Podcasts revelam como a música cria o mundo e a humanidade

Resultado de tese de doutorado na USP, áudios mostram a relação dos povos com a música ao longo da história

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Imagem extraída do site Ser Sonoro 

 

No subúrbio de uma grande cidade brasileira, um adolescente raivoso se tranca no quarto, espera o cabelo crescer, sincroniza seus lábios com Ozzy Osbourne, chacoalha a cabeça e grita Sabbath Bloody Sabbath. Longe um oceano inteiro, no Congo, um caçador topoke volta para casa no meio de uma paisagem sagrada e sente o coração bater com o toque do tambor que anuncia a morte de um parente. No bairro da Liberdade, em São Paulo, uma senhora acorda antes de o sol surgir, movimenta-se sutilmente e entoa o mantra nam-myoho-renge-kyo, como ensinado por Nichiren Daishonin em algum momento perdido no século 13 japonês. E uma criança pataxó, no Parque Nacional do Monte Pascoal, na Bahia, senta, levanta, olha, corre e conhece mais uma vez os sons ancestrais oferecidos à lua-cheia pelo seu povo.

Essa imensa diversidade musical está retratada na série de podcasts Ser Sonoro, lançada em junho passado pelo pesquisador Fernando Garbini Cespedes, que investiga como os sons do mundo se tornam música e como ela nos atravessa, nos enreda e nos constrói.

Durante os episódios, o ouvinte é tirado de casa para flanar pela história e pela geografia. Da humanidade primordial em volta da fogueira, rodeada por tigres e descobrindo o mimetismo dos sons, até a casa da família de Pixinguinha em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, onde os pássaros ensinam ao compositor como soar igual gaviões e urubus. Do movimento glacial pela espinha, com a trilha sonora que Bernard Hermann modelou para Psicose, até junto aos macacos-guigós da Chapada Diamantina, com seu alerta de perigo como se prenunciassem uma faca na noite.

O pesquisador Fernando Garbini Cespedes – Foto: Arquivo pessoal

A origem dessa aventura e dos podcasts é a tese de doutorado de Cespedes, defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em 2019. No trabalho, ele misturou investidas etnográficas à escrita libertária do ensaio para contar a história do homem com a música. Uma odisseia auditiva, que voou por entre indígenas, flautas e marakás, campeonatos de air guitar, mestres da música clássica europeia, funkeiros do Brasil, bluesmen estadunidenses, lundus e modinhas lusitanas e a influência hindu nos Beatles.

Para compor a tese, junto de uma caudalosa pesquisa documental, Cespedes encarou algumas viagens de campo que incluíram festivais de música quinhentista na Suíça e encontros de música feita por inteligências artificiais no Vale do Silício, na Califórnia, nos Estados Unidos. Esteve também no Parque Nacional do Monte Pascoal, na Bahia, e participou do awê da lua cheia, um antigo ritual pataxó. “O awê foi a porta de entrada para que a conexão entre práticas musicais ancestrais, de contextos culturais distintos e sob ameaça, e as culturas musicais contemporâneas urbanas fosse estabelecida”, revela.

A decisão de transformar o estudo em podcast veio da vontade de levá-lo a um público mais amplo. Para isso, Cespedes revisitou a tese em busca das canções, gravações, sons e paisagens sonoras citadas e juntou-as ao texto. Ele também assumiu a tarefa de recriar a volumosa escrita acadêmica em episódios de até 20 minutos, que mantivessem a profundidade original.

“É muito importante criar um ambiente sonoro de alta-fidelidade e que faça o ouvinte mergulhar nos sons, porque a ideia é recriar uma experiência de contação de histórias”, explica. “A diferença é que no podcast os sons são elementos narrativos, tanto quanto o texto. Assim, além da escrita em si, o ritmo e o desenho de som são essenciais para prender a atenção do ouvinte.”

Buscando as vibrações do ser sonoro

“Em algumas das obras mais antigas e importantes do pensamento ocidental, a visão aparece como o principal sentido para conhecer o mundo”, diz o pesquisador. “Na Bíblia, Tomé precisa ver para crer. Aristóteles, na Poética, diz que o poeta deve colocar a obra diante dos olhos. Descartes, em seu Discurso sobre o Método, se gaba de seus olhos de filósofo.”

Para Cespedes, essa dominação histórica da visão no mundo eurocêntrico gerou o que ele chama de “presença estreita”. Sua assinatura é não perceber o entorno nem reconhecer o ambiente, estabelecendo relações distantes, focadas na aparência e pouco comunitárias. Em outras palavras, ela isola e transforma em objeto tudo que está fora de si mesmo.

Alguns coletivos, entretanto, criam suas realidades a partir de outros equilíbrios entre as formas de percepção, conforme relata. “Para os kamayurá, do Alto Xingu, por exemplo, o mundo é mais audível do que visível, a ponto de a palavra que traduziríamos como surdo significar para eles, além da pessoa que não pode ouvir, também os que não contribuem nem se integram à comunidade.”

Embora não negociemos com os sons da mesma maneira que os kamayurá, também somos o que o pesquisador chama de seres sonoros: inventamos a nós mesmos pelo som e esculpimos em música nossas identidades, sociedades, culturas e mitos. E desvendar esses seres sonoros foi a motivação da tese de Cespedes e, por consequência, dos podcasts.

“Durante todo esse tempo no qual construímos o mundo visual, por trás dele habitamos também um mundo sonoro”, reflete. “O catolicismo que prega o ‘ver para crer’ é o mesmo que agrega os fiéis em torno do som dos sinos da Igreja há milênios. A ciência dos telescópios e microscópios é a mesma do ultrassom e dos sonares. A literatura foi, antes da invenção da escrita, oral. Se não fôssemos todos seres sonoros, descrever um trovão como uma onda mecânica de ar causada por uma descarga elétrica seria a mesma coisa do que ouvir um trovão próximo. Mas quem já ouviu um trovão sabe que ele é muito mais do que isso.”

Rock psicodélico e cosmologia ameríndia

De acordo com Cespedes, a primeira temporada da série Ser Sonoro já está escrita e terá 11 episódios, que serão lançados ao longo do segundo semestre de 2020. Eles passarão pelo surgimento da música e chegarão ao rock psicodélico, flanando por canções de trabalho, música clássica e a música maori. Uma segunda temporada, focada nas cosmologias cristã e ameríndia, está prevista para 2021.

“A escuta nos obriga a reconhecer tudo o que está ao redor, já que ela não reconhece barreiras”, reflete o pesquisador. “Escutamos antes de nascer, enquanto dormimos e mesmo – durante algum tempo ainda não precisado – após a morte. Não há pálpebras nos ouvidos. Então, o principal ganho de cultivarmos uma relação mais sonora com o mundo é nos aproximarmos e nos incluirmos nele, abandonarmos a ideia de um mundo externo, fora de nós. Foi essa noção de um mundo externo – que pode ser domado ou conquistado – que guiou o colonialismo e a pior face do capitalismo. Não é à toa que sociedades nas quais a escuta é elemento central são mais sustentáveis e integradas aos seus ambientes.”

A série de podcasts Ser Sonoro é escrita, produzida e narrada pelo pesquisador Fernando Cespedes e pode ser acessada no site do projeto, no Instagram e nas plataformas de streaming.

 

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