Professor da USP traduz obra de Yehuda Amichai pela primeira vez em português

Antologia traduzida por Moacir Amâncio reúne 80 poemas de um dos mais celebrados poetas israelenses do século 20

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=223760
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O poeta israelense Yehuda Amichai: em sua obra, cultura e tradição judaicas ganham leitura renovada e dividem espaço com memórias do nazismo, Jerusalém e a paz – Foto: Yo’el Moshe Salomon St 5, café Tmol Shilshom, em Jerusalém – Foto Wikimedia Commons

De longe o mais cultuado poeta israelense do século 20, Yehuda Amichai (1924-2000) é dono de uma das mais ricas produções poéticas de seu tempo e autor premiado em seu país. Nascido em Würzburg, na Alemanha, em uma família judaica ortodoxa, chegou à Palestina em 1935. Integrou o exército britânico na Segunda Guerra Mundial, lutou na Guerra da Independência – deflagrada pelos países árabes após a fundação do Estado judaico, em 1948 –, na Guerra do Sinai, em 1956, e na Guerra do Yom Kipur, em 1973, ao mesmo tempo em que se tornava professor, atividade exercida durante toda a sua vida profissional, ao lado da literatura.

O poeta revê a própria história em sua obra, editada em mais de 20 volumes, entre poesia e prosa. Traduzido para mais de 40 idiomas, ganha sua primeira tradução brasileira, direta do hebraico, pelo professor Moacir Amâncio, do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – até então só havia poucos e esparsos poemas de sua autoria traduzidos no Brasil. Terra e Paz: Antologia Poética, publicado pela editora carioca Bazar do Tempo, apresenta um panorama de sua obra poética, no qual cultura e tradição judaicas ganham uma leitura renovada e dividem espaço com as memórias do nazismo, o sentido de impermanência da vida em Israel e em Jerusalém e a intimidade amorosa, mas, principalmente, a paz.

O próprio Amichai se definia como um “fanático da paz”, vocação que permeia toda a sua obra, como no trecho do poema Eu não fui um dos seis milhões, que está presente no livro, e se refere ao Holocausto: “Eu não estive entre todos aqueles mas o fogo e a fumaça/ficaram em mim, e as colunas de fogo e fumaça mostram/o caminho noite e dia, restou em mim a busca insana/por uma saída de emergência e por lugares macios,/pela nudez da terra para me abrigar dentro da fragilidade/para dentro da esperança, restou em mim o desejo da busca/de água fresca falando em voz baixa para a rocha e batendo loucamente”.

O professor Moacir Amâncio: “A tradução sempre é difícil e o hebraico tem suas particularidades, com muitos desafios e uma linguagem que muitas vezes vem da Bíblia” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A antologia reúne 80 poemas, organizados e traduzidos pelo professor da USP, que também é ensaísta, jornalista, escritor e poeta. É uma pequena mostra da produção poética de Amichai, que é cheia de sutilezas, ironia e erudição, com referências a Deus e à experiência religiosa. Sua poesia é aparentemente simples, mas de muita profundidade, como define o professor. E, apesar de anotações em alemão e da presença da Alemanha – sua terra natal – em seus poemas, sua escrita sempre foi em hebraico.

Na seleção não há uma ordem cronológica ou fases do escritor, somente uma escolha aleatória. “É uma organização ou desorganização com muitos sentidos, a partir de uma escolha pessoal”, afirma o professor, informando que cada vez que relia as poesias de Amichai a seleção era alterada. “Cada leitor tem seu poeta e, de certa forma, recria a poesia a partir de sua própria emoção, criando a sua ficção.”

As dificuldades da tradução

“A tradução sempre é difícil e o hebraico tem suas particularidades”, afirma Amâncio, que aceitou o convite da editora para traduzir a obra do poeta israelense direto do hebraico por conter uma relação direta com sua área de pesquisa e atuação. Ele adianta que está finalizando mais um livro, com a tradução, também do hebraico, de dois poetas do início do século 20. “É uma literatura europeia, hebraica, e ainda pouco conhecida no Brasil.”

Segundo o professor, “o hebraico apresenta vários desafios, com expressões muito próprias, que muitas vezes vêm da Bíblia e da linguagem dos rabinos, e que não possuem equivalentes imediatos em português”, destaca, acrescentando ainda que somente alguns correspondentes são encontrados em traduções antigas da Bíblia. Outra questão é traduzir a poesia, com seus ritmos, metáforas e jogos de palavras. “O poeta usa metáforas, e traduzi-las é uma dificuldade maior. Em princípio, o tradutor também deve produzir poesia na mesma língua do autor.”

Poema O lugar onde sempre estamos certos, de Yehuda Amichai, no original em hebraico, presente na antologia brasileira recém-lançada. Ao lado, a tradução de Moacir Amâncio

“Durante a Idade Média, passagem do primeiro para o segundo milênio, o hebraico viveu uma transformação inovadora, dando origem a uma literatura laica”, informa o professor. “Os judeus adotaram o hebraico na escrita da poesia, considerando-o como sua língua nacional por excelência.” Língua de mais de 3 mil anos, o hebraico ganhou renovação a partir do começo do século 19, quando ressurgiram com força a narrativa e a poesia hebraicas, laicas, sob a fina roupagem da linguagem bíblica. “Foi um passo gigantesco a decisão de recuperar o idioma como língua de expressão judaica, após quase 2 mil anos de silêncio, período em que era usado marcadamente na escrita de cunho religioso”, lembra.

“Houve um movimento para a retomada do hebraico, e começaram a experimentar a língua e escrever ficção, poesias e ensaios em uma adaptação para o mundo contemporâneo. Inventaram vernáculos, criaram termos coloquiais que até então não existiam. Foi a época mais criativa, um momento de criatividade radical”, relata. E continua: “Assim como havia acontecido na Ibéria medieval (Espanha e Portugal), o hebraico saía da Bíblia para a vida atual, com suas necessidades e exigências”. 

“Ele queria bagunçar a Bíblia

O livro de Yehuda Amichai, com tradução de Moacir Amâncio – Foto: Reprodução

“Embora Amichai fosse laico, ele estava impregnado desse espírito religioso. Ele queria bagunçar a Bíblia”, diz Amâncio, citando um de seus poemas: “Eu creio nas árvores, não como uma vez acreditaram, minha crença é fragmentada e abreviada até a próxima primavera, até o próximo inverno, eu creio na vinda da chuva e na vinda do sol. A ordem e a justiça estão bagunçadas: bem e mal estão na mesa diante de mim como o sal e a pimenta, os frascos são tão iguais. Eu quero tanto bagunçar a Bíblia”.

Amichai teve atuação fundamental na recuperação e modernização do hebraico e seu trabalho está incluído entre as 100 maiores obras da literatura judaica moderna. Nascido Ludwig Pfeuffer, ele mudou seu nome, por volta de 1946, para Yehuda Amichai (o sobrenome significa “meu povo vive”), muito comum naquela época e, segundo ele mesmo, “um nome certo, porque era socialista, sionista e otimista”.

Para Amâncio, que conheceu Amichai em Israel, no início dos anos 1980, o poeta pode ser lido a partir de qualquer um de seus textos, pois “ali o leitor certamente encontrará todo o poeta possível”.

Terra e Paz: Antologia Poética, seleção e tradução de Moacir Amâncio, Editora Bazar do Tempo, 184 páginas, R$ 62,00. Mais informações no site da editora

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