Aurélio, caçador de borboletas

Fotomontagem: Camila Paim/Jornal da USP com imagens de Arquivo e Freepik

Um caçador de borboletas, a correr com uma rede em busca das palavras que voavam. Era assim que Aurélio Buarque de Holanda – criador do mais prestigioso dicionário brasileiro, aquele que leva seu nome e, mais do que isso, o define, substantivo absoluto – conceituava seu trabalho de dicionarista. Escritor talentoso que poderia ter ido longe na literatura se não houvesse sucumbido ao prazer de caçar palavras com uma rede metafórica para, então, dissecá-las em verbetes, hedonista, inquieto, grande conversador e contador de histórias, Aurélio também acumulava outros predicados menos abonadores e bem complexos: desorganizado, descumpridor de prazos e um tanto desleixado. Esse rápido retrato pessoal pode ser a síntese daquele intelectual que queria criar um dicionário para chamar de seu e que por décadas deu com os burros n’água – muito devido às características listadas há pouco, muito também por causa de um mercado editorial reticente. E, no final, o livro, o “pai dos burros” definitivo acabou saindo e se tornou o maior sucesso editorial do País, com mais de 15 milhões de exemplares vendidos em pouco mais de 25 anos desde que foi lançado, em 1975. O dicionário – uma proeza – ficou 42 semanas seguidas na lista dos mais vendidos da revista Veja, isso quando tanto listas quanto a publicação tinham bem mais prestígio. Mas a história não é tão simples assim – nunca é. 

A capa do livro de Cezar Motta – Foto: Reprodução

E esse axioma, por assim dizer, pode ser agora comprovado com o lançamento de Por Trás das Palavras, do jornalista Cezar Motta. Lançado pela recém-criada editora Máquina de Livros, a obra conta as aventuras e desventuras que marcaram a criação e edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Quem? Pode esquecer o nome pomposo e oficial. É só chamá-lo de “Aurélio” – no final das contas, o título acabou sendo Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa

Mas não adianta procurar essa definição – “Aurélio” – de dicionário no próprio. Ela não está lá. Nunca esteve e, provavelmente, nunca estará. “Seria pernóstico e pretensioso”, explicou – talvez com falsa modéstia – o “Mestre”, como amigos e discípulos chamavam Aurélio Buarque de Holanda. Ou, como definiu certa vez Mauro de Salles Villar, braço direito de Antônio Houaiss – o autor da obra que compete com o “Aurélio” pelo lugar mais alto no pódio da lexicografia em português, apesar de, como diz Motta, ser mais “rebuscado”: “O uso de ‘Aurélio’ como significado de dicionário é, na verdade, uma metonímia”.

Antônio Houaiss e Aurélio Buarque de Holanda – Foto: Arquivo pessoal de Aurélio Baird Buarque Ferreira/ Extraída do livro Por Trás das Palavras

Figuras de retórica à parte, o livro de Cezar Motta conta de forma instigante todas as idas e vindas que envolveram a edição do dicionário, tendo, obviamente, como ator principal o seu criador. O trabalho de Motta – oficialmente equilibrado em seis capítulos, sem sumário – pode também ser dividido em duas partes: a primeira, marcada por descumprimentos de prazos, fracassos, frustrações e pela incansável e conturbada busca por um mecenas, aquela figura patrocinadora generosa, protetora das artes e das letras – como bem define, claro, o “Aurélio”. A segunda, com o estrondoso sucesso após o lançamento, em 1975, e as subsequentes e intestinas disputas judiciais pela coautoria e por direitos autorais que levaram anos para serem dirimidas. Está tudo lá. Contar histórias da confecção de dicionários pode ser muito mais eletrizante do que imagina a vã filosofia do leitor menos atento – ainda mais quando fala-se de um que, ao sair à luz, pesava pouco mais de três quilos, custava o equivalente hoje a R$ 120,00, tinha 1.536 páginas em papel-bíblia e apresentava 120 mil verbetes.

Dr. Johnson, Webster e Oxford

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989) nasceu em Passo do Camaragibe, no interior de Alagoas, e aos 13 anos foi viver com a família em Maceió. Adolescente de fartos cabelos avermelhados, alto e inquieto, Aurélio não era necessariamente um aluno exemplar, mas chamava a atenção. Mas, por mais que se esforçasse, quem atraía mesmo a atenção entre os colegas de classe era um tal de Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo, que a dramaturgia brasileira passaria a conhecer décadas mais tarde como Paulo Gracindo. “Logo de início, o novato se mostrara inquieto e insubordinado. Ele era de natureza um tanto avessa a quanto lhe limitasse os impulsos”, o descreveu um outro colega de turma no liceu alagoano, Arnon de Mello, que viria  a ser governador de Alagoas e pai de Fernando Collor de Mello.

