Aumento de mortes e infectados pela covid-19 acentua percepção de desamparo

Lideranças comunitárias apontam continuidade de problemas como fome, falta de renda e desinformação, relata nota da Rede de Pesquisa Solidária

Moradores de Afuá, no arquipélago de Marajó, no Pará; registro regular de informações sobre os principais problemas que populações de comunidades vulneráveis enfrentam com a pandemia permite gerenciamento de riscos pelo poder público e pelas próprias comunidades – Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O aumento das mortes e a expansão do contágio da covid-19 tornou-se flagrante para as comunidades mais vulneráveis de cidades brasileiras, revela a segunda onda de coleta de dados do painel de monitoramento com lideranças comunitárias sobre os impactos do avanço da pandemia da covid-19, realizado pela Rede de Pesquisa Solidária. A fome e a falta de renda continuam entre os problemas graves apontados pelas lideranças, que ainda enfrentam a desinformação, as notícias falsas e o desencontro entre recomendações das autoridades públicas. O registro regular de informações sobre os principais problemas que essas populações enfrentam com a pandemia permite a antecipação de crises e o gerenciamento de risco pelo poder público e pelas próprias comunidades.

O estudo ouviu, identificou e sistematizou problemas críticos relatados por lideranças de mais de 70 comunidades, bairros, territórios e localidades de alta vulnerabilidade social em diferentes regiões metropolitanas do País. Para este Boletim, foram contatadas as mesmas lideranças da primeira onda de monitoramento consolidada no Boletim 7 (22 de maio), assim como novos representantes de outras regiões metropolitanas, o que aumentou o escopo territorial da pesquisa. Desta vez, além de seis regiões metropolitanas de Manaus, Recife, DF, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, foram incluídos relatos de lideranças das regiões de Campinas, Salvador, Joinville e Maringá.

As entrevistas foram realizadas entre os dias 25 de maio e 5 de junho de 2020. Como na primeira onda, os resultados foram colhidos do depoimento direto de 79 lideranças (de um total de 108 contatadas) que responderam perguntas rápidas e padronizadas por meio de aplicativos de celular. A coordenação do levantamento é de Graziela Castello, Priscila Vieira e Monise Picanço, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), com participação de Dafny Almeida, Daniela Costanzo, Jaciane Milanezi, do Cebrap, e de Jonatas Mendonça dos Santos, Laura Simões e Rodrigo Brandão, da USP.

As lideranças e representantes comunitários são fontes estratégicas de informação do estudo, pois estão cotidianamente mobilizados no enfrentamento dos problemas mais graves que atingem suas localidades. Em diálogo constante com a população, recebem demandas, gerenciam conflitos e possuem olhar mais integrado dos territórios em que atuam. Cabe registrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta a importância do engajamento comunitário para a efetiva comunicação dos riscos e do controle da epidemia em contextos locais, principalmente nas comunidades mais vulneráveis. Por seu conhecimento do território, por sua experiência e pela capilaridade de suas redes pessoais, as lideranças comunitárias exercem papel-chave na disseminação de medidas de prevenção ao vírus e na construção de soluções alternativas aos danos sociais da pandemia.

A primeira pergunta realizada foi sobre a percepção de problemas e dificuldades enfrentados pelas comunidades em decorrência da pandemia e replicou a formulação utilizada na primeira onda do estudo. A reiteração procura captar mudanças na percepção de risco assim como a emergência de problemas novos. A segunda pergunta, aplicada pela primeira vez nesse Painel, voltou-se para a identificação de soluções e iniciativas coletivas ou individuais criadas e desenvolvidas pelas próprias comunidades no enfrentamento da pandemia.

 


Ouça entrevista da pesquisadora Priscila Vieira ao Jornal da USP no Ar:

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Resultados
A nova coleta de dados do Painel aponta que os problemas materiais causados pela pandemia – como fome e dificuldade de acesso à renda e emprego – figuram novamente como os mais citados entre as lideranças comunitárias de dez regiões metropolitanas do País. Cerca de 67% das lideranças trouxeram relatos sobre fome e privação de alimentação. O acesso a trabalho e renda segue como o segundo problema mais citado, situação que se agrava por conta das dificuldades de acesso ao Auxílio Emergencial do governo federal, apontado por cerca de 30% dos informantes.

