Músico e médico, Luiz Millan revive canções de outros tempos

Psiquiatra formado pela USP, o compositor paulistano lança CD que inclui músicas criadas na época de estudante

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O médico e músico Luiz Millan: lembranças dos tempos de estudante da Faculdade de Medicina da USP – Foto: Marília Millan

 

Setembro despertou

O azul da manhã

que alegra a cidade,

o rio.

Belém não te esqueceu

surpreende ao dizer:

Ninguém pode sonhar por ti.

Quem tiver vontade de cantar, sonhar, sair do espaço dessa pandemia para saudar setembro, nesta quase primavera para os brasileiros, a música de Luiz Millan e Maurício Detoni abre todas as janelas. Nas vozes de Giana Viscardi e de Detoni, os ouvintes e leitores do Jornal da USP têm no Choro para Lisboa passagem para viajar e se imaginar em Sintra, vendo seus castelos e apreciando um vinho. E sentir saudade do além-mar:

 

Ou então, como bem convidam os compositores Millan e Moacyr Zwarg, ir para Morungaba:

Vamos passear, vem pra Morungaba

É lá que eu quero namorar

Vamos viajar

Só em Morungaba

As estrelas dançam ao luar

 

Aí, com certeza, os ouvintes leitores vão mergulhar em outro espaço e tempo para apreciar todas as faixas do CD Achados & Perdidos, de Luiz Millan:

https://www.youtube.com/results?search_query=luiz+millan+-+cd+achados+%26+perdidos

O CD é o quinto da carreira do compositor paulistano. Como o próprio nome sugere, Millan foi entre achados e perdidos para buscar canções de mais de quatro décadas, como Movimento, composta com a namorada Marília. Ele fez a música, ela é a autora a letra que prenuncia: “Teu encontro da vida, tua certeza que é promessa permanente”. A canção traçou a vida. Os parceiros seguem casados e têm a filha Laís, que não compõe, mas cursou Medicina como o pai.

Luiz Millan é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP. Do baú do estudante, saiu a foto da capa do CD. É o jovem ao piano, cabeludo, tocando, em 1976, no teatro de arena organizado pelos próprios estudantes. “Pode parecer incrível, mas na minha turma muitas pessoas se dedicavam às artes. Parecia mais uma faculdade de música do que de medicina”, conta. “Nesse teatro promovíamos shows mensais e ele sempre estava lotado. A foto é a minha participação nesse evento, Reunião Musical.

Ensaio no teatro da Faculdade de Medicina da USP, na época em que Luiz Millan era estudante – Fotos: Ruy Rodrigues Galves Junior

Entre as lembranças como compositor e futuro médico, Millan recorda o LP Ponta de Rama, que produziu com o parceiro Jorge Pinheiro para apresentar a música dos estudantes. “Esse disco reuniu vários compositores e lançamos o disco com uma série de shows.”

O estudante se formou em 1982. Trabalhou na Faculdade de Medicina da USP por 28 anos. “Era o médico dos alunos, fazia parte de um grupo de assistência psicológica que ainda está em atividade. Chama-se Grapal – Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da USP. Saí há cinco anos e me dedico ao consultório”, explica Millan. Agora o compositor não para, tem sempre uma música surgindo, mesmo no ritmo acelerado do cotidiano. “Trabalho muito, mas entre uma consulta e outra vem uma melodia na cabeça. Gravo no celular e componho mais tarde ou nos finais de semana.”

 

Na minha turma, muitas pessoas se dedicavam às artes. Parecia mais uma faculdade de música do que de medicina.”

 

Dessa volta no tempo nasceu o atual CD, com músicas feitas ao longo de sua carreira e divulgado em plena pandemia. Diferente dos outros álbuns, Millan, pela primeira vez, reuniu quatro canções de outros compositores, que fizeram sucesso, mas estavam esquecidas. “Tem Brasil com S, uma letra divertida dos roqueiros Rita Lee e Roberto de Carvalho fazendo bossa nova.”

Capa do CD Achados & Perdidos, com foto de Luiz Millan ainda como estudante da USP, feita por Arnaldo Sala – Foto: Divulgação

Uma surpresa é Não Pode Ser, de Marcos e Paulo Sérgio Vale, composta em 1965. “Eu tinha dez anos e adorava essa música. Meu amigo tinha o LP com a música e eu ia sempre na casa dele só para ouvir. Nesse disco estava o Samba de Verão, que é uma das músicas mais gravadas no mundo. Até que um dia meu amigo tirou o LP da prateleira e me deu de presente. Tenho até hoje.”

Outra música é o Samba da Pergunta, de Pingarilho e Marcos Vasconcelos: “Foi muito gravada nas décadas de 1970 e 80 por João Gilberto, Elis, Joyce Moreno, Tim Maia, mas não se ouve mais. E a letra é muito bonita”. Millan canta com Giana Viscardi, que marca presença em sete faixas com a sua voz harmoniosa e cheia de bossa.

A última música dessa releitura é a mais recente. Outro Cais, de Eduardo Gudin e Costa Netto, lançada há cinco anos. “Desde a primeira vez que ouvi, eu me apaixonei por essa música.”

Além da cantora Giana, Luiz Millan é muito bem acompanhado por músicos experientes, que enriquecem o repertório. Bossa nova, MPB, samba, jazz estão presentes em Achados & Perdidos para pontuar a história da clássica música popular brasileira. Como nos outros CDs, os arranjos contam com o pianista e arranjador Michel Freidenson. “É um gênio. Faz uma direção musical espetacular e todas as gravações fluem de uma forma maravilhosa. Ele é brincalhão, divertido, tem senso estético. Um grande parceiro.”

Certo é que Luiz Millan, em Achados & Perdidos, tem em sua companhia música instrumental da melhor qualidade: Sylvinho Mazzuca (baixo), Léa Freire (flauta), Edu Ribeiro (bateria), Camilo Carrara (violão) e Adriana Holtz (violoncelo), além dos parceiros Moacyr Zwarg, Plinio Cutait, Ivan Miziara, Maurício Detoni, Marília Millan e Michel Freidenson.

Luiz Millan com grupo de músicos que o acompanham – Foto: Márcia Silveira

O CD Achados & Perdidos está disponível gratuitamente neste link. Clique aqui.

O CD físico custa R$ 27,00 e pode ser adquirido neste site.

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