Fac-símile de Hercule Florence tem edição internacional

O lançamento será na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP no próximo dia 18

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O pioneirismo de Hercule Florence (1804-1879) como artista, inventor e um dos criadores do processo fotográfico conquista o reconhecimento internacional. A sua vasta obra foi reunida em dois volumes, com lançamento marcado para o próximo dia 18, terça-feira, às 16 horas, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. O evento inclui um seminário com a participação dos professores da USP Boris Kossoy e Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron, da professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Maria de Fátima Costa e de Antonio Florence, fundador do Instituto Hercule Florence (IHF).

A iniciativa da publicação L’Ami des Arts Livré à Lui-Même é do IHF, que organizou, pela primeira vez, uma edição integral, promovendo o restauro, a digitalização em alta resolução e a transcrição do original. Um processo cuidadoso que levou cerca de sete anos e resultou em dois volumes, acondicionados em caixa revestida com apuro técnico para a proteção dos manuscritos.

“O lançamento da edição L’Ami des Arts Livré à Lui-Même é de grande importância para a cultura brasileira”, observa Boris Kossoy, fotógrafo e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “O nome e a obra de Hercule Florence, em diferentes áreas, devem ser mais conhecidos no meio acadêmico. O fac-símile do manuscrito e o outro volume que o acompanha, com textos técnicos e de contextualização, são um ponto de partida para despertar o interesse dos estudiosos das áreas de história e da arte.”

O livro tem duas partes distintas. A primeira, com 423 páginas, traz as principais invenções de Florence, como a poligrafia, a pulvografia, a fotografia, o estudo dos céus para jovens paisagistas, a zoofonia, quadros-transparentes, estudo sobre a compressão do gás hidrogênio para uso nos voos de aerostáticos e um ensaio sobre a impressão de pinturas a óleo em estampas, entre outros experimentos. A segunda conta a sua história, lembrando a infância e a juventude em Nice, na França, onde nasceu em 1804, além de mais de 200 páginas que narram suas pesquisas no Brasil e sua participação na Expedição Langsdorff, que percorreu cerca de 16 mil quilômetros do interior do Brasil, entre 1824 e 1829, com a descrição detalhada do trajeto fluvial entre as províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará.

A edição  L’Ami des Arts Livré à Lui-Même contou com a competência de uma equipe de especialistas. Dirceu Franco Ferreira e Thierry Thomas, entre 2009 e 2013, se responsabilizaram pela transcrição e edição. Heitor Florence, na digitalização dos originais. Patrícia Giordano, no cuidadoso trabalho de restauro e acondicionamento. Francis Melvin Lee, na coordenação final da edição e Alexandre Bebiano, na revisão da transcrição.

Esta obra é indubitavelmente o documento mais importante sobre a vida de Hercule Florence, redigido por ele mesmo…”

 

L’Ami des Arts Livré à Lui-Même foi redigido por Hercule Florence entre 1837 e 1859, quase todo em francês, e nunca foi publicado na forma original. “Essa obra é indubitavelmente o documento mais importante sobre a vida de Hercule Florence, redigido por ele mesmo”, explica Antonio Florence, tetraneto do inventor e diretor do IHF. “Ali o autor decide descrever suas impressões sobre o Brasil e suas invenções e faz o mais completo relato de viagem da Expedição Langsdorff. Quando o instituto o recebeu em doação da prima Teresa Cristina, em 2010, fizemos a restauração, digitalização e transcrição do manuscrito com um historiador belga. Nossa prima Dora Levy é a autora do projeto gráfico e a obra foi produzida em Verona pela gráfica Fasoli. O intuito foi imortalizar definitivamente o documento inédito.”

O tetraneto do pesquisador conta que a edição foi trabalhada em um processo artesanal. São 300 exemplares numerados e em preços também especiais. No Brasil será vendido por R$ 3.600,00; na Europa custará € 1.100,00 e nas demais regiões US$ 1.450,00. “Logo depois do lançamento, o livro estará disponível on-line para download”, afirma Antonio Florence.

