Remédio para Alzheimer também tem efeito contra doença de Chagas

Pesquisa realizada na USP descobriu que a memantina elimina em camundongos o ‘Trypanosoma cruzi’, parasita causador da infecção

Principal forma de transmissão da doença é através das fezes do inseto barbeiro – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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A memantina, medicamento utilizado em pacientes com Alzheimer, pode ser eficaz para o tratamento da doença de Chagas. É o que aponta um estudo realizado pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e publicado no dia 19 de setembro na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases

Os resultados mostraram que a substância é capaz de matar o parasita que causa a doença, o Trypanosoma cruzi, geralmente transmitido através de picadas do inseto barbeiro. Nos testes feitos em camundongos infectados, a quantidade de parasitas foi consideravelmente reduzida após o tratamento com memantina e a taxa de sobrevivência dos animais aumentou.

Conforme explica o professor Ariel M. Silber, coordenador do estudo, o próximo passo é verificar se os dados levantados permitem que seja realizado um ensaio clínico, ou seja, um estudo para testar se o tratamento com memantina teria o mesmo efeito em seres humanos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número atual de pessoas infectadas pelo Trypanosoma cruzi seja entre 6 e 7 milhões, a maioria na América Latina. Uma vez no organismo, o parasita provoca reações inflamatórias que podem chegar a comprometer o funcionamento de tecidos e órgãos, causando até a morte.

A doença de Chagas faz parte das chamadas “doenças negligenciadas”, categoria que abarca um conjunto de enfermidades tratáveis e curáveis, porém endêmicas em populações de baixa renda. Por atingirem sobretudo grupos com pouco poder aquisitivo, despertam menos interesse na indústria farmacêutica e, consequentemente, também há menos investimento em pesquisas sobre elas.

Tratamento existente é insatisfatório

Atualmente, existem dois fármacos utilizados para o tratamento de Chagas, o nifurtimox e o benznidazol, bastante eficazes na forma aguda da doença. Acontece que ambos são tóxicos para os humanos, por isso apresentam sérias dificuldades para tratar a forma crônica, quando é necessário o uso prolongado.

De acordo com Silber, existem várias pesquisas que buscam a otimização do tratamento existente, principalmente com o benznidazol. Entretanto, os fármacos em si são insatisfatórios. “Por causa dos efeitos colaterais, muitas vezes é impossível completar o tratamento, e o caso mais frequente é que não se atinja a cura. Por isso é tão importante dispor de novos medicamentos”, completa.

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Gráfico apresentado no artigo mostra a diferença em célula infectada pelo T. cruzi antes e depois do tratamento com memantina – Imagem: Divulgação/Ariel Mariano Silber

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No organismo humano, a ação da memantina ocorre a partir da interação com os receptores NMDA (N-metil D-Aspartato). Os pesquisadores haviam identificado em estudos anteriores a possibilidade de haver receptores com características semelhantes no Trypanosoma cruzi. Assim, a hipótese levantada foi de que a droga poderia interagir da mesma forma se aplicada a ele, o que acabou se comprovando.

No caso do Trypanosoma cruzi, porém, essa interação acaba por causar a morte. Os resultados mostraram que o parasita morria com uma dose relativamente baixa de memantina, enquanto as células infectadas por ele eram pouco ou nada afetadas. Esse processo foi detalhado na dissertação de mestrado de Flávia Silva Damasceno, defendida em 2013 e também publicada em artigo. Depois, o estudo foi aprofundado na dissertação de Higo Fernando Santos Souza, que corroborou a hipótese e gerou o artigo publicado agora.

O fato de a memantina já ser utilizada em humanos é uma grande vantagem para o desenvolvimento de um novo medicamento. “Já sabemos, por exemplo, qual a dose máxima que pode ser utilizada num paciente infectado, os possíveis efeitos colaterais, a velocidade em que o organismo elimina a substância. Existe muito conhecimento acumulado sobre a droga que pode valer para o seu uso no tratamento da doença de Chagas”, diz Silber.

 

Financiamento e próximos projetos

Pesquisa foi toda desenvolvida no Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Desenvolvido inteiramente na USP, o estudo foi uma colaboração entre o Laboratório de Bioquímica de Tryps (LaBTryps), coordenado pelo professor Ariel Silber, e o Laboratório de Imunoparasitologia Experimental, coordenado pelo professor Cláudio Marinho, também do ICB. O financiamento foi feito pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Medical Research Council, do Reino Unido.

O LaBTryps, que estuda como os diferentes tripanossomas interagem com seus hospedeiros, continuará desenvolvendo pesquisas sobre o Trypanosoma cruzi. “Estamos interessados em entender qual sua lógica de funcionamento. O que ele aproveita quando infecta uma célula de mamífero, ou quando está no tubo digestivo do barbeiro? Como ele lida com variações de temperatura?”, exemplifica o professor Silber. “Quanto mais soubermos da biologia deste e de outros parasitas, maior é a chance de encontrarmos processos onde é possível interferir com novos fármacos.”

Além dos dois professores mencionados, também assinam como autores do artigo Higo Fernando Santos Souza, Sandra Carla Rocha, Flávia Silva Damasceno, Ludmila Nakamura Rapado e Elizabeth Mieko Furusho Pral. É possível conferir o texto completo na PLOS Neglected Tropical Diseases, em inglês.

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