Fóssil do mais antigo dinossauro encontrado na África preenche lacuna geográfica entre Brasil e Índia

A coleção de registros fósseis, encontrada no Zimbábue, sugere que os primeiros dinossauros estavam restritos ao sul da Pangeia, supercontinente que existiu na Terra durante a Era Paleozoica

 Publicado: 20/09/2022  Atualizado: 21/09/2022 as 21:18
Por
Mandíbula parcial de Mbiresaurus raathi – Foto de Zach Murphy

 

A descoberta de um novo conjunto de fósseis no norte do Zimbábue, na África, sugere que os primeiros dinossauros, que viveram há cerca de 230 milhões de anos, estavam restritos a certas faixas climáticas do sul da Pangeia e, apenas mais tarde, em sua história evolutiva, se dispersaram para outras partes do mundo. Pangeia é o nome dado ao supercontinente que existiu na Terra na Era Paleozoica, entre 200 e 540 milhões de anos, quando todos os continentes atuais estavam unidos em um único bloco, cercado por um único oceano, chamado Pantalassa.

O registro de fósseis de dinossauros antigos, que viveram há cerca de 230 milhões de anos, são extremamente raros e foram registrados, principalmente, no norte da Argentina, no sul do Brasil e na Índia. Este achado preenche uma lacuna geográfica crítica, como explica o professor Max Langer, do Laboratório de Paleontologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.  “A descoberta do Mbiresaurus raathi mostra que a América do Sul não é a única portadora dos dinossauros mais antigos do mundo, indicando que as origens do grupo devem ser buscadas no ‘paleocinturão temperado do Sul’, faixa de terra que hoje abrange também a Índia e o Sul da África.”

Professor Max Langer – Foto: Reprodução/Lattes

As escavações, lideradas pelo Departamento de Geociência da Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos – que inclui Langer e paleontólogos do Museu de História Natural do Zimbábue -, foram descritas em um artigo que acaba de ser publicado na revista científica Nature.

Os cientistas foram responsáveis pela descoberta e nomeação do mais antigo sauropodomorfo africano – um dinossauro de pescoço comprido, herbívoro, e tido como um dos maiores animais que já caminharam sobre a Terra. Ele recebeu o nome científico Mbiresaurus raathi, em homenagem ao distrito onde os fósseis foram encontrados (Mbire), a uma histórica dinastia Shonda, que governou a região, e ao paleontólogo Michael Raath, que foi o primeiro a relatar fósseis nesta região. 

“A descoberta dos fósseis da Formação Pebbly Arkose, que até então era conhecida pela escassez de fósseis, é emocionante. Uma série de sítios à espera de exploração futura foram registrados, destacando o potencial da área para adicionar materiais científicos mais valiosos”, declarou Darlington Munyikwa, do Museu de História Natural do Zimbábue, no texto divulgado sobre a descoberta.

Lacuna geográfica crítica entre o Brasil e a Índia

A descoberta reforça a ideia de que os continentes sul-americano e africano “faziam parte de uma massa de terra contínua durante o Triássico Superior”, o supercontinente chamado Pangeia, “cujo clima teria sido dividido em cinturões latitudinais, com desertos nas regiões tropicais e áreas temperadas mais úmidas”.

“Os primeiros dinossauros como o Mbiresaurus raathi mostram que a evolução inicial dos dinossauros ainda está sendo escrita a cada nova descoberta e a ascensão dos dinossauros foi muito mais complicada do que a prevista anteriormente”, declarou Sterling J. Nesbitt, da Virginia Tech, no texto de divulgação.

Reconstrução artística de Mbiresaurus raathi (primeiro plano), com o restante da fauna fóssil do Triássico do Zimbábue ao fundo. Dois rincossauros (direita à frente), um aetossauro (esquerda) e um dinossauro herrerassaurídeo perseguindo um cinodonte (direita ao fundo) – Arte de Andrey Atuchin

A hipótese é que esses cinturões climáticos teriam influenciado a distribuição dos organismos vivos pelo globo terrestre. No caso dos dinossauros, a dispersão inicial teria sido controlada pela latitude, “correspondendo ao cinturão temperado do Sul”. Durante o final do período Triássico (de 252 a 201 milhões de anos) o norte do Zimbábue estava posicionado ao longo desse mesmo cinturão, o que direcionou o trabalho dos pesquisadores. 

Para reforçar essa afirmação, eles desenvolveram um método para testar a existência de barreiras climáticas à dispersão, a partir de um modelo baseado na paleogeografia e na árvore genealógica dos dinossauros. “Encontramos fortes evidências da existência de barreiras à dispersão dos primeiros dinossauros, que se restringiam ao sul da Pangeia. A ruptura delas e uma onda de dispersão dos dinossauros para o Norte coincidiram com um período de intensa umidade (o chamado “Evento Pluvial do Carniano”), fazendo com que os dinossauros atingissem uma distribuição mundial.”

Além do Mbiresaurus raathi também foi encontrado um outro tipo de dinossauro, o herrerassaurídeo, um predador carnívoro de grande porte, com cerca de dois metros de altura do quadril ao chão e bípede. Precursores dos mamíferos (cinodontes), parentes distantes dos jacarés (aetossauros) e répteis arcaicos (rincossauros) também estavam no conjunto de fósseis. Todos semelhantes a animais encontrados na América do Sul e Índia, que datam do mesmo período. Os espécimes estão, agora, depositados no Museu de História Natural do Zimbábue, em Bulawayo.

Características do Mbiresaurus raathi

O esqueleto, quase intacto, foi encontrado durante escavações no norte do Zimbábue, em 2017 e 2019, e é, agora, o mais antigo sauropodomorfo já encontrado na África. Estima-se que o animal tinha cerca de 2 metros de comprimento, com uma cauda longa de aproximadamente meio metro, e pesava de 10 a 30 quilos (kg). 

Equipe da expedição de 2017 carregando bloco de rocha contendo Mbiresaurus raathi – Foto de Stephen Tolan

Segundo o estudo, 90% do esqueleto foi preservado, faltando somente alguns ossos da mão e do crânio, e encontrado parcialmente articulado, com alguns ossos ainda conectados, por isso é considerado “um dos mais completos dos primeiros dinossauros conhecidos”, afirmam os pesquisadores. 

“Quando encontrei o fêmur (osso da coxa) do Mbiresaurus raathi, reconheci imediatamente que pertencia a um dinossauro e sabia que estava segurando o dinossauro mais antigo já encontrado na África. Quando continuei cavando e encontrei o osso do quadril esquerdo bem ao lado do fêmur, tive que parar e respirar – sabia que muito do esqueleto provavelmente estava lá, ainda articulado em posição de vida”, declarou o professor Christopher Griffin, da Virginia Tech, no texto de divulgação.

Outras características do Mbiresaurus raathi são de um animal que se deslocava de forma bípede, com os membros posicionados diretamente abaixo do corpo; possuía uma cabeça relativamente pequena, assim como todos os seus parentes sauropodomorfos; dentes pequenos, serrilhados, em forma de triângulo, que são indícios de “uma dieta herbívora ou potencialmente onívora”. O exame de seções transversais do osso do dinossauro sugere, ainda, que ele crescia rapidamente, como outros dos primeiros dinossauros. 

Mais informações: e-mail mclanger@ffclrp.usp.br, com Max C. Langer


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.