Depois que saiu da escola aguentou empregos burocráticos no governo alagoano até 1938, quando surgiu uma oportunidade de se mudar para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Foi trabalhar na Revista do Brasil, dirigida pelo historiador Octávio Tarquínio de Sousa e, aos poucos, foi angariando prestígio junto à intelectualidade da então capital federal, até estrear como ficcionista com o livro Dois Mundos, lançado em 1942. 

Ele começou a ganhar fama como dicionarista nos anos 1950, quando assumiu a condição de revisor principal do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, editado pela Civilização Brasileira. “Mas o cargo não era suficiente para Aurélio, que mais tarde renegaria o Pequeno Dicionário e passaria a sonhar com um de sua autoria exclusiva”, conta Cezar Motta. Isso, mesmo ele sabendo que a vida de dicionarista nunca foi nada fácil, como bem definiu o dr. Samuel Johnson, grande lexicógrafo inglês do século 18, ele mesmo autor de um dos primeiros dicionários na língua de Shakespeare. Para ele, com certa rabugice, quem se dedicava a essa atividade era “um burro de carga, um inofensivo trabalhador de uma tarefa inglória, exaustiva e sem nenhum reconhecimento da sociedade”. 

Correções feitas no “Aurélio” – Foto: Arquivo pessoal de Nélida Piñon/ Extraída do livro Por Trás das Palavras

O próprio Aurélio tinha uma outra definição para dicionarista. Quem quisesse trabalhar com dicionário deveria ser “muito vivo, inteligente; e um bocado burro”, afirmou ele em uma entrevista ao Pasquim em 1975, na época do lançamento do seu dicionário. “Se você for violentamente inteligente, parte com muita sede ao pote e não faz nada. As palavras são muito ariscas”, continuou ele na entrevista reproduzida no livro de Motta. Buscar o sentido das palavras não é algo simples e tudo muda com o tempo. Para se ter uma ideia, a primeira edição da histórica Enciclopédia Britânica, de meados do século 18, trazia esta definição para mulher: “female of the man”. Nada mais. Lacônica, reducionista e machista até as polainas do rei Jorge III. Mas era o retrato de sua época. No “Aurélio”, verbetes de outros dicionários ganharam, às vezes, dezenas de definições a mais.

Para fazer seu dicionário, Aurélio tinha em mente duas grandes obras: o Webster americano e o Oxford inglês. O primeiro, publicado desde 1828 e que estabeleceu um padrão para o inglês falado nos Estados Unidos, é criação do advogado, professor, jornalista e lexicógrafo Noah Webster. Chamava-se An American Dictionary of the English Language. Ok. Vá procurá-lo por esse nome. Nada feito. Mas se pedir um “Webster”… Pois é, cada língua com seu Aurélio. Quando foi lançado, o dicionário foi um fracasso editorial, vendendo apenas 2.500 exemplares. Mas a história se encarregou de consertar esse deslize.

Já o Oxford tem uma história um pouco mais curiosa. Em 1878, a Sociedade Filológica da Inglaterra decidiu fazer o seu próprio dicionário, uma obra definitiva que abrangesse não só o inglês falado na Grã-Bretanha, mas também nos Estados Unidos e nas colônias, como Canadá e Austrália. E escolheram, por óbvias razões acadêmicas e financeiras, a Universidade de Oxford para cuidar da empreitada. E os acadêmicos da prestigiosa universidade elegeram o professor escocês James Murray para pilotar o projeto. Murray não se fez de rogado e colocou anúncios em jornais ingleses, americanos e das colônias pedindo ajuda voluntária com palavras de toda e qualquer especialidade. O mais prolífico colaborador de Murray era um camarada chamado William Chester Minor, que toda semana enviava cem páginas caprichosamente manuscritas com sugestões de léxicos sobre história, medicina e guerras. Curioso, Murray decidiu finalmente conhecer seu assíduo colaborador. E descobriu que ele era, na verdade, um médico veterano da guerra civil americana internado em um asilo para loucos nos arredores de Londres. Dado a surtos psicóticos, Minor havia matado um operário a tiros. Essa história é muito bem contada no livro O Professor e o Demente, de Simon Winchester – e virou um filme interessante, estrelado por Mel Gibson e Sean Penn. 

Bem se vê, a tarefa de dicionarista não é fácil, nem deve ser solitária – Aurélio Buarque chegou a ter cerca de 120 colaboradores para pesquisar palavras as mais diversas e criar seus verbetes. E é mais séria ainda quando não se tem nem dinheiro nem editora. E quando se tem as duas coisas, não se cumpre os prazos.

