Cientistas utilizam TVs e computadores antigos na fabricação de peças cerâmicas

Desenvolvido por pesquisadores da USP, novo esmalte para revestimentos cerâmicos é feito com o vidro das telas das TVs de tubo e de monitores de computadores antigos, cujo descarte incorreto prejudica o meio ambiente

 

Trabalho realizado no campus de São Carlos da USP deu novo destino a equipamentos eletrônicos cujo descarte irregular pode prejudicar o meio ambiente – Foto: Pixabay

 

Com a constante evolução da tecnologia utilizada nas atuais TVs e computadores disponíveis no mercado, os “jurássicos” monitores e televisores de tubo praticamente desapareceram, embora muitas pessoas ainda possuam tais equipamentos em casa. O descarte inconsciente desses aparelhos tem prejudicado o meio ambiente, por isso encontrar soluções sustentáveis para reaproveitá-los é fundamental para proteger a natureza e, dependendo da aplicação, até contribuir com as indústrias. Um novo destino para esses produtos foi proposto por pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, que desenvolveram um novo esmalte para revestimentos cerâmicos feito com o vidro das telas das TVs de tubo e de monitores de computadores antigos. Além de ser uma nova opção de reciclagem para o lixo eletrônico, o produto tem o processo de produção mais barato, consome menos energia e ainda é feito de forma mais rápida se comparada à convencional encontrada no mercado.

Os cientistas criaram uma nova receita para os esmaltes cerâmicos, que normalmente são compostos de pó de argila, pó de caulim e pó de frita – a matéria-prima mais cara na produção do esmalte, usada para dar liga no produto após a queima. Os autores da pesquisa substituíram 20% da frita pelo vidro do painel dos equipamentos, um dos três diferentes tipos de vidro que compõem os tubos de aparelhos televisores e monitores, e, assim, encontraram uma finalidade para esse resíduo que antes poderia poluir o meio ambiente, pois o tubo não desmontado corretamente carrega substâncias tóxicas.

O novo esmalte produzido na USP (que reveste a peça da direita) apresentou a mesma qualidade dos tradicionais – Foto: Raul Revelo

O professor Eduardo Bellini Ferreira, docente do Departamento de Engenharia de Materiais (SMM) da EESC e coordenador da pesquisa que resultou na inovação, explica que o esmalte cerâmico é o responsável por proteger as peças, sejam elas um azulejo, uma caneca ou um vaso sanitário, por exemplo. “O esmalte tem funções técnicas e estéticas. Ele impermeabiliza e dá durabilidade à peça. Se a cerâmica não for esmaltada, ela vai sugar qualquer líquido que entre em contato. Além de manchar o produto, é muito anti-higiênico”, afirma o pesquisador.

Para chegar à inovação, os pesquisadores testaram diferentes quantidades de vidro reciclado no lugar da frita até encontrar o ponto ideal. Eles contaram com a ajuda de ferramentas computacionais que calculam as propriedades das composições baseadas em milhares de dados encontrados na literatura científica. “O software nos dá mais segurança e prevê os parâmetros necessários para que o esmalte não perca suas propriedades”, explica Ferreira. Depois de produzir a substância para substituir a frita nos laboratórios da USP, o novo esmalte foi testado em parceria com o Centro Cerâmico do Brasil (CCB), localizado em Santa Gertrudes, a aproximadamente 70 quilômetros (km) de São Carlos. Lá, a solução foi aplicada em cerâmicas simulando um processo industrial. “O nosso esmalte passou pelo teste de qualidade. Ficou transparente e se fixou sem formar bolhas nas peças. O estudo mostrou que é possível descartar corretamente e reaproveitar os resíduos dos monitores e das TVs antigas na indústria cerâmica”, comemora o professor.

Eduardo Bellini Ferreira – Foto: abceram.org.br

O especialista em engenharia de materiais conta que não é simples reciclar os vidros encontrados em tubos de TVs antigas e monitores de computadores, já que na composição destes aparelhos há substâncias tóxicas. “Não é qualquer pessoa que pode abrir este tipo de equipamento”, ressalta. De acordo com o estudo, estima-se que em todo o mundo apenas 26% deste tipo de material descartado seja reciclado; 59% do total são aterrados e 15% incinerados. No Brasil, o índice reciclado é bem menor.

Para Eduardo Ferreira, a rápida evolução na tecnologia de monitores acelerou a busca por estratégias para reciclar o vidro dessas telas em larga escala, mas a implementação dessas novidades encontra muitos desafios no mercado. “Falta planejamento. É muito difícil para uma empresa criar um processo de reúso em cima de um produto eletrônico, sendo que daqui a alguns anos isso muda. E aí, aquele investimento enorme é perdido. Quem produz precisa ser responsável por pensar na composição dos materiais de uma forma que depois seja viável a reciclagem”, defende o cientista. “Muitos monitores foram enterrados causando grande impacto ambiental por falta de reciclagem. Além disso, estamos perdendo dinheiro”, alerta.

O esmalte foi testado em cerâmicas simulando um processo industrial – Foto: Raul Revelo

Ainda é preciso mais recursos financeiros para o desenvolvimento de inovações nesta área. Para o pesquisador Raul Revelo, coautor do trabalho na USP durante sua pós-graduação, mais do que investimento nesse tipo de operação, é preciso mudar o pensamento de toda a sociedade. “Não é sustentável comprar, usar e descartar, agravando ainda mais a poluição do meio ambiente. Muitos resíduos podem ser reaproveitados como matéria-prima para diferentes processos produtivos”, lembra. O cientista acredita que, devido à crise ambiental global, a demanda por produtos sustentáveis será cada vez maior. Hoje em dia, ele é sócio-proprietário da GAIA Green Tech, startup sediada em São Carlos que oferece gestão inteligente e soluções tecnológicas na logística para reciclar resíduos eletrônicos. “Queremos promover a economia circular e incentivar o descarte responsável de equipamentos eletroeletrônicos”, conclui.

A pesquisa foi realizada em colaboração com a Superintendência de Gestão Ambiental da USP (SGA), do Recicl@tesc, do Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros (CeRTEV) e contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O novo esmalte pode ser vendido tanto para produtores de frita como para fabricantes de esmalte. O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de revestimentos cerâmicos no mundo. Só de fritas são usadas mais de 500 mil toneladas por ano.

Por Assessoria de Comunicação da EESC/USP

Mais informações: e-mail: eesc.jornalista@usp.br, na Assessoria de Comunicação da EESC


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