Exposição “Mário de Andrade: Duas Vidas” revela a vida privada do intelectual modernista

Realizada no Masp com a colaboração do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, mostra apresenta a coleção de Mário de Andrade a partir de um olhar queer

 03/05/2024 - Publicado há 1 mês
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Exposição Mário de Andrade: Duas Vidas, realizada no Museu de Arte de São Paulo (Masp), tem apoio cultural do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) – Foto: Marcos santos/USP Imagens

A mostra Mário de Andrade: Duas Vidas, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) até 9 de junho, oferece uma nova lente para analisar a produção do escritor, intelectual, colecionador e ícone do Modernismo brasileiro. A abundante coleção de artes visuais de Mário de Andrade é explorada a partir da perspectiva da sensibilidade queer, com Regina Teixeira de Barros como curadora coordenadora e Daniela Rodrigues como assistente curatorial. Feita em colaboração com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, 54 das 88 obras expostas fazem parte do acervo da instituição uspiana que preserva e pesquisa o arquivo, a biblioteca e a coleção de artes do escritor.

Após a morte de Mário de Andrade, em 1945, seu arquivo pessoal (que inclui manuscritos, correspondências, fotos e outros documentos), sua biblioteca com cerca de 17 mil volumes e sua farta coleção de artes foram adquiridos pela USP, em 1967, e doados ao IEB em 1968. “Nossa parceria com o Masp se enquadra em um projeto da atual gestão de favorecer uma extroversão qualificada dos nossos acervos e levá-los à grande sociedade de uma maneira que seja interessante, mas alicerçada em pesquisa”, afirma a diretora do IEB, Monica Dantas. Das 54 obras emprestadas, 39 não se encontravam em condições adequadas ao empréstimo, e o restauro foi custeado pelo Masp.

Em 2015, veio à tona uma carta na íntegra de Mário de Andrade a seu amigo, o também escritor Manuel Bandeira, na qual ele questiona o interesse do público em sua “tão falada homossexualidade”. Pesquisadores então começaram a analisar a produção do modernista a partir do viés da homoafetividade e do homoerotismo, mas ainda não havia sido feita uma investigação no campo das artes visuais, com as obras que ele comprou e colecionou durante sua vida.

Para o IEB, a mostra foi uma oportunidade de explorar o acervo sob uma nova perspectiva. “Apesar de incluir nomes de grandes artistas, a proposta chamou atenção por fugir do escopo regular do que recebemos como pesquisa”, diz a especialista da Coleção de Artes Visuais do IEB Bianca Dettino. “No momento que se sai de uma visão canônica da história da arte e se foge das referências clássicas, ganha-se uma nova visão”, complementa. “Fazem-se outras relações que não são as que estamos acostumados. Isso amplia o olhar para a coleção de artes dele, que é infindável.”

A rica coleção do pai do Modernismo

Durante sua curta vida, Mário de Andrade (1893-1945) foi escritor, músico, crítico e historiador das artes plásticas, da música e da literatura, agente cultural, colecionista e jornalista. Teve papel fundamental na realização da Semana de Arte Moderna de 1922 e é um dos autores mais estudados no Brasil, com clássicos como Macunaíma (1928). Esteve à frente de órgãos culturais e dedicou-se a registrar, estudar, preservar e divulgar a cultura brasileira, tanto a erudita quanto a popular.

Em sua produção, com frequência Mário de Andrade mencionava a dualidade dentro de si. “Toda a vida tem duas vidas, a social e a particular”, escreveu em carta a Manuel Bandeira. Na exposição em cartaz no Masp, a pesquisa da curadoria faz uma busca por corpos masculinos dentro da sua coleção pessoal e traz um conjunto de pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e fotografias para reflexão, 31 das quais são inéditas.

A exposição é dividida em núcleos: nus masculinos, fotos de viagens feitas por Mário pelo Norte e Nordeste do Brasil (1927-1929), retratos e autorretratos do intelectual, imagens sacras colecionadas, desenhos de homens e desenhos de esportes. Nas fotos, vemos Mário mais “solto”. “Como ele era retratado oficialmente contrasta com como ele aparece nas fotos. É como se ele estivesse livre de uma necessidade de se manter numa postura muito formal”, opina a assistente curatorial. A visão que se tinha do intelectual como monumento moral incomodava-o. “Me vejo convertido a erudito respeitável e, o que é pior, responsável. Isso me queima de vergonha”, escreveu ao jornalista e crítico Moacir Werneck de Castro em 1942. Nas fotos espontâneas, Mário posa com apetrechos e acessórios, como um leque ou chapéu de palha, brincando com a câmera. Outro momento de descontração é no único registro da voz do escritor de que se tem conhecimento, no qual ele canta músicas regionais ao lado da escritora Rachel de Queiroz e da tradutora Mary Pedrosa.

