Projeto faz a mediação entre alunos do ensino básico e teatro

Iniciativa é uma parceria entre a Faculdade de Educação e a Escola de Comunicações e Artes, ambas da USP

 29/04/2019 - Publicado há 3 anos  Atualizado: 14/05/2019 as 10:05
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A Última Gaivota, livremente inspirada na obra do escritor russo Anton Tchékhov, é ambientada em um futuro distópico no qual um teatro em ruínas é símbolo de resistência – Foto: Anna Talebi

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Aproximar o teatro das práticas de ensino e dos estudantes do ensino fundamental e médio é o objetivo de um projeto que vem sendo realizado com alunos da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP. Mediação Teatral: Caminhos na Educação Básica é coordenado pelas professoras Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, do Departamento de Artes Cênicas (CAC) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Adriana Oliveira, da disciplina de Arte-Teatro da Escola de Aplicação.

Na peça, um diretor (Pedro Carvalho) e uma atriz (Paula Halker) tentam montar uma peça, mas inevitavelmente se aproximam do fracasso – Foto: Anna Talebi

O projeto apresenta semestralmente um novo espetáculo, e nesta quinta-feira, dia 2 de maio, às 11h30, traz A Última Gaivota, uma montagem do CAC, que será encenada para alunos secundaristas. Criado em 2016, o projeto, além de enriquecer a formação teatral, permite que os alunos realizem atividades de reflexão e criação artística. Através dele, os alunos de Licenciatura em Artes Cênicas acompanham o cotidiano escolar de diversas séries do ensino básico e viabilizam o acesso a espetáculos teatrais de diferentes contextos e artistas. Também propõe em aula atividades de mediação teatral, que são criadas a partir do espetáculo, visando a sensibilizar e prolongar a experiência de fruição dos alunos através de jogos teatrais, conversas com o coletivo e criações artísticas nas diferentes linguagens.

Segundo a coordenadora Maria Lúcia, “a ideia é que os estudantes que estão se formando como professores de artes cênicas possam atuar junto a crianças e jovens, alunos da Escola de Aplicação, sensibilizando-os em relação às artes cênicas, ao teatro e, eventualmente, à dança e à performance, na perspectiva de se formar o espectador de teatro”. De acordo com ela, o espectador de teatro se forma na medida em que assiste a espetáculos e é exposto a situações. Outra questão que a professora aborda é que esses estudantes de artes cênicas proponham modalidades de dialogar com a cena assistida, estabelecendo pontos entre a vida pessoal, desejos e aspirações. “Queremos estabelecer uma tessitura entre a subjetividade de quem assiste e o espetáculo que é apresentado, porque o espetáculo só se completa na percepção do espectador”, afirma, acrescentando que um dos principais benefícios do programa para aqueles que têm interesse em teatro, tanto fazendo como assistindo, é possibilitar uma abertura para o mundo através do teatro.

Segundo os estudantes Ronaldo Fogaça e Marina Abreu, alunos de Licenciatura em Artes Cênicas da ECA/USP, essa parceria entre a Escola de Aplicação e o Departamento de Artes Cênicas proporciona aos estudantes de licenciatura uma ótima experiência de regência em sala de aula, contribuindo para a formação dos futuros professores, pesquisadores e artistas, permite outros olhares para a realização de um trabalho diferenciado de teatro e, por último, garante aos alunos da Escola de Aplicação o acesso a produções cênicas de diferentes naturezas, colaborando para a sua formação como espectadores e aguçando seus olhares não só para a cena como também para o mundo.

Os figurinos trazem a ideia de um mundo asséptico, com macacões brancos, guaiacas de plástico e patins, dando o tom de artificialidade, em contraste com a outra atmosfera da peça, mais realista – Foto: Anna Talebi

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A Última Gaivota

Utilizando a metalinguagem, a peça discute “a decadência do teatro hoje, a luta entre arte e mercadoria e a pulsão pela transformação à revelia do fracasso” – Foto: Anna Talebi

Fruto de um processo colaborativo de criação, que partiu da pesquisa sobre a peça A Gaivota, do escritor russo Anton Tchékhov, A Última Gaivota tem dramaturgia de Isabela Lisboa, atriz e aluna da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP, direção de Caio Horowicz e produção de Christian Alexsander. Criada em 2018, dentro da disciplina de Direção, sob a orientação dos professores Antonio Araújo, Cibele Forjaz e Luciene Guedes, a peça é encenada por um grupo formado por estudantes da graduação do próprio departamento e da EAD. Utilizando a metalinguagem, discute, segundo Horowicz, “a decadência do teatro hoje, a luta entre arte e mercadoria e a pulsão pela transformação à revelia do fracasso”.

A peça começa pelo fim, não pelo final esperado de toda a narrativa, mas o fim da própria possibilidade de narrar. O trabalho lida com a dualidade, uma oscilação entre dois espaços e tempos distintos. Em um deles, ambientada em um futuro distópico, no ano de 2050, em que tudo é dominado pela inteligência artificial, um exército de “gaivotas de latas” vigia todos aqueles que não se encaixam nesse novo mundo. Em outro, nos dias de hoje,  um diretor e uma atriz tentam montar uma peça inspirada na obra de Tchékhov, mas inevitavelmente se aproximam do fracasso.

O cenário de Antônia Perrone evoca um teatro em ruínas, com uma cortina vermelha coberta de gesso, o centro do palco em metal remetendo a uma poça d’água e uma goteira que pinga do início ao fim do espetáculo. A iluminação de Vinícius Bogas brinca com esse universo, mais cifrado, escuro, e o espaço decadente da sala de ensaios. Já os figurinos trazem a ideia de um mundo asséptico, com macacões brancos, guaiacas (bolsas de couro) de plástico e patins, dando o tom de artificialidade, em contraste com a outra atmosfera da peça, mais realista, em que os atores usam roupas de cores sóbrias. Na trilha sonora, apenas três músicas: Ochi Chernye, clássico do folclore russo, Take On Me, símbolo pop/brega da banda A-ha, e Levanta e Dança, composição original do grupo entoada pelos personagens como uma espécie de hino.

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O cenário evoca um teatro em ruínas, com o centro do palco em metal remetendo a uma poça d’água e uma goteira que pinga do início ao fim do espetáculo – Foto: Anna Talebi

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Segundo o diretor, “há muito de metalinguagem no nosso espetáculo, como não podia deixar de haver. Queremos jogar para a dimensão pública discussões que nos parecem urgentes hoje”. E, nas reflexões levantadas pelo espetáculo, o grupo lança várias questões: o que será do teatro nesse intenso processo de sucateamento e descredibilidade financiada pelo atual governo? É possível pensar em uma arte que não passe pela idealização nem pela mercadoria? Qual o lugar da juventude, hoje, na luta pela sobrevivência? E, se estamos falando de teatro, que tipo de sobrevivência é essa que não habita somente a vida ordinária? Vale a pena lutar, ou o melhor seria simplesmente aceitar que fracassamos?

O espetáculo A Última Gaivota será encenado nesta quinta-feira, dia 2 de maio, às 11h30, na Sala Experimental 24 do Departamento de Artes Cênicas da USP (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 443, Prédio 7, Cidade Universitária, em São Paulo), seguido de debate. A entrada é aberta ao público e gratuita. 


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