docente e discente e a resistência em relação à adoção de ações afirmativas nos moldes propostos pelos movimentos negros”, descreve.

Mariana do Berimbau!

A defesa de Mariana foi realizada no Auditório da Faculdade de Educação. Agora doutora, a mãe, poeta, performer e berimbalista brindou os presentes com uma performance artística na sua defesa (veja o vídeo abaixo). Entre familiares, amigos, docentes da banca examinadora e representantes da comunidade negra, Mariana exibiu uma performance que, com poesia, musicalidade e outros elementos da cultura afro-brasileira, contou um pouco de sua trajetória como pesquisadora. Ela foi muito bem acompanhada por seus filhos, Vitor e Pedro, que hoje, já com 14 e 15 anos, assistiam orgulhosos da plateia.

Na performance artística, seus filhos foram representados por Kenay, o sobrinho que Mariana carregou no colo - simbolizando a jornada tripla de mãe, trabalhadora e pesquisadora. E também celebrando sua ancestralidade e a conquista do título de doutora

Mais informações: Redes: @marianadoberimbau

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*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


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