“Este será o caminho para que a obra de Florence, como um todo, tenha uma difusão nacional e internacional…”

“O fac-símile é um objeto que encanta pela sua qualidade gráfica e editorial”, constata Boris Kossoy, que vem divulgando a importância de Hercule Florence em diversos livros e artigos. “Porém, é muito importante a iniciativa do instituto em dispor o livro na internet. Esse será o caminho para que a obra de Florence, como um todo, tenha uma difusão nacional e internacional.”

Kossoy fala da importância do livro para quem quiser compreender o fenômeno da invenção da fotografia. “Para essa compreensão, é preciso ter o conhecimento do contexto histórico, cultural, social, econômico e político do lugar em que ela se deu”, orienta. “Além disso, e não de menos importância, é o estudo detalhado da trajetória do autor: sua vida, formação, inquietações e pensamento. Teremos assim condições de avaliar a dimensão de suas realizações.”

Nesse sentido, Kossoy afirma que é preciso considerar a posição de Florence no Brasil, para compreender as motivações que o levaram à descoberta de seus processos fotográficos e a coerência entre tais processos e sua respectiva utilização em diferentes aplicações práticas. “Arte e indústria são os elementos que o nortearam em todas as suas incursões em busca de sistemas gráficos de impressão, incluindo a fotografia, de forma a beneficiar o meio em que viveu com soluções práticas, simples e exequíveis.”

“Jovem inquieto e curioso, leitor de Robinson Crusoé e apaixonado por viagens, em 1824 desembarcou no Rio de Janeiro…”

Antoine Hercule Romuald Florence, conhecido como Hercule Florence, destaca-se na ciência e na cultura brasileira. “Ele foi desenhista e pintor de formação autodidata”, conta o tetraneto Antonio Florence. “Jovem inquieto e curioso, leitor de Robinson Crusoé e apaixonado por viagens, em 1824 desembarcou no Rio de Janeiro. Foi contratado, com apenas 20 anos de idade, como segundo desenhista da Expedição Langsdorff, missão científica que percorreu o interior do Brasil, de São Paulo até o Amazonas, realizando monumental levantamento de dados geográficos e etnográficos do País. Ao final da expedição, radicou-se na Vila de São Carlos, atual cidade de Campinas, onde viveu até seu falecimento, em 1879.”

L’Ami des Arts Livre à Lui-Même foi redigido por Hercule Florence entre 1837 e 1859, quase todo em francês – Imagem: Divulgação

A história de Hercule Florence está na memória de sua família brasileira, com quase 160 pessoas. O tetraneto, Antonio, começou a cuidar da preservação de sua vida e obra em 2001. Formado em Direito pela USP, resolveu se dedicar aos estudos da história da arte. “Em 2004, em Campinas, promovi a comemoração dos 200 anos de nascimento de Hercule Florence e resolvemos fundar um jornal familiar chamado Olhar Florence”, lembra.

A publicação foi o primeiro passo para juntar os familiares e pessoas ligadas ao desenhista para revirar seus baús e reconstituir uma grande história. Um trabalho que resultou na criação do Instituto Hercule Florence. “O IHF foi fundado em São Paulo em 2007 e certificado como Organização Social de Interesse Público (Oscip) em 2009. Seus objetivos são a coleta, organização, conservação e divulgação da bibliografia e de documentos sobre o século 19 brasileiro. O centro de seus interesses consiste no estudo dos diversos viajantes do século 19 e suas narrativas, bem como na produção científica e cultural da Expedição Langsdorff e na vida e obra de Hercule Florence.”

O lançamento da edição fac-símile de L’Ami des Arts Livre à Lui-Même será no dia 18 de setembro, às 16 horas, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.

No lançamento, haverá um seminário com a participação do fundador e conselheiro do Instituto Hercule Florence, Antonio Florence, dos professores Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron, diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, e Boris Kossoy, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e da professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Fátima Costa. 

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