Transtorno da personalidade antissocial pode atingir entre 1% e 2% da população mundial

O transtorno, associado a psicopatas, é mais comum do que se imagina e de difícil diagnóstico e tratamento, segundo especialista

 25/05/2021 - Publicado há 4 meses
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Normalmente associada, pelo imaginário coletivo, à agressividade e à falta de empatia, a complexidade da psicopatia transcende esses estereótipos. O Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS), como é conhecida a psicopatia, é uma desordem neuropsiquiátrica muito mais comum do que se imagina, atingindo cerca de 1% a 2% da população mundial, ou seja, uma a cada cem pessoas, de acordo com estudos acadêmicos. Considerando esta estatística, só no Brasil, seriam de 2 a 4 milhões de pessoas.

Isabela Scotton, psicóloga e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (Lapicc), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP explica que o TPAS pode ser compreendido dentro dos grupos de transtornos de personalidade, que correspondem a “um padrão persistente de pensamentos, emoções e comportamentos que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo”. 

Agressividade e manipulação são algumas das características da psicopatia – Foto: Pixabay

 

Isabela completa dizendo que é um desvio tanto de cognição, afeto e funcionamento interpessoal, como de comportamentos e controle de impulsos, “que estão dentro do grupo dos transtornos disruptivos, que envolvem problemas de autocontrole das emoções e comportamentos que violam os direitos dos outros”.

A psicóloga informa que os aspectos centrais do TPAS são “falsidade e manipulação, e envolvem padrões repetitivos e persistentes de um comportamento no qual os direitos básicos dos outros ou as principais regras sociais são violados”. Outros comportamentos específicos “podem envolver agressão a pessoas, ou animais, destruição de propriedade, fraude, roubo ou violações graves a regras”. 

Segundo artigo da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, aproximadamente 80% das pessoas que desenvolvem o TPAS apresentam os primeiros sintomas a partir dos 11 anos de idade, podendo ser mais perceptíveis a partir dos 15 anos, e continuam na vida adulta. “Essa prevalência pode diminuir com a idade, conforme o indivíduo aprenda a lidar com seus comportamentos”, explica a psicóloga. 

Causas

As causas não são simples de explicar, diz a psicóloga, pois são resultado de uma complexa interação entre fatores biológicos, genéticos, sociais e ambientais que podem gerar uma predisposição para que o indivíduo desenvolva o transtorno. “Existe um correlato neural genético característico das pessoas que tendem a desenvolver o transtorno de personalidade antissocial.” E acrescenta que a falha na relação entre áreas do cérebro, como, por exemplo, o córtex pré-frontal, o córtex ventromedial, a amígdala e o sistema límbico, “pode causar um prejuízo no desenvolvimento de comportamentos pró-sociais”.

Um outro fator de risco apontado pela pesquisadora está relacionado aos aspectos biológicos, que não são de natureza genética, mas interferem no desenvolvimento da personalidade e são parte de um substrato inato ao indivíduo. Como exemplo ela cita que pacientes diagnosticados com TPAS podem apresentar tendência a ter um comportamento mais agressivo, níveis mais elevados de testosterona, baixos níveis de serotonina, características temperamentais como extroversão e impulsividade. “Essas características que podem influenciar a pessoa a desenvolver ou não esse transtorno comporiam o que a gente chama de predisposição para a pessoa desenvolver.” 

Para a pesquisadora é importante destacar também a influência de fatores ambientais e sociais, que podem estar relacionados à predisposição das pessoas a desenvolverem esse transtorno, principalmente as experiências primitivas que ela teve na infância. Experiências de violência experimentadas pela criança no início da vida, de muita negligência, pouco afeto, “têm apresentado uma correlação importante nas pessoas que desenvolveram esse transtorno”, de acordo com Isabela. Contudo, no TPAS se trata de uma relação de causa e efeito, ressalta a psicóloga, “a gente tem sempre que levar em consideração que é essa interação complexa, mas tem essas características que podem ser associadas ao desenvolvimento do transtorno”.

Não há cura para o TPAS, mas o tratamento pode ajudar o paciente a conviver com os sintomas. “Em geral, os tratamentos seguem a mesma linha de raciocínio de qualquer condição crônica. Ou seja, as condições básicas não podem ser mudadas, muito dificilmente essa pessoa vai se tornar uma pessoa afetiva, empática. Mas busca-se um alívio da sintomatologia, com o tratamento do comportamento agressivo, instabilidade de humor, irritabilidade e impulsividade, por exemplo, por meio de alguns recursos psiquiátricos, algumas medicações psiquiátricas, e tratamentos terapêuticos.”

Associação com atividades criminosas

Embora seja difícil realizar o diagnóstico do TPAS, sendo possível apenas após o indivíduo alcançar os 18 anos de idade, os personagens retratados pelo cinema influenciaram a associação de psicopatas com atividades criminosas. No Brasil, a estimativa é de que os psicopatas ocupem 20% das vagas nas prisões brasileiras, considerando as estatísticas de 1% a 2% da população mundial.

Jack Torrance, personagem principal do longa O Iluminado (1980), é um dos psicopatas mais memoráveis da sétima arte – Foto: Divulgação

 

Entretanto, “existem pessoas que são psicopatas e não são criminosas, mas todo criminoso que é psicopata tem transtorno de personalidade antissocial”, explica a psicóloga Isabela. O contrário também é possível, “existem pessoas na sociedade que são psicopatas e não necessariamente estão no sistema penal”. 

A associação pode ser explicada “pelas características do transtorno, justamente por ser um padrão de não reconhecer, não sentir empatia pelo sofrimento das outras pessoas, e de ser um padrão persistente de violação dos direitos das outras pessoas. Dá para a gente entender, então, que muitas vezes vai culminar nessas pessoas se engajarem em atividades criminosas”. No entanto, a pesquisadora destaca que “é importante a gente diferenciar que nem todo criminoso é uma pessoa que tem o transtorno de personalidade antissocial”, visto que há pessoas que não têm esse transtorno e também cometem crimes.


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