Cães “conversam” pelo olhar e percebem se prestamos atenção

Pesquisa comprova que, além de se comunicarem através do contato visual, os cachorros são sensíveis à resposta de seus tutores

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Cachorro da raça doberman chamado Lobo - Foto: Cecíllia Bastos/USP Imagens
Lobo, cachorro da raça doberman. Cães não somente buscam se comunicar pelo olhar, como também sabem se estão recebendo atenção dos tutores – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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A exposição dos cães aos ambientes sociais e domésticos levou estes animais a desenvolver, ao longo do tempo, habilidades comunicativas. Uma pesquisa em comportamento animal feita na USP comprovou que os cachorros interagem com seus donos através do olhar quando querem se comunicar, sendo, inclusive, sensíveis à atenção de seu tutor. O resultado desse trabalho foi publicado em setembro em uma importante revista científica internacional, a Plos One, da Public Library of Science.

Carine Savalli Redigolo: "O contato visual reforça o vínculo afetivo com o animal"
Carine Savalli Redigolo: “O contato visual reforça o vínculo afetivo com o animal”

A pesquisa trabalhou com 22 duplas de cães e tutores voluntários e teve o objetivo de investigar a forma como os cães se comunicavam com os seus donos quando estes desejavam um determinado alimento. Segundo Carine Savalli Redigolo, autora da tese defendida no Instituto de Psicologia (IP) da USP, o comportamento comunicativo dos cães através do olhar já era conhecido pela ciência, porém, a pesquisa queria aprofundar mais a investigação. “Queríamos entender se os animais seriam capazes de perceber se o seus tutores estavam prestando atenção neles quando solicitavam algo que desejavam”, explica.

A pesquisa transcorreu em uma situação em que o cão precisava da cooperação de seu tutor para alcançar uma comida saborosa que ele desejava, mas que estava inacessível. “Normalmente, neste contexto, os cães mostram o que querem por meio de sinais comunicativos visuais olhando para o tutor, para a comida e, principalmente, alternando olhares entre o dono e a comida.” Em alguns casos, eles latem, mas esse comportamento não apareceu na pesquisa, provavelmente porque as pessoas costumam repreender seus cães quando estes latem muito.

Carine observou os cães e seus tutores em seis condições experimentais de 30 segundos, cada. Ora os donos se colocavam acessíveis para estabelecer o contato visual com os animais, ora permaneciam inacessíveis: situação I – o tutor estava disponível para o contato visual; II – o tutor ficava com os olhos fechados; III –o tutor olhava fixamente para uma porta; IV – o tutor permanecia com os olhos voltados para cima (para o céu); V – o tutor continuava com a cabeça direcionada para cima; e VI – o tutor ficava com a cabeça voltada para baixo, lendo um livro (veja no esquema abaixo). Nessas condições de pesquisa, Carine procurou medir o tempo e a frequência com que os cães olharam para o tutor, para a comida e o número de alternância de olhares.

 

Comparadas as condições quanto à frequência e a duração do comportamento dos olhares, Carina observou que os cães se comunicavam menos quando os tutores estavam com a cabeça para cima ou para baixo do que quando eles se encontravam atentos aos pedidos de atenção dos animais. Ou seja, os cachorros davam mais indicação de que queriam a comida quando os tutores estavam olhando para eles.

A comunicação visual entre o ser humano e o cão é importante em vários contextos, principalmente em adestramentos e no reforço do vínculo afetivo de amizade do animal com as pessoas que vivem à sua volta. Quando aprendemos a olhar, analisar e compreender o comportamento dos animais, elos mais fortes são estabelecidos. Carine indica ainda que “se desejamos que os cães sejam mais comunicativos é necessário que haja maior interação com eles” e fazer dos momentos das refeições e das brincadeiras “oportunidades para reforçar essas habilidades”, sugere a pesquisadora, que atualmente é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A pesquisa fez parte da tese de doutorado Comunicação funcionalmente referencial e intencional nos cães (canis familiaris), defendida em 2013 por Carine Savalli Redigolo, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, sob a orientação da professora Briseida Dogo de Resende. O início desta pesquisa teve a orientação do mais renomado especialista em Etologia, disciplina que estuda o comportamento animal, professor César Ades, pesquisador do IP que morreu em 2012.

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