Sucesso e brigas judiciais

Marina Baird, Aurélio e Margarida dos Anjos – Foto: Arquivo pessoal de Nélida Piñon/ Extraída do livro Por Trás das Palavras

Essa era, na verdade, a cornucópia de problemas que rondavam Aurélio Buarque de Holanda e seu dicionário. Claro que sua fama de intelectual só fez aumentar ao longo dos anos – ao ponto de ele ser eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1961. Mas sua fama de desorganizado e descumpridor de prazos também era uma constante. E os colaboradores mais próximos, de primeira hora, como Joaquim Campelo – guardem esse nome – e Margarida dos Anjos (filha do poeta Cyro dos Anjos), além de sua mulher, Marina Baird, viam como era difícil conseguir uma editora. Mas estavam todos dedicados a editar “o dicionário”, aquele que desbancaria qualquer outro, principalmente o Caldas Aulete, o, digamos, “Aurélio” do Brasil de finais da década de 1950.

Aurélio Buarque de Holanda ao tomar posse como membro da Academia Brasileira de Letras, em 1961 – Foto: Reprodução/ Extraída do livro Por Trás das Palavras

“No fim dos anos 50, todos os principais editores do País já acreditavam  que seria Aurélio Buarque de Holanda  o autor do grande dicionário da língua portuguesa que o mercado editorial tanto esperava. Mas Joaquim Campelo via um grave problema: na confluência da busca da perfeição com a realidade prática do trabalho, Aurélio se perdia”, escreve Cezar Motta, citando Joaquim Campelo, que passou a colaborar diretamente com Aurélio desde meados dos anos 1950 e ficou ao seu lado por três décadas. Foi Campelo, mais prático, que ficou encarregado de conseguir possíveis financiamentos para viabilizar o dicionário e também tentar tornar o trabalho mais objetivo. Isso, sem nunca ter recebido um tostão de Aurélio – o dicionarista considerava que a experiência e os conhecimentos que passava ao auxiliar eram pagamento suficiente, conta Cezar Motta. Durante muito tempo, esse trabalho foi um insucesso só. E a culpa era do Mestre. “Disciplinado, Campelo estranhava os hábitos de Aurélio, que acordava às 10 ou 11 horas, era desorganizado e caótico. O Mestre, segundo ele, era um pesquisador brilhante, leitor compulsivo, mas preguiçoso à sua maneira; fazia anotações de forma desconexa, acumulava papéis com novas palavras e definições nos bolsos, baús e gavetas”, afirma Motta em seu livro. Isso, sem se falar em outra característica de Aurélio: ser centralizador.

Em todas as tentativas de levar o dicionário adiante, a equipe – seguindo uma rotina de trabalho, buscando ideias e palavras em outros dicionários para aprimorar e aumentar seus significados em novos verbetes e preparando abonações (as citações literárias que referendam a definição dada) – se via paralisada justamente por quem menos deveria impedir o trabalho de caminhar. “A coisa empacava justamente no Mestre Aurélio, que retinha  o trabalho pelo seu natural perfeccionismo. Era comum que verbetes simples ganhassem mais de cem acepções diferentes. Aurélio não tinha qualquer disciplina ou compromisso com prazos”, escreve Cezar Motta. Isso aconteceu nas várias vezes em que houve a tentativa de se tirar o dicionário do mundo das ideias. Foi assim com a revista O Cruzeiro, nos anos 1950, e com a Editora Delta, nos anos 1960, para ficarmos em apenas dois exemplos. Em ambos  os casos, a situação foi a mesma: interesse grande na obra, entusiasmo inicial e depois… nada mais. Nas duas situações, Aurélio recebeu adiantamentos ou salário mensal, repassou trabalho para a equipe e prometeu entregar os verbetes. E fez como se a expressão “cumprimento de prazo” não estivesse entre eles – Cezar Motta afirma em seu livro que havia a desconfiança de que Aurélio atrasava propositadamente a entrega de originais para continuar recebendo seu salário. Para a revista, não entregou uma página sequer dois anos depois de assinar o contrato – e o acordo foi encerrado. Com a Delta, do empresário Abrahão Koogan, a mesma coisa: dois anos depois de assinado o contrato, nada feito. Resumindo: todos os editores e possíveis financiadores estavam agora escaldados e ninguém queria embarcar em uma barca lexicográfica furada. Mas Joaquim Campelo, que trabalhava também no Jornal do Brasil, continuava tentando – mesmo com dinheiro curto ou sem nenhum. Até o ex-presidente Juscelino Kubitscheck, então dono de uma financeira, foi procurado, mas educadamente declinou da proposta.

