Estudo mostra que antibiótico auxilia no tratamento de Parkinson

Pesquisadora diz que tratamento com a doxiciclina traria menos efeitos colaterais e melhoraria saúde dos neurônios

jorusp

Conhecida por causar tremores e acometer pessoas mais velhas, a doença de Parkinson é neurodegenerativa. Cientistas procuram formas apresentarem o diagnóstico mais cedo, para que o tratamento adequado possa ser feito. As causas do distúrbio ainda são desconhecidas, mas um estudo realizado na universidade King’s College London relaciona disfunções nos níveis de serotonina do cérebro como possíveis alertas precoces para a doença. Já uma pesquisa da USP busca o controle do Parkinson através do antibiótico doxiciclina.

Foi sobre esse assunto que o Jornal da USP no Ar conversou com a professora Elaine Del Bel, farmacologista, pesquisadora do Laboratório de Neurobiologia Celular da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) e presidente da Federação de Sociedades de Neurociência da América Latina, do Caribe e na Península Ibérica (FALAN). A especialista explica o princípio da pesquisa inglesa: “no Parkinson existe uma degeneração das células que produzem a dopamina, um neurotransmissor o qual nosso corpo não pode viver sem. Os cientistas acreditam que as células cerebrais que produzem a serotonina, nesse quadro, passam a tentar produzir dopamina e suprir a necessidade do organismo”. O objetivo é encontrar elementos precoces que possam indicar a doença antes da manifestação dos sintomas motores.

As disfunções na quantidade dessas substâncias importantes para o sistema nervosos podem se manifestar por meio de um conjunto de sintomas, como ansiedade, depressão, diminuição do sono e até constipação intestinal. “Quando associados, a manifestação desses problemas estaria relacionada à diminuição da serotonina, que por sua vez, poderia ser provocada pelo início da diminuição da dopamina. Os estudos indicam que esses sintomas precedem os problemas motores. Se isso for confirmado, existe a possibilidade de começar tratamentos precoces, com mais chances de sucesso”, conta a farmacêutica.

A análise feita por pesquisadores da USP complementa a estrangeira, e sua origem se deu em 2010, por acidente. Elaine conta que “em uma prática clínica, um ex-estudante fez uma cirurgia em 40 camundongos. Contrariando as expectativas, os sintomas semelhantes à doença só apareceram 20 dias depois. Além disso, apenas dois animais desenvolveram de fato esses sintomas que mostram a diminuição de dopamina. Isso seria um erro de procedimento, então se descobriu que o aluno trocou a ração que é dada para os camundongos sem perceber, e o alimento continha esse antibiótico chamado doxiciclina. Surpresos com o resultado, repetimos esse procedimento e conseguimos chegar à mesma conclusão promissora”.

Hoje, o tratamento ainda é feito com medicamentos que causam efeitos colaterais ruins. A doxiciclina atuaria como anti-inflamatório, o que poderia melhorar a saúde dos neurônios antecipadamente, estabilizando e diminuindo o avanço da doença. A principal vantagem é a de que ela “é um antibiótico que já está disponível para o público há mais de 50 anos, é barato e seus efeitos já são conhecidos. Isso é importante pois a indústria tem certo receio de investir em terapias de doenças do sistema nervoso central, pois são caras, difíceis de serem feitas em humanos. Se esse medicamento já é utilizado há tanto tempo, muitos dos efeitos já são conhecidos e a produção já é realizada. Nesse cenário, um diagnóstico e tratamento precoce com fármacos desse tipo poderia auxiliar muitos pacientes. É isso que estamos tentando fazer na nossa pesquisa, comprovar essas hipóteses e descobrir os possíveis efeitos do medicamento que ainda não conhecemos”, diz a professora.


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