Já a percepção de aumento do contágio do vírus e de crescimento do número de óbitos se fortaleceu nessa segunda onda despontando como um problema relevante. Esse dado sugere que, para além dos impactos de natureza econômica, os efeitos da pandemia na saúde e na sobrevivência dessas populações tornam-se cada vez mais críticos com o avanço no tempo. A expansão do contágio foi apontada por 30,4% das lideranças, contra 5,6% na primeira onda; e o aumento de óbitos citado por 16,5%, ante 0% na primeira onda, foi relatado como fonte de medo e insegurança nas comunidades.

Imagem: Rede de Pesquisa Solidária
Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

Menções sobre aumento da insatisfação com a atuação do governo no enfrentamento da crise sanitária também emergiram espontaneamente nessa nova coleta, reiterando relatos recorrentes de falhas e lacunas no acesso a políticas públicas diversas. As duas ondas de monitoramento registraram ausências e falhas significativas na oferta de serviços de saúde, nos benefícios emergenciais que não chegam e na descontinuidade e imprecisão de ações de informação e de prevenção contra o vírus. Apesar dos esforços das inúmeras redes de solidariedade e de ajuda ocasional do próprio poder público, 40% das lideranças relataram que a doação de alimentos não é suficiente e apresenta problemas de coordenação e logística de difícil solução.

Apesar de forte presença nas mídias sociais, a ajuda de empresas, sindicatos e partidos políticos não ganhou destaque nas comunidades mais afetadas. Em sentido diverso, diante do desamparo apontado, as comunidades reagem à inação dos governos. 88% das lideranças e dirigentes de associações de bairro e de coletivos populares relataram a disseminação de iniciativas desenvolvidas pelas próprias comunidades para aplacar as necessidades materiais ou para educar e informar a população sobre as medidas mais adequadas de cuidado e prevenção contra a covid-19.

Mesmo com a limitação de recursos, há forte mobilização da sociedade civil para reduzir os efeitos da crise. Associações de bairro e entidades religiosas, políticas, culturais, assim como moradores autônomos, diante da ausência do poder público, atuam para responder às necessidades materiais, para educar e informar a população sobre as medidas adequadas de prevenção e cuidados diante da covid-19.

Imagem: Cebrap/USP
Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

 

A nota ressalta o pequeno número de relatos sobre a participação de empresas e mesmo de associações políticas nesses territórios. 10% das lideranças comunitárias citaram a atuação de movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos. No caso das empresas, o porcentual foi ainda mais baixo, com apenas 7,5% das citações. As associações políticas não são citadas nas iniciativas articuladas em rede e ainda são vistas com suspeição pelas lideranças. Os relatos questionam também a baixa participação de grandes empresas nas doações e percebem muitas vezes a atuação política nos territórios como estratégia de autopromoção para as próximas eleições.

Recomendações

De acordo com os autores da nota, como na primeira rodada de monitoramento, as informações coletadas sugerem que a coordenação dos esforços para distribuição de alimentos é fundamental. A ausência de uma atuação coerente e clara do poder público continua fonte de preocupação constante da população e estimula a formação de redes de apoio a partir dos próprios moradores. O suporte a essa malha de solidariedade é vital para a saúde e a sobrevivência de um grande número de famílias. A nota conclui que continua importante o combate à desinformação, que gera descrença e confusão sobre os perigos da covid-19, ressaltando ser fundamental que o poder público, em seus vários níveis, reconheça e ajude a impulsionar as iniciativas das comunidades.

A Rede de Pesquisa Solidária é uma iniciativa de pesquisadores para calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que procuram atuar em meio à crise da covid-19 para salvar vidas. O alvo é melhorar o debate e o trabalho de gestores públicos, autoridades, congressistas, imprensa, comunidade acadêmica e empresários, todos preocupados com as ações concretas que têm impacto na vida da população. Trabalhando na intersecção das Humanidades com as áreas de Exatas e Biológicas, trata-se de uma rede multidisciplinar e multi-institucional que está em contato com centros de excelência no exterior, como as Universidades de Oxford e Chicago.

A coordenação científica está com a professora Lorena Barberia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. No comitê de coordenação estão: Glauco Arbix (FFLCH e Observatório da Inovação), João Paulo Veiga (FFLCH), Graziela Castello, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Fábio Senne (Nic.br) e José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O comitê de coordenação representa quatro instituições de apoio: o Cebrap, o Observatório da Inovação, o Nic.br e o Incor. A divulgação dos resultados das atividades será feita semanalmente através de um boletim, elaborado por Glauco Arbix, João Paulo Veiga e Lorena Barberia. São mais de 40 pesquisadores e várias instituições de apoio que sustentam as pesquisas voltadas para acompanhar, comparar e analisar as políticas públicas que o governo federal e os Estados tomam diante da crise.

As notas anteriores estão disponíveis neste link.

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