Obra do inglês Orlando Gibbons marca tradição no canto coral

“The Silver Swan”, publicada em 1612, reflete sua maestria na transição do Renascimento para o Barroco. Inspirada na lenda do canto do cisne, a composição filosófica aborda a mortalidade com serenidade

 Publicado: 24/05/2024

 

A imagem retrata uma pintura com vários matizes de azuis e cinco cisnes brancos em um lago.
Les Cygnes (1899), pintura do francês Francis Jourdain

 

Homem branco de óculos com lentes no formato retangular e cabelos lisos castanhos. Camiseta branca e em frente a um fundo branco.
Alberto Cunha, regente do Coralusp

Hoje vamos apreciar uma obra coral do compositor inglês Orlando Gibbons (1583-1625). Ele foi um músico formado na forte tradição de canto coral da Inglaterra. Foi menino cantor do King’s College, em Cambridge (coro que existe até hoje!), e posteriormente atuou também como organista na Chapel Royal e na Abadia de Westminster. Além disso, teve formação acadêmica em Cambridge e Oxford. Um dos mais importantes compositores ingleses do início do século 17, Gibbons escreveu muita música sacra e secular, música vocal, a instrumental.

A peça que vou comentar é The Silver Swan, uma composição a cinco vozes, de caráter filosófico, cuja partitura foi publicada em 1612. Gibbons adota uma escrita polifônica, mas com contraponto despojado, límpido e elegante. As harmonias bem definidas refletem o momento histórico em que a obra foi composta, na transição entre o Renascimento e o Barroco.

Gibbons inspirou-se na lenda do canto do cisne, segundo a qual o único momento em que o cisne canta em toda a sua vida é na hora da morte. A letra da música diz:

“O cisne prateado que, vivendo, nunca emitiu um som,

Na proximidade da morte liberou sua garganta silente.

Reclinou seu corpo junto a uma margem juncosa 

E pela primeira e última vez cantou,

E então nunca mais.

 

Adeus, todas as alegrias, 

A morte vem fechar meus olhos.

E agora vivem mais gansos que cisnes,

Mais tolos que sábios.”

 

Apesar da aparência trágica do texto, Gibbons prefere destacar o conteúdo filosófico, elaborando uma peça que flui com serenidade, como um cisne deslizando na água, sem nenhum elemento apelativo. Esse tratamento amplia grandemente a expressividade da canção.

É interessante observar que na lápide de Gibbons, entre outras informações, encontram-se os dizeres: “Com o toque de seus dedos, ele emulou a harmonia das esferas”.

 

*Texto escrito por Alberto Cunha, regente dos grupos Coralusp Jupará e Coralusp Zimana


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