Protagonismo das bancadas temáticas no novo governo traz desafios

Para cientista político, organização dos partidos diante da proposta de Bolsonaro é uma questão em aberto

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O presidente eleito Jair Bolsonaro afirmou ontem (27), em Brasília, que a articulação política de seu governo, especialmente com o Congresso Nacional, será comandada pelo futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Ele será auxiliado nessa tarefa pelo general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz, anunciado como secretário de Governo. Segundo Bolsonaro, Lorenzoni está montando um time de ex-parlamentares para assessorá-lo na articulação com o Parlamento, mas destacou que essa é uma responsabilidade de todos os integrantes do governo. A equipe diz que não está negociando com partidos, mas com bancadas. Bolsonaro voltou a defender o modelo de articulação com bancadas temáticas no Congresso e disse que esse é o modelo possível na atual conjuntura do País.

Em entrevista ao Jornal da Usp no Ar, o doutor em Ciência Política pela USP, Rafael Cortêz, apontou dois principais problemas para essa forma de organização da relação do Executivo com o Legislativo. A primeira é o fato de que as bancadas já costumam ter agendas políticas bem definidas, dificultando a aprovação de propostas fora de seus interesses. A segunda é que esse modelo faz com que cada uma das políticas seja votada de maneira isolada, o que, na opinião do especialista, é uma visão bastante simplista, já que, em algum momento, as diferentes bancadas entrarão em descordo entre si.

Foto: Wilson Dias/EBC/FotosPúblicas

Para Cortêz, a organização dos partidos frente a essa situação ainda é uma questão em aberto. A oposição tenta se organizar de forma a também não centralizar os partidos, mas isso esbarra no fato de que o Partido dos Trabalhadores (PT) possui a maior bancada legislativa, o que pode indicar uma tendência de que a oposição se mantenha fragmentada durante o novo governo. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), por sua vez, foi, segundo ele, o partido que mais sofreu os efeitos da crise dos partidos nesta eleição e tem duas alternativas: seguir como oposição, de forma independente, ou construir uma relação mais próxima com o governo Bolsonaro.

Cortêz indica também a importância de que o novo governo busque criar uma coalizão, para que o sistema político brasileiro volte a ser minimamente organizado. Se isso não ocorrer, ele projeta que o País corra o risco de basear a política em personalismo, com partidos que nada significam para o eleitor.

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