Os momentos da viagem que Mário de Andrade gravou com sua câmera “codaque” retratam inúmeras figuras masculinas. Nos arredores de Manaus, ele captura corpos de homens em trabalhos braçais, de costas, a distância. Em outras, ele fixa a objetiva diretamente no rosto dos trabalhadores. O corpo masculino também predomina na coleção de desenhos do modernista, que  afirmava que o desenho devia ser folheado igual a um soneto e guardado em pastas. Daniela Rodrigues, assistente curatorial, qualifica que a experiência de Mário com essas obras era mais íntima e privada por esse caráter. A representação do corpo masculino nu era mais incomum do que o feminino nas artes visuais, e as correntes modernistas em voga trazem ao desenho deformações, falta de naturalidade, economia de traços e outras linguagens expressivas.

Chamam atenção na exposição os retratos de Mário de Andrade realizados por pintores modernistas como Tarsila do Amaral, Cândido Portinari e Lasar Segall, com os quais mantinha relações de diálogo, intercâmbio de conhecimento e amizade. As diferentes representações contrastam entre si. Enquanto Tarsila e Segall embranquecem Mário, Portinari opta por retratá-lo com camisa com botão aberto, sem óculos, em frente a um campo, de pele morena. Assim como a opção sexual de Mário de Andrade foi apagada da história, a sua cor também foi. Sua identidade racial foi negligenciada e, mesmo que pertencesse à elite intelectual paulistana, sofreu preconceito. Em sua autobiografia, a amiga Rachel de Queiroz anotou que Mário de Andrade era discriminado por ser gay e mulato. Segundo a escritora, “as duas coisas eram verdadeiras”.

Nascido em uma família fervorosamente católica, Mário de Andrade possuía uma grande coleção de arte sacra. Um dos destaques da mostra é uma escultura de Victor Brecheret, de 1920, que retrata Jesus Cristo de tranças, que permanecia acima do piano de Andrade. Em seguida, estão desenhos de figuras masculinas praticando esportes e atividades físicas. “Ao longo da história da arte, o corpo masculino pôde ser visto e contemplado a partir de temáticas religiosas ou esportivas. No esporte, atletas e homens nus mostram os músculos. Na arte católica, existe uma permissão para que os corpos sejam vistos. O corpo de Cristo, na maioria das vezes, é representado seminu”, explica Daniela sobre a presença dessas figuras masculinas.

Um segredo guardado a sete chaves

Mário de Andrade esteve ativo entre 1920 e 1940, época na qual a homossexualidade era um grande tabu. O escritor lutou para manter essa faceta velada, mas era alvo de fofocas e críticas. O escritor Oswald de Andrade, ex-amigo e também figura central da Semana de 22, apelidou-o de “Miss Macunaíma”. Em sua correspondência, Mário menciona frequentemente sexualidade e a separação rígida entre seu eu social e particular. Daniela Rodrigues considera a informação como uma camada a mais para compreender e contextualizar a obra dele, não só observando o homoerotismo, mas também o próprio erotismo. “É uma lente que podemos usar para olhar para o trabalho dele e pensar sobre questões que não necessariamente foram feitas”, expressa. “O erótico não está explícito ou escrachado, mas em outros termos, às vezes inventados, ou sem dizer exatamente. Não é que a obra dele muda, mas isso ajuda a enxergar outros pontos e questões.”

“Eu sou um ser como que dotado de duas vidas simultâneas, como os seres dotados de dois estômagos. O que mais me estranha é que não há consecutividade nessas duas vidas.”

(Mário de Andrade, em carta para Oneyda Alvarenga)

A coleção de Mário Andrade, mantida na reserva técnica do IEB, é uma das mais pesquisadas do instituto. “Mário de Andrade deixou um rastro; ele é uma teia e você se enreda, de uma coisa vai para outra e depois outra. E ele se deixou para a posteridade”, explica Bianca, que gere a coleção de artes do modernista. “Com o conjunto todo reunido no IEB, em um único acervo, são maiores as possibilidades de pesquisa. É uma coleção que merece aprofundamento.”

A exposição integra a programação anual do Masp dedicada às histórias da diversidade LGBTQIA+. A perspectiva queer fornece novas possibilidades de leitura e compreensão do legado de Mário de Andrade. Daniela afirma que o objetivo do eixo temático é pensar a história da arte para além do canônico. “Nós olhamos e revisamos essa narrativa oficial da história da arte, propondo que a história da arte não é só uma, mas várias, muitas das quais ficaram de fora pelo modo como ela foi escrita ao longo da história.”

A exposição Mário de Andrade: Duas vidas está em cartaz até 9 de junho de 2024, no primeiro subsolo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp (Avenida Paulista, 1.578, Bela Vista, em São Paulo). O valor do ingresso é de R$ 70,00 (entrada) e R$ 35,00 (meia-entrada). A entrada é gratuita às terças-feiras (horário de 10h às 20h, entrada até as 19h). O Masp abre de quarta a domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h) e é fechado às segundas. Todas as exposições possuem recursos de acessibilidade e entrada gratuita para pessoas com deficiência e acompanhante.


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