Até que a editora Regina Bilac Pinto, dona da Forense, fez uma sugestão: que tal Carlos Lacerda, dono da Editora Nova Fronteira? Campelo foi à editora – Aurélio não sabia negociar nada além de palavras -, falou com executivos da Nova Fronteira e com o próprio Lacerda, que, em um primeiro momento, não gostou da ideia. Mas acabou convencido pelo escritor e jornalista João Condé: “Foi Condé que convenceu Carlos Lacerda de que a Editora Nova Fronteira daria um passo histórico com a publicação do dicionário ‘Aurélio’”, escreve Cezar Motta. E, finalmente, a coisa andou. O contrato foi firmado em 17 de abril de 1974.

Em um ritmo frenético de entrega de originais, da letra A até a Z, o “Aurélio” ganhou forma e foi lançado no Rio de Janeiro, com toda a pompa e circunstância, no dia 11 de julho de 1975, “o ponto mais alto da carreira de um dos grandes filólogos brasileiros”, como atesta Motta. Mas o cartapácio de mais de 1.500 páginas já estava nas livrarias desde março, com uma tiragem inicial de 18 mil exemplares – e com cerca de mil erros, corrigidos nas reimpressões seguintes. O livrão não parou mais de vender. Em 11 anos, o “Aurélio” venderia o triplo de toda a obra reunida de Jorge Amado. E a disputa legal por seus direitos autorais começou.

Joaquim Campelo – Foto: Arquivo pessoal de Joaquim Campelo/ Extraída do livro Por Trás das Palavras

Isso porque Campelo, o fiel escudeiro que entrara na página de rosto do dicionário como colaborador, havia sido excluído de novos contratos de edição e reimpressão tanto do “Aurélio” quanto de seu filhote, o Minidicionário Aurélio, uma ideia que Sérgio Lacerda, filho do dono da Nova Fronteira, teve em 1977. A relação de Campelo e Aurélio já tinha azedado ainda em 1974, quando o ainda amigo achou que o Mestre estava pedindo dinheiro a Lacerda à sua revelia. O colaborador ameaçou colocar fogo nos originais do dicionário, mas a situação amainou – mas não cicatrizou. Com a nova perspectiva sobre os direitos autorais, Campelo processou Aurélio e a Nova Fronteira, mas perdeu todas as disputas, até no STF. A pendenga só acabou em 1985, mas a mágoa de Campelo permaneceu – até porque Aurélio, no prefácio à primeira edição, cita 43 nomes de pessoas que foram determinantes para a confecção da obra. Joaquim Campelo não está entre eles.

O “Aurélio” teve outros filhotes além do Minidicionário: o Aurélio escolar, o Mini Aurélio Infantil – com ilustrações de Ziraldo – e suas versões eletrônicas, primeiro ainda com a Nova Fronteira, depois com a Editora Positivo, detentora de seus direitos desde o começo do século 21. A concorrência aumentou muito nos últimos anos, mas a obra continua uma referência essencial – e é atualizado periodicamente pela lexicógrafa carioca Renata Menezes.

Aurélio Buarque de Holanda morreu no dia 27 de fevereiro de 1989, dois meses antes de completar 79 anos, depois de padecer por oito anos do mal de Parkinson. Morreu em casa, já que nos últimos tempos se recusava a ir a hospitais. Em sua última internação, porém, ele ainda conseguiu dar uma mostra de como, mesmo doente, ainda tinha uma ligação intensa com as palavras e com a língua portuguesa, como conta Beto Sales, filho do escritor Herberto Sales, no prefácio de Por Trás das Palavras:

“Na última vez que vi o Mestre, fui com meu pai visitá-lo no hospital, sua derradeira internação. Minado pela luta contra o mal de Parkinson, o Aurélio que estava ali na cama em nada lembrava a vibrante presença do homem que aproximou o brasileiro de sua língua. Mal balbuciava muxoxos guturais. De súbito, entra no quarto a médica que vinha acompanhando seu delicado quadro naqueles dias, e triunfalmente cumpre à risca o rito de mostrar bom humor diante da nossa patética impotência: ‘Grande mestre, vim aqui só para lhe ver!’. Aquele uso errado da transição do verbo ‘ver’ era a centelha para saber se de fato o Mestre ainda guardava com o nosso mundo algum elo. Olhei para a cama e vi Aurélio se retorcer com incrível dificuldade, seu tronco e braços enrijecendo como a preceder um movimento brusco que lhe seria impraticável, sua boca abrir além do que a letargia da doença permitia, e num esforço brutal sussurrar: ‘Vê-lo, vêêê-lo’”. 

Por Trás das Palavras, de Cezar Motta, Editora Máquina de Livros, 192 páginas, R$ 49,00 (impresso), R$ 32,00